— Está bem. Está bem — interrompi-a bruscamente. — E o ferido… como é que o levaram?
— Qual ferido?
— Disseram-me que havia um moribundo.
— Informaram-te mal… Um dos polícias teve um raspão num braço com um tiro… fui eu quem lhe ligou a ferida… foi-se embora pelo seu pé. Mas se tu tivesses ouvido aqueles tiros! Foi na escada que eles dispararam. Toda a casa estremeceu de alto a baixo. Depois interrogaram-me. Mas eu disse que nada sabia.
— Onde está Diodatti?
— No teu quarto.
Se eu tive esta pequena conversa com minha mãe fora porque agora experimentava uma espécie de repugnância em ir ter com Jaime, como se pressentisse uma má notícia. Saí da sala e dirigi-me para o quarto. Estava mergulhado numa escuridão completa; mas mesmo antes de eu ter posto a mão no interruptor, ouvi a voz de Jaime que me dizia:
— Por favor, não acendas a luz.
Feriu-me o tom da sua voz, muito pouco alegre de verdade! Fechei a porta, aproximei-me da cama às apalpadelas e sentei-me aos seus pés:
— Sentes-te bem? — perguntei.
— Sinto-me muito bem.
— Não estás cansado?
— Não, não estou.
Previra um encontro diferente. Mas a verdade é que a alegria não se pode separar da luz. Nesta escuridão parecia-me que os meus olhos não podiam brilhar, a minha voz não podia soltar exclamações alegres, as minhas mãos não se podiam estender para reconhecer as formas queridas. Esperei um momento; depois inclinando-me sobre ele, murmurei-lhe:
— Que queres fazer? Queres dormir?
— Não.
— Queres que me vá embora?
— Não.
— Que fique ao pé de ti?
— Sim.
— Queres que me deite em cima da cama?
— Sim.
— Queres que nos amemos? — perguntei por perguntar.
— Sim.
Esta resposta surpreendeu-me porque, como já disse, ele nunca estava realmente disposto a fazer amor. Senti-me de repente perturbada e acrescentei com voz acariciadora:
— Gostas de fazer amor comigo?
— Sim.
— Vais amar-me sempre daqui em diante?
— Sim.
— E ficaremos juntos para sempre?
— Sim.
— Mas não queres mesmo que eu acenda a luz?
— Não.
— Não tem importância… Dispo-me às escuras.
Comecei a despir-me com o embriagador sentimento da vitória completa. Pensava que a noite passada na prisão lhe revelara bruscamente que me amava e que precisava de mim. Enganava-me, como se verá em seguida; se bem que pensasse que houvera uma ligação entre esta brusca condescendência e a prisão, não compreendia que esta mudança de atitude nada tinha que me pudesse envaidecer, ou simplesmente alegrar. O meu corpo, como um cavalo há muito tempo refreado, impelia-me impetuosamente para ele; estava impaciente por lhe fazer o alegre, o ardente acolhimento que um momento antes a obscuridade e a sua atitude me não tinham permitido.
Mas quando me aproximei e me inclinei sobre a cama para me estender ao seu lado, senti-o de repente tomar-me os joelhos com os braços e morder-me a anca esquerda até fazer sangue. Senti ao mesmo tempo uma dor aguda e uma sensação de desespero que se exprimia por esta dentada, como se não fôssemos dois amantes preparando-se para se amarem, mas dois danados que o ódio, o furor e a tristeza impelissem, no fundo de um inferno de um novo gênero, a morder-se um ao outro. A dentada foi tão grande que quase se podia dizer que ele me queria arrancar um bocado de carne. Enfim, se bem que eu quase gostasse que ele me mordesse e, a despeito do pouco amor que eu sentia nesta mordedura, me desse prazer, não pude suportar a dor e empurrei-o dizendo em voz baixa e magoada:
— Mas não… que fazes? Magoas-me.
