Ellie abanou a cabeça e caminharam mais um momento em silêncio, antes de ele continuar:
— Seja, pronto. Compreendo. Demore o tempo que tiver de demorar. Mas, se houver alguma maneira de apressar as coisas, utilize-a… por mim. Falta menos de um ano para o Milênio.
— Eu também compreendo. Tenha paciência comigo durante mais uns meses. Se até lá não encontrarmos alguma coisa em pi, considerarei a idéia de tornar público o que aconteceu lá em cima. Antes de 1 de Janeiro. Talvez Eda e os outros estejam dispostos a falar também. De acordo?
Retrocederam em silêncio na direção do edifício da administração de Argus. Os aspersores estavam a regar o parco relvado e eles contornaram uma poça de água que, naquela terra ressequida, parecia estranha, deslocada.
— Alguma vez foi casada? — perguntou ele.
— Não, nunca fui. Creio que tenho andado demasiado ocupada.
— Alguma vez esteve apaixonada? — a pergunta foi franca, natural.
— Estive a meio caminho, meia dúzia de vezes. Mas… — olhou para o telescópio mais próximo — havia sempre tanto ruído que o sinal era difícil de encontrar. E você?
— Nunca — respondeu sem hesitar. Fez uma pausa e depois acrescentou, com um leve sorriso: — Mas eu tenho fé.
Ela resolveu não aprofundar, naquele momento, aquela ambigüidade e subiram o curto lanço de degraus para examinar o computador mainframe.
CAPÍTULO XXIV
A assinatura do artista
Atentai, falo-vos de um mistério; não dormiremos todos, mas seremos todos mudados.
CORÍNTIOS, 15:51
O universo parece… ter sido determinado e ordenado de acordo com número, pela antevisão e pela mente do criador de todas as coisas; pois o padrão foi fixado, como um esboço preliminar, pelo domínio do número preexistente na mente do Deus criador do mundo.
NICOMACO DE GERASA — aritmética, 6 (cerca de 100 d.C.)
Ellie correu pela escada do lar de idosos acima e, na varanda recém-pintada de verde, assinalada a intervalos regulares por cadeiras de balanço vazias, viu John Staughton — curvado, imóvel, de braços caídos como pesos mortos. Segurava na mão direita um saco de compras no qual ela vislumbrou uma touca de banho transparente, um estojo de maquilagem florido e dois chinelos de quarto enfeitados com pompons cor-de-rosa.
— Ela morreu — disse Staughton, de olhos fixos. — Não entres — pediu. — Não a vejas. Ela detestaria que a visses assim. Sabes quanto orgulho tinha no seu aspecto. De qualquer modo, ela não está ali.
Quase maquinalmente, levada pela longa prática e por ressentimentos ainda não abandonados, sentiu-se tentada a virar-lhe as costas e a entrar, apesar de tudo. Estava preparada, mesmo agora, para o desafiar por uma questão de princípio? Mas qual era exatamente o princípio? Pela expressão destroçada do seu rosto, não havia dúvidas quanto à autenticidade do seu remorso. Ele amara a mãe dela. Talvez, pensou, a tenha amado mais do que eu — avassalou-a uma onda de auto-recriminação. A mãe fora tão débil durante tanto tempo que Ellie imaginara muitas vezes como reagiria quando o momento chegasse. Recordou como a mãe era bonita no retrato que Staughton lhe enviara e, de súbito, mal-grado os ensaios que fizera para aquele momento, foi sacudida por soluços.
Surpreendido com a sua angústia, Staughton mexeu-se para a confortar. Mas ela levantou a mão e, com esforço evidente, recuperou o autodomínio. Nem mesmo numa altura daquelas era capaz de o abraçar. Eram desconhecidos, estranhos tenuemente ligados por um cadáver. Mas ela errara — sabia-o no âmago do seu ser — ao culpar Staughton pela morte do seu pai.
— Tenho uma coisa para ti — disse ele, a remexer no saco das compras.
Algum do conteúdo circulou entre o fundo e a parte de cima, e ela viu, além do que já vira, uma carteira de imitação de cabedal e uma caixa de plástico de guardar dentaduras. Teve de desviar o olhar. Por fim, ele endireitou-se e apresentou um sobrescrito que o tempo envelhecera.
