Oculto nos padrões alternantes de dígitos, profundamente no interior do número transcendente, estava um círculo perfeito, com a sua forma traçada por unidades num campo de zeros.
O universo era feito de propósito, dizia o círculo. Fosse em que galáxia fosse que uma pessoa se encontrasse, tomava a circunferência de um círculo, dividia-a pelo seu diâmetro, media com rigor bastante e descobria um milagre: outro círculo, desenhado quilômetros a jusante da vírgula decimal. Haveria mensagens mais ricas mais para o interior. Não importa o nosso aspecto, aquilo de que somos feitos, ou de onde viemos. Desde que vivemos neste universo e tenhamos um talento modesto para a matemática, mais cedo ou mais tarde descobri-lo-emos. Já aqui se encontra. Está dentro de tudo. Não precisamos de deixar o nosso planeta para o encontrarmos. No tecido do espaço e na natureza da matéria, como numa grande obra de arte, encontra-se, em letras pequenas, a assinatura do artista. Erguendo-se acima de humanos, deuses e demônios, subsumindo, zeladores e construtores de túneis, existe uma inteligência que antecede o universo.
O círculo fechara-se.
Ela encontrara o que andara a procurar.
FIM
Embora tenha sido, evidentemente, influenciado por aqueles que conheço, nenhuma das personagens deste livro é um retrato exato de uma pessoa real. No entanto, deve muito à comunidade mundial SETI — um pequeno grupo de cientistas de todo o nosso pequeno planeta trabalhando em conjunto, por vezes perante obstáculos desencorajadores, à escuta de um sinal vindo do firmamento. Gostaria de reconhecer uma dívida especial de gratidão para com os pioneiros da SETI, Frank Drake, Phillip Morrison e o falecido I. S. Shklovskii. A procura de inteligência extraterrestre está agora a iniciar uma nova fase, com dois grandes programas em marcha: a exploração META/Sentinel de oito milhões de canais da Universidade de Harvard, patrocinada pela Sociedade Planetária sediada em Pasadena, e um programa ainda mais complexo sob os auspícios da National Aeronautics and Sace Administration. A minha esperança mais sentida em relação a este livro é que o ritmo da descoberta científica real o torne obsoleto.
Vários amigos e colegas tiveram a gentileza de ler um rascunho inicial e/ou fazer comentários pormenorizados que influenciaram a forma presente do livro. Estou-lhes profundamente grato, e inclusivamente a Frank Drake, Pearl Druyan, Lester Grispoon, Irving Gruber,Jon Lomberg, Philip Morrison, Nancy Palmer, Will Provme, Stuart Shapiro, Steven Soter e Kip Thome. O Prof. Thorne deu-se ao trabalho de estudar o sistema de transporte galáctico aqui descrito, gerando cinqüenta linhas de equações na física gravitacional relevante. Devo conselhos proveitosos, quanto a estilo ou conteúdo, a Scott Meredith, Michael Korda, John Herman, Gregory Weber, Clifton Fadiman e ao falecido Theodore Sturgeon. Durante os muito estádios da preparação deste livro, Shirley Arden trabalhou longa e impecavelmente; estou-lhe muito grato, e a Kel Arden. Agradeço a Joshua Lederberg ter-me sugerido pela primeira vez, há muitos anos e porventura de brincadeira, que poderia viver uma forma elevada de inteligência no centro da Galáxia da Via Láctea. A idéia tem antecedentes, como todas as idéias, e algo similar parece ter sido encarado por volta de 1710 por Thomas Wright, a primeira pessoa a mencionar explicitamente que a Galáxia podia ter um centro. No frontispício do livro está reproduzida uma xilogravura de Wright representando o centro da Galáxia.
Este romance derivou de um estudo para um filme que Ann Druyan e eu escrevemos em 1980-81. Lynda Obst e Gentry Lee facilitaram essa fase inicial. Em todas as fases da escrita beneficiei tremendamente do auxílio de Ann Druyan — desde a conceptualização inicial do enredo e das personagens fulcrais até à revisão final das provas. O que com ela aprendi ao longo de todo o processo é o que mais caro me é no tocante à escrita deste livro.
PARTE I — A MENSAGEM
Capítulo I Números transcendentes
Capítulo II Luz coerente
Capítulo III Ruído branco
Capítulo IV Números primos
Capítulo V Algoritmo descriptografador
Capítulo VI Palimpsesto
Capítulo VII O etanol em W-3
Capítulo VIII Acesso ao acaso
Capítulo IX O numinoso
PARTE II — A MÁQUINA
Capítulo X Precessão dos equinócios
Capítulo XI O Consórcio Mundial da Mensagem
Capítulo XII O isômero delta-um
Capítulo XIII Babilônia
Capítulo XIV Oscilador harmônico.
Capítulo XV Tubo de érbio.
Capítulo XVI Os anciãos do ozono.
Capítulo XVII O sonho das formigas
Capítulo XVIII Superunificação
PARTE III — A GALÁXIA
Capítulo XIX Singularidade nua
Capítulo XX Grand Central Station
Capítulo XXI Causalidade
Capítulo XXII Gilgamesh
Capítulo XXIII Reprogramação
Capítulo XXIV A assinatura do artista
Professor universitário cuja categoria se situa entre a de professor catedrático e a de assistente (N. da T.)
Tanga usada pelos Hindus na Índia. (N. da T.)
Como este livro trata da inteligência humana e da inteligência extraterrestre, convém esclarecer que esta Intelligence aqui é outra e se traduz por «informação»: serviços de informação ou, menos eufemisticamente, espionagem (N. da T.)
Além de termo de calão para significar uma substância suja, viscosa, repugnante, gook passou a ser uma maneira pejorativa de dizer «oriental», principalmente depois das guerras da Coreia e do Vietname. (N. da T.)
Cometer o mesmo erro outra vez. (N. da T.)
As duas formas significam «queimar», embora o burn down tenha talvez um pouco mais de força, signifique «destruir», «arrasar pelo fogo» (N. da T.)
To screze, simplesmente, é «aparafusar», «atarraxar», etc. Com a partícula up passa a ser um termo de calão: «lixar» ou, pior, «copular» etc. Não se emprega, de fato, a partícula down (N. da T.)
Traduzido literalmente, é estar de «cabeça sobre os pés de amor», mas significa «loucamente apaixonado», «perdido de amor», «doido de amor», etc. Head over heels, somente, também significa «rolar às cambalhotas».. (N. da T.)
A palavra inglesa usada é straight, cuja tradução correta, neste contexto, deveria ser «franco». Mas o comentário do interlocutor da cientista obriga a esta pequena incorreção. (N. da T.)
A hilaridade devia-se ao fato de Lorde do Selo Privado (funcionário que tem a seu cargo o uso do selo do Estado em assuntos de pequena importância) se dizer em inglês Lord Privy Seal, e privy também significar «latrina». (N. da T.)
Palavra anglo-indiana designativa de alguém com determinada ocupação. (N. da T.)
Carruagem aberta de quatro rodas, puxada a cavalos, antigamente usada na Rússia. (N. da T.)
Mainframe computer: computador de grandes dimensões e grande capacidade, com uma grande unidade central de processamento e uma grande memória. (N. da T.)
O termo usado pelo autor é rapture, que, além de «êxtase» também significa, no inglês americano, «transporte de uma pessoa de um lugar para outro, especialmente para o céu». Creio que é neste último sentido que o autor usa a palavra. (N. da T.)
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