— Mas eu — disse ele em voz baixa e clara —, nunca mais serei feliz; sou um delator.
— Não é verdade! — respondi, exasperada. — Não és um delator! E mesmo que o tivesses sido podias ainda ser feliz. Há pessoas que cometeram verdadeiros crimes, e no entanto são felizes. Eu, por exemplo. Quando se diz uma mulher da rua, sabe Deus o que se imagina: ora eu sou uma rapariga como as outras. Muitas vezes sou até feliz. Nestes últimos dias — acrescentei com amargura — era tão feliz!
— Eras feliz?
— Sim, completamente! Mas sabia bem que não podia durar muito, e naturalmente…
Ao dizer isto tive outra vez vontade de chorar, mas contive-me.
— Tu julgavas ser muito diferente do que és… E o que aconteceu, aconteceu. Agora aceita ser como és realmente… e verás como tudo se arranjará depressa. No fundo sofres pelo sucedido porque tens vergonha e receias o julgamento dos outros, dos teus amigos… Pronto! Deixa de andar com eles, procura outras pessoas, o mundo é tão grande… Se eles não te querem o suficiente para compreenderem que isto não foi mais que um momento de fraqueza, fica comigo, eu amo-te, compreendo-te e não te julgo… Asseguro-te — gritei com força —, quanto pior fosse a acção que tivesses cometido mais serias para sempre o meu Jaime!
Nada replicou e eu continuei:
— Não sou mais que uma pobre rapariga ignorante, eu sei, mas há coisas que compreendo melhor do que tu. Eu também já passei pelo que tu sentes neste momento. A primeira vez que nos vimos, e em que tu nem sequer me tocaste, meteu-se-me na cabeça que era porque me desprezavas e de repente perdi até mesmo o gosto de viver. Sentia-me tão desgraçada! Gostaria de ser outra e ao mesmo tempo compreendia ser impossível e que continuaria sempre a ser o que era; tinha uma vergonha que me queimava, um aborrecimento, um desespero… sentia-me gelada. paralisada… por instantes desejei morrer. Depois, um dia, saí com minha mãe e entrei por acaso numa igreja, e ali, rezando. compreendi que no fundo nada havia de que corar… que se eu era feita desta maneira era porque Deus o tinha querido, que não me devia revoltar contra a minha sorte, mas, pelo contrário, aceitá-la com docilidade e confiança, e que se me desprezavas era por defeito teu e não meu… Em suma, pensei muitas coisas, e por fim passou-me toda a mortificação e senti-me de novo alegre.
Começou a rir, com aquele riso que me gelava, e disse:
— Em resumo, devia aceitar o que fiz e não me revoltar. Devia aceitar aquilo em que me tornei e não me julgar. Talvez que na igreja se possam passar essas coisas, mas fora da igreja…
— Pois bem! Vai à igreja! — propus-lhe, agarrando-me a esta nova esperança.
— Não, não irei. Não sou crente e a igreja aborrece-me. E depois…
Recomeçou a rir, depois, de repente, pôs-se sério, agarrou-me pelos ombros e começou a sacudir-me com violência, gritando:
— Mas tu não compreendes a minha acção? Não compreendes? Não compreendes?
Abanava-me com tal força que me cortava a respiração. Com uma última sacudidela atirou-me para trás e senti-o saltar da cama e começar a vestir-se às escuras.
— Não acendas a luz! — disse-me com ar ameaçador. — É preciso que eu me habitue a que me olhem outra vez de frente… por agora é ainda cedo. Ai de ti se a acendes!
Nem ousava respirar, mas acabei por perguntar:
— Vais-te embora?
— Sim, mas voltarei — disse-me.
Pareceu-me que ria de novo:
— Não tenhas medo, que voltarei… Devo mesmo dar-te uma boa notícia: tenciono viver contigo definitivamente.
— Aqui, em minha casa?
— Sim, mas não te incomodarei… terás a liberdade necessária para continuares com a tua vida habitual. De resto — acrescentou — poderemos viver os dois com o que me manda a minha família… dava para pagar a pensão… mas aqui em casa chega bem para os dois.