Tinha escritas as palavras «Para a Eleanor». Ao reconhecer a caligrafia da mãe, Ellie fez um gesto para lhe pegar. Mas Staughton recuou um passo, assustado, de sobrescrito levantado à frente da cara, como se ela tivesse feito menção de lhe bater.
— Espera — pediu. — Espera. Sei que nunca nos entendemos. Mas faz-me este único favor: não leias esta carta antes desta noite! Está bem?
O desgosto fazia-o parecer dez anos mais velho.
— Por quê?
— A tua pergunta favorita! Faz-me apenas esta gentileza. É pedir demasiado?
— Tem razão. Não é pedir demasiado. Desculpe.
Ele olhou-a francamente nos olhos e disse:
— Seja o que for que te tenha acontecido naquela Máquina, talvez te tenha mudado.
— Desejo que sim, John.
Telefonou a Joss e pediu-lhe que se encarregasse do serviço fúnebre.
— Não preciso de lhe dizer que não sou religiosa. Mas havia ocasiões em que a minha mãe era. Você é a única pessoa que eu gostaria que o fizesse e tenho a certeza de que o meu padrasto aprovará.
Joss prometeu-lhe que chegaria no primeiro avião.
No seu quarto de hotel, depois de jantar cedo, Ellie apalpou o sobrescrito, acariciou todas as suas rugas, todos os pontos desgastados da superfície. Era velho. A mãe devia tê-lo escrito havia anos e trazido nalgum compartimento da bolsa, debatendo consigo mesma se deveria entregá-lo ou não à filha. Não parecia ter sido fechado de novo, recentemente, e Ellie perguntou a si mesma se Staughton o lera. Parte dela ansiava por abri-lo, mas outra parte hesitava, com uma espécie de ressentimento. Ficou muito tempo sentada na mofenta cadeira de braços, a pensar, com os joelhos dobrados e levantados para o queixo.
Soou um besouro e o carreto não completamente silencioso do seu telefax despertou. Estava ligado ao computador de Argus. Embora lhe recordasse tempos antigos, agora não havia verdadeiramente nenhuma urgência.
O que quer que fosse que o computador encontrasse, não fugiria; não se poria com a rotação da Terra. Se havia uma mensagem escondida dentro de pi, esperaria eternamente por ela.
Voltou a examinar o sobrescrito, mas o eco do besouro intrometeu-se. Se havia conteúdo dentro de um número transcendental, só podia ter sido introduzido na geometria do universo logo no princípio. Este seu novo projeto era de teologia experimental. Mas o mesmo era toda a ciência, pensou.
«ATENÇÃO», imprimiu o computador no écran do telefax.
Ellie pensou no pai… bem, no simulacro do pai… Pensou nos zeladores com a sua rede de túneis através da Galáxia. Tinham testemunhado, e talvez influenciado, a origem e o desenvolvimento da vida em milhões de mundos. Estavam a construir galáxias, a isolar setores do universo. Podiam controlar pelo menos uma espécie de viagem no tempo limitada. Eram deuses para além do imaginário piedoso de quase todas as religiões — pelo menos de todas as religiões ocidentais. Mas até eles tinham as suas limitações. Não tinham introduzido a mensagem no número transcendental e nem sequer sabiam lê-la. Os construtores de túneis e os inscritores de pi eram quaisquer outros. Já não viviam aqui. Não tinham deixado nenhum endereço. Ellie supôs que, quando os construtores de túneis partiram, aqueles que eventualmente viriam a ser os zeladores se tinham tornado crianças abandonadas. Como ela, como ela.
Pensou na hipótese de Eda, de que os túneis eram buracos de vermes, distribuídos a intervalos convenientes à volta de inúmeras estrelas nesta e noutras galáxias. Pareciam buracos negros, mas tinham propriedades e origens diferentes. Não eram exatamente isentos de massa, porque ela vira-os deixar esteiras gravitacionais nos resíduos em órbita no sistema de Vega. E através deles passavam e ligavam a Galáxia seres e naves de muitas espécies.
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