Foi assim que acabou o meu ilusório sentimento de vitória. Em seguida, durante todo o tempo em que nos amamos, não dissemos uma palavra; mas a sua atitude não deixava por isso de me revelar obscuramente o verdadeiro porque do seu abandono, que ele me explicaria mais tarde pormenorizadamente. Compreendi que até então o que ele não aceitava não era tanto a minha pessoa como uma parte dele próprio levada a desejar-me; agora, pelo contrário, por um motivo que só ele sabia, deixava esta parte dele próprio, refreada até então, saciar-se livremente. Eu em nada contribuíra. Da mesma maneira que ele não me amava antes, também não me amava agora. Eu ou outra era a mesma coisa para ele. Agora como dantes eu não era mais do que um meio do qual ele fazia uso para se punir ou para se recompensar. Todas estas coisas, enquanto estivemos deitados no escuro, não as pensara; sentia-as na, minha carne e no meu sangue, da mesma maneira que algum tempo antes sentira que Sonzogne era um monstro, sem saber ainda nada do seu crime. Mas amava Jaime, e o meu amor era mais forte do que este sentimento. Admirou-me a violência e insaciabilidade do seu desejo, anteriormente tão avaro. Sempre pensara que ele se moderava um pouco por razões de saúde, porque era de compleição fraca. Por isso, depois de me ter possuído duas vezes, ao vê-lo recomeçar pela terceira vez, não pude deixar de lhe sussurrar ao ouvido:
— Por mim, podes… mas vê lá não te faça mal.
Tive a impressão de que se riu e ouvi a sua voz murmurar-me:
— De futuro nada me pode fazer mal.
Este de “futuro” deu-me uma impressão fúnebre, se bem que até mesmo o prazer que eu encontrava nestes beijos foi quase suprimido e eu esperava com impaciência o momento em que lhe pudesse falar e saber enfim o que lhe acontecera. Depois do amor pareceu dormitar: mas talvez não dormisse. Esperei um tempo razoável e, fazendo um esforço tal que o coração quase me saltava do peito, perguntei-lhe em voz alta:
— Agora vais dizer-me o que te aconteceu.
— Nada me aconteceu.
— No entanto deve ter sucedido qualquer coisa.
Calou-se um momento, depois disse-me como se falasse consigo próprio:
— Depois disto tudo, suponho que tu também o deves saber. Pois bem! Aconteceu que depois das onze horas da noite eu tornei-me um traidor.
Estas palavras gelaram-me horrivelmente, não tanto por elas, como pela maneira como foram ditas.
— Um traidor? — balbuciei. — Porquê?
Respondeu-me no seu tom frio e lúgubre:
— Entre os seus companheiros de ideal político, o Sr. Diodatti era conhecido pela sua intransigência de opiniões e pela violência dos seus ódios. Consideravam muito simplesmente o Sr. Diodatti como um futuro chefe e ele estava de tal maneira certo de que faria boa figura em qualquer circunstância que quase desejava ser preso e posto à prova. Sim, porque o Sr. Diodatti pensava que a captura, a prisão e os outros sofrimentos são necessários na vida de um homem político como são necessários os longos cruzeiros, as tempestades e os naufrágios na vida de um homem do mar!… Mas à primeira onda, o marinheiro sentiu-se mal como qualquer criaturinha sem importância… Assim que se viu em frente de um polícia, sem mesmo esperar que o ameaçassem ou o espancassem, o Sr. Diodatti abandonou a carreira política e entrou na que podia chamar-se da denúncia.
— Tiveste medo! — gritei.
Respondeu-me com calma:
— Não. Nem sequer tive medo. Somente sucedeu-me aquilo que me aconteceu naquela famosa noite, contigo, quando querias que te explicasse as minhas ideias… bruscamente aquilo deixou de me interessar por completo. O que me interrogou pareceu-me quase simpático. Tinha interesse em saber certas coisas… e eu, nesse momento, não tinha interesse em esconder-lhas… então disse-lhas… simplesmente. Ou talvez — acrescentou depois de uns minutos de reflexão — não tão simplesmente como isso, mas logo, apressadamente, poderia dizer que quase com zelo. Mais um pouco e seria ele quem moderaria o meu entusiasmo!
Pensei em Astárito e pareceu-me estranho que Jaime o tivesse achado simpático.
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