— Não, não! Casados ou nada!
Discutimos durante muito tempo, e várias vezes a exibição da sua lógica, tão perversa como indiscutível, levou-me ao desespero e às lágrimas. Depois, gradualmente, a sua atitude inflexível pareceu modificar-se; por fim, depois de o ter beijado longamente e ameigado sem qualquer resultado, tive a impressão de ter conseguido uma grande vitória quando o convenci a descer comigo e vir possuir-me no assento traseiro do carro num abraço inconfortável, que o meu angustioso desejo de lhe agradar achou demasiado curto e cheio de uma amarga ansiedade. Eu devia ter compreendido ser esse, no meu próprio interesse, o último dos procedimentos a adoptar. Era entregar-me completamente nas suas mãos, mostrar-lhe a minha disposição de me entregar a ele, não apenas por puro ímpeto amoroso, mas também para o prender e convencer a concordar comigo quando as palavras não chegassem para isso: precisamente a conduta das mulheres que amam sem a certeza de serem amadas: Mas eu estava completamente cega pela atitude perfeita que a sua falsidade lhe permitia tomar. Ele dizia e fazia sempre as coisas que devia dizer e fazer. E eu, na minha inexperiéncia, não me apercebia de que esta perfeição pertencia mais à imagem convencional do amante que eu própria tinha criado do que ao homem que estava na minha frente. Mas a data do casamento tinha sido fixada e comecei logo a ocupar-me dos preparativos. Combinei com Gino que, pelo menos nos primeiros tempos, faríamos vida em comum com minha mãe.
Além da grande sala, da cozinha e do quarto, havia uma outra divisão que minha mãe, por falta de dinheiro, nunca tinha chegado a mobilar. Guardávamos aí os objectos partidos e inutilizados; e pode imaginar-se o que seriam os objectos partidos e inutilizados de uma casa como a nossa, onde tudo parecia inutilizado!
Depois de muitas discussões assentámos num programa mínimo: mobilaríamos esse quarto e eu faria um pequeno enxoval. Nós éramos muito pobres, mas eu sabia que minha mãe tinha algumas economias, e que esse dinheiro tinha sido posto de parte para mim a fim de poder fazer face — dizia ela — a qualquer eventualidade.
Quais poderiam ser essas eventualidades? Não era muito claro; seguramente que não a possibilidade de eu casar com um homem pobre e de futuro incerto. Fui ter com minha mãe e disse-lhe.
— Esse dinheiro que puseste de parte foi para mim, não foi?
— Foi.
— Pois bem! Se me queres fazer feliz, dá-mo agora para arranjar o quarto, para onde iremos, eu e o Gino. Se é verdade que o guardaste para mim, chegou o momento de mo dares!
Esperava reprimendas, discussões, e por fim uma recusa. Pelo contrário, minha mãe acolheu o meu pedido com a maior calma e mostrou de novo aquela serenidade sardônica que tanto me tinha aborrecido na noite em que visitara a moradia.
— E ele não vai contribuir com qualquer coisa? — perguntou-me, voltando-se.
— Há-de dar, com certeza — respondi, mentindo. — Ele já disse. Mas também eu tenho de contribuir com a minha parte.
Ela estava a coser ao pé da janela. Para falar interrompera o seu trabalho.
— Vai ao quarto, abre a primeira gaveta do armário… encontrarás uma caixa de cartão… está lá a caderneta da Caixa Económica e o ouro. Leva-a e o ouro também… Ofereço-te.
O ouro era pouca coisa: um anel, um par de brincos e um pequeno fio. Mas desde a minha infância, magro tesouro escondido debaixo dos trapos e só entrevisto em circunstáncias extraordinárias, tinha incendiado a minha imaginação. Impetuosamente beijei minha mãe: afastou-me sem brutalidade, mas com frieza, declarando:
— Cuidado com a agulha… podes picar-te!
Mas eu não estava satisfeita. Não me bastava ter obtido aquilo que queria; pretendia mais: que minha mãe estivesse como eu.
— Mãe! — gritei. — Se fizeste isto só para me dar prazer, então prefiro não aceitar!
— Decerto que não foi para lhe dar prazer a ele! — respondeu, recomeçando a coser.
— Realmente não acreditas no meu casamento com Gino? — perguntei com uma voz acariciadora.
