— Não muito bem. Só um dos nossos físicos o perceberia.
— O perigo são os universos negativos que nos rodeiam. A teoria demonstra que qualquer universo positivo deve estar rodeado de dois universos negativos. Se nos afastamos muito do nosso universo, corremos o risco de encontrar um deles: a nossa matéria desapareceria numa prodigiosa fogueira de luz. É o que deve ter acontecido a alguns ksills, no início da experiência, que nunca mais regressaram. Depois aprendemos a controlar melhor a nossa passagem no ahun. Agora tenho de ir dirigir a manobra. Quer vir?
Passamos para o séall, a sala de direção. Souilik, debruçado sobre o quadro de comandos, estava ocupado em minuciosas manobras. Aass indicou-me um assento, dizendo:
— Aconteça o que acontecer, fique calado!
Iniciou, com Souilik, uma longa litania que me fez lembrar a check-list dos pilotos dos bombardeiros pesados. Após cada resposta Souilik puxava um manipulo, rodava um botão, baixava uma alavanca. Quando a manobra terminou Aass voltou-se para mim e arvorou um dos seus singulares sorrisos.
— Ahêsch! — gritou.
Durante dez segundos nada aconteceu. Eu aguardava, angustiado. Então o ksill estremeceu violentamente e tive de me agarrar aos braços da cadeira para não cair.
Começou a ouvir-se um ruído surdo. Foi tudo. O silêncio voltou, o chão deixou de estremecer. Aass ergueu-se:
— Agora vamos esperar cento e um basikes.
Pedi que me explicasse o que era um basike. É a unidade de tempo deles, medida em minúsculos relógios. Um basike equivale a uma hora, onze minutos e dezenove segundos.
Não insistirei nesta espera de cento e um basikes. A vida no ksill é tão monótona como num dos nossos submarinos. Não havia nenhuma manobra a fazer. Os Hiss, com exceção de um guarda no séall, distraíam-se com um jogo que lembrava muito vagamente o das «damas», ou liam em volumosos livros impressos a azul numa matéria esquisita, ou, então, conversavam. Percebi rapidamente que, com exceção de Aass, Souilik e Essine, os outros não me respondiam quando tentava entrar em comunicação com eles Limitavam-se a sorrir-me e prosseguiam.
Aass ficou a maior parte do tempo fechado no laboratório. Souilik e Essine, pelo contrário, mostravam-se afáveis, faziam-me múltiplas perguntas sobre a Terra, a forma como os homens vivem, a história da humanidade. Iludiam habilmente as perguntas que eu lhes fazia, dando respostas evasivas, adiando sempre para outra ocasião os dados precisos. Apesar disso, sentia-os muito parecidos conosco.
Cansado de instruir os Hiss sobre a Terra sem receber informações em troca, fui procurar Aass, a quem expus a situação. Olhou-me demoradamente e depois respondeu: — Agem assim por ordem minha. Se os Sábios aceitarem a sua permanência em Ella, você terá muito tempo para aprender o que deseja. Entretanto, preferimos que não saiba muitas coisas sobre nós.
— Você acha que me mandarão embora? Não vejo que perigo possa representar a minha presença no planeta de vocês.
Mal pronunciara estas palavras, empalideci. Sim, havia perigo! E não só para eles!
Para mim, sobretudo. Na minha qualidade de médico já devia ter pensado nisso: os micróbios! Devia levar comigo milhões de germes aos quais o meu organismo estava adaptado, protegido por uma lenta auto-vacinação, mas que poderiam ser mortais para os Hiss. E eles decerto que eram portadores de germes mortais para mim.
Alarmado, transmiti as minhas reflexões a Aass, que sorriu. — Já há muito tempo que esse problema se levantara para nós. Para ser preciso, foi na época em que a nossa humanidade abandonou o nosso planeta natal, Ella-Ven, da estrela Oriabor, para colonizar Ella-Tan, da estrela Ialthar. Já não existe no seu corpo qualquer germe. E durante o seu primeiro sono a bordo, após a partida, submetemos você ao hassrn.
— O que é o hassrn?