Esta ideia de ele viver em minha casa parecia-me mais estranha do que agradável. No entanto nada me atrevi a dizer. Acabou de vestir-se em silêncio, às escuras.
— Voltarei esta noite — disse-me.
Ouvi-o abrir a porta, sair e tornar a fechá-la. Fiquei com os olhos abertos fixos na escuridão.
Nessa mesma tarde, como Astárito me aconselhara, fui ao comissariado do bairro fazer um depoimento sobre a história de Sonzogne. Não entrava ali sem repugnância, porque depois do que acontecera a Jaime, tudo o que era polícia ou policial inspirava-me um mal-estar de morte. Mas agora já estava quase resignada. Compreendia que durante algum tempo a vida não teria o menor atractivo para mim.
— Esperamo-la de manhã — disse-me o comissário quando lhe disse o motivo da minha visita.
Era um excelente homem e há muito tempo que o conhecia: se bem que fosse pai de família e tivesse passado os cinquenta, já há muito tempo que eu compreendia que tinha por mim mais do que uma simples simpatia. Lembro-me, sobretudo do seu nariz: grosso, esponjoso e com um ar melancólico. Tinha sempre o cabelo despenteado e os olhos sonolentos, como se tivesse acabado de levantar-se. Esses olhos, de um azul intenso, olhavam como do interior de uma máscara num rosto espesso, rosado e gretado, lembrando a casca de certas laranjas enormes, mas ocas.
Disse-lhe que me fora impossível vir mais cedo. Os seus olhos olharam-me um momento, depois perguntou-me com um ar cúmplice:
— Então como se chama ele?
— Como quer que saiba?
— Então, sabe muito bem!
— Palavra de honra! — disse-lhe pondo a mão no peito. Abeirou-se de mim no Corso. Tive, de facto, a impressão de qualquer coisa estranha na sua atitude, mas não lhe prestei grande atenção.
— Como se compreende que não estivesse em casa e ele tivesse lá ficado só?
— Tinha-o deixado porque tinha um encontro urgente.
— Mas ele julgou que tivesse saído para ir procurar a policia. Sabia? Julgou que o tinha vendido.
— Já sei.
— E que lhe faria pagar isso.
— Tanto pior.
— Mas não percebe — acrescentou olhando-me de lado — que é um homem perigoso e que amanhã, para se vingar da sua suposta denúncia, pode muito bem atirar-lhe, como disparou sobre os polícias?
— Com certeza que já percebi!
— Então porque não diz o seu nome? Seria preso e deixaria de a preocupar.
— Pois se eu lhe digo que não sei! Não é por mal! Só me faltava saber o nome de todos os homens que levo para casa!
— Está bem! Nós, pelo contrário — afirmou de repente com voz forte e teatral, curvando-se para a frente —, nós sabemos o nome dele!
Percebi que era uma cilada e respondi tranquilamente:
— Se o sabe, porque me atormenta tanto? Prendam-no e não se fala mais nisso.
Olhou-me um momento em silêncio; notei que os seus olhos, incertos e perturbados, fixavam mais o meu corpo do que a minha cara e compreendi subitamente que, contra a sua vontade, o seu velho desejo substituíra o fervor profissional.
— Sabemos ainda outra coisa — continuou — é que se ele disparou e se safou é porque tinha boas razões para o fazer!
— Ah! Quanto a isso não tenho dúvidas!
— Mas conhece essas razões?
— Não sei coisa alguma. Pois se eu nem lhe conheço o nome, com quer que saiba o resto?
— Nós sabemos muito bem o resto.
Falava mecanicamente, como se pensasse noutra coisa: tinha a certeza de que não tardaria a levantar-se e a vir ao pé de mim.
— Nós sabemos muito bem e havemos de o apanhar… é uma questão de dias, talvez de horas.
— Ainda bem para vocês.
Levantou-se, como eu tinha previsto, chegou-se a mim e agarrou-me o queixo com a mão:
— Vamos! Vamos! — disse-me. — Sabe tudo e não quer dizer. De que tem medo?
Читать дальше