— Nunca acreditei. E hoje menos que nunca.
— Mas então porque me deste o dinheiro para arranjar o quarto?
— Não é dinheiro mal gasto. Os móveis e as roupas sempre ficam… Mobília ou dinheiro é a mesma coisa.
— Então não me acompanharás aos armazéns para me ajudares a escolher?
— Por amor de Deus! — gritou. — Nem quero mesmo ouvir falar nisso! Arranjem-se, vão vocês, escolham… eu não quero saber de coisa alguma!
Acerca do meu casamento ela era intratável; eu acreditava que a sua atitude não era ditada só pela conduta, pelo carácter e pela situação de Gino, mas principalmente pela maneira como ela encarava a vida. Não havia espírito de contradição nesta sua atitude, mas somente completa inversão das ideias correntes. As outras mulheres desejam com obstinação que as filhas se casem; minha mãe há muito tempo que com a mesma tenacidade esperava que eu não me casasse.
Existia uma espécie de aposta entre mim e minha mãe. Ela queria que eu não me casasse e me desse conta do bom fundamento das suas ideias. Eu desejava que este casamento se efectuasse e que minha mãe se convencesse de que a minha maneira de pensar é que estava certa. Agarrava-me à esperança de me casar com a sensação de jogar desesperadamente toda a minha vida numa só cartada. Mas sentia ao mesmo tempo, não sem amargura, que minha mãe vigiava os meus esforços e tentava fazer-me soçobrar. Devo mencionar aqui mais uma vez que a maldita perfeição de Gino não se desmentia nem mesmo por ocasião dos preparativos para o casamento. Tinha dito à minha mãe que Gino ajudaria às despesas. Menti, porque até então Gino nem sequer tinha aludido a essa possibilidade. Fiquei, pois, ao mesmo tempo surpreendida e contente no dia em que Gino, sem que eu nada lhe tivesse pedido, me ofereceu uma pequena soma de dinheiro, para me ajudar. Desculpou-se da mesquinhez da quantia, explicando-me que não me podia dar mais, porque tinha urgência em mandar dinheiro aos seus. Quando hoje penso nesta dádiva não posso explicá-la senão pela extraordinária fidelidade ao papel que decidira representar: fidelidade proveniente talvez do remorso de me enganar e do pesar de não poder casar comigo, como agora realmente desejava.
Triunfante, tratei de pôr minha mãe ao corrente da oferta de Gino. Limitou-se a observar que era uma soma bem miserável; apenas o necessário para me deitar poeira nos olhos sem se arruinar!
Este foi na minha vida um período muito feliz. Encontrava-me todas as noites com Gino, e amávamo-nos onde era possível: sobre o assento de trás do carro, de pé, no canto escuro de uma rua solitária, no campo, num prado, ou ainda na moradia, no quarto de Gino. Uma noite em que ele me levou a casa, amámo-nos no patamar, em frente da porta do apartamento, estendidos sobre os ladrilhos, no escuro. Outra vez possuímo-nos no cinema, encolhidos nas últimas cadeiras, mesmo debaixo da cabina do operador. Gostava de me encontrar misturada com ele no meio da multidão, dos eléctricos e dos lugares públicos, porque as pessoas me comprimiam contra ele; aproveitava para colar todo o meu corpo ao seu. Experimentava constantemente a necessidade de lhe apertar a mão, de lhe passar os dedos pelos cabelos e de lhe fazer qualquer outra carícia, no sitio em que estivéssemos, mesmo na presença de terceiros, com a ilusão de que ninguém se apercebia. como sempre que se cede a uma paixão irresistível. Gostava infinitamente de amar: talvez eu gostasse mais do amor do que propriamente de Gino, e sentia-me levada a praticá-lo não somente pelo sentimento que experimentava por ele, mas também pelo prazer que sentia. Não pensava com certeza que poderia sentir o mesmo prazer com outro homem. Mas apercebia-me de uma maneira obscura de que o nosso amor não podia explicar inteiramente o zelo, a habilidade e a paixão que punha nas minhas carícias. Isso tinha um carácter autónomo; era uma espécie de vocação que, de toda a maneira, mesmo sem as ocasiões que Gino me proporcionava, acabaria por manifestar-se.
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