— Você saberá mais tarde. Tiramos um pouco do seu sangue de maneira a podermos lhe re-imunizar, se você voltar de novo para a Terra. Quanto a nós, nada pode acontecer, pois de dois em dois dias somos submetidos aos raios do hassrn quando estamos num outro planeta, E, a propósito do sangue, que tiramos, me diga: todos os seres da Terra têm tanto ferro no sangue como você?
— Sim, exceto alguns invertebrados, cujo pigmento respiratório é na base do cobre.
— Então vocês são aparentados com os Milsliks!
— Quem são os Milsliks, de que estão sempre falando?
— Você saberá em breve. E o seu planeta também o saberá!…
E Aass acenou a cabeça, como sempre fazia quando dava uma conversa por terminada.
As horas — os basikes — passaram. Aass veio me procurar, para me levar ao séall, quando íamos passar novamente para o «Grande Espaço». Fizeram as mesmas manobras. Souilik pôs a funcionar o écran de visão: estávamos no vácuo, rodeados de estrelas uma estava nitidamente mais próxima de nós do que as outras. O diâmetro aparente era aproximadamente a terça parte do da Lua. Aass apontou para ela, dizendo:
— Ialthar, o nosso sol. Dentro de alguns basikes estaremos em Ella.
Foram longos esses Basikes! Fascinado, via crescer a estrela para onde nos dirigíamos. Ligeiramente azulada, logo me impressionou. Voltei depois a minha atenção para os planetas que giravam em sua volta. Souilik ensinou-me a manejar um periscópio, que, na realidade, era um potente telescópio. Em volta de Ialthar rodavam doze planetas Chamam-se, respectivamente, do mais distante ao mais próximo, Aphen, Sétor, Sigon, Héran, Tan, Sophir, Réssan, Marte — sim, Marte, uma curiosa coincidência —, Ella, Song, Eiklé e Roni. Sigon e Tan têm anéis como o nosso Saturno. O maior é Héran e os menores Aphen e Roni. Marte e Ella são das mesmas dimensões, um pouco maiores do que a Terra. Réssan, menor ainda, é habitado, bem como Marte e, evidentemente, Ella. Na maior parte dos outros planetas os Hiss possuem colônias industriais ou científicas, por vezes mantidas em condições difíceis.
Quase todos os planetas têm satélites, repartidos segundo uma curiosa lei numérica.
Roni e Eiklé não têm nenhum; Song tem um; Ella, dois (Ari e Arzi); Marte, três (Sen, San e Sun); Réssan, quatro (Atua, Atéa, Asua e Aséa); Sophir, cinco; Tan, seis. Depois os números decrescem novamente, até Sétor, que tem três, e Aphen, que não tem nenhum. Um dos satélites de Héran, um mundo enorme, maior do que Júpiter, tem as dimensões da Terra. Aphen está a onze bilhões de quilômetros de Ialthar! Note que todas estas informações só as obtive mais tarde.
Estávamos no Espaço, entre a órbita de Sophir e a de Réssan. Passamos perto deste último o suficiente para conseguir distinguir nitidamente, através do telescópio, uma cordilheira rodeada de nuvens. Em contrapartida, Marte estava muito longe, do outro lado de Ialthar. Finalmente, Ella deixou de ser um ponto perdido no céu para se tornar uma pequena esfera que aumentava de minuto para minuto.
SEGUNDA PARTE: UM MUNDO FANTÁSTICO
CAPÍTULO I
O PLANETA ELLA
Com grande tristeza minha, aterramos de noite. Quando penetramos na atmosfera de Ella o meu relógio marcava 7 horas e 20 minutos (ignorei sempre se da manhã ou da noite, na Terra). O céu estava encoberto de tal forma que pouco pude distinguir do planeta antes de penetrarmos na zona obscura: apenas, entre as nuvens, grandes superfícies brilhantes, provavelmente mares. Aterramos sem nenhum ruído ou oscilação. O ksill pousou no centro de uma superfície nua, obscura. Apenas algumas luzes brilhavam ao longe.
— Ninguém nos espera? — perguntei ingenuamente a Souilik.
— Esperar porque? Quem pode saber quando um ksill chega? Há centenas deles que exploram o Espaço! Esperá-los para quê? Anunciei a nossa chegada aos Sábios.
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