Apesar disso, percebia que Constance a tratava muito bem e concluiu, que teria de convidá-la a voltar à sua casa. Como quase não tinha amigos, ficou muito feliz por acabar fazendo disso um hábito.
Quando o reverendo não usava o cavalo, Constance tinha permissão, para usá-lo e as duas iam juntas para a mansão. Quando chegavam, para agradar a amiga, Minella sempre ia à procura do pai.
Geralmente, ele estava no estábulo ou no jardim e, como era evi- dente que Constance o fitava cheia de admiração e ouvia cada palavra dele como se fosse o próprio evangelho, certa vez lady Heywood co- mentara sorrindo:
—Não há dúvida de que você conquistou o coração da jovem donzela, Roy, mas não deve deixar que ela ou Minella o aborreçam. . .
—Elas não me aborrecem— respondera ele, bem-humorado—, além disso, garotas dessa idade sempre se apaixonam peio primeiro homem que conhecem.
—Tudo bem, contanto que ela não seja insistente!
—Se for, chamo você para me proteger, querida!
Lorde Heywood passara o braço em volta dos ombros da esposa e os dois caminharam pelo jardim, completamente felizes por estarem juntos.
Um ano depois, “Connie”, como ela se apelidara, alegando que Constance, era melancólico e sério demais, fora para Londres.
Ela havia lhe mandado uma carta, dizendo ter arranjado um emprego interessante, mas Minella tivera a impressão de que os pais dela foram muito vagos ao dizer do que se tratava.
Depois disso, só lembrava de Connie ter ido à mansão uma vez, logo depois da morte de sua mãe. Apareceu tão diferente, que Minella tivera dificuldade em reconhecê-la. Estava magra, alta, com porte ele- gante e muito bem vestida.
Na verdade, havia pensado que a jovem que batia à porta fosse alguma dama do condado que talvez tivesse vindo dar os pêsames à família pela morte de lady Heywood.
—Não está me reconhecendo, Minella?
Depois de uma breve pausa, Minella dera um gritinho de alegria e abraçara a amiga.
—Que bom ver você! Pensei que tivesse desaparecido para sempre! Como está elegante e bonita!
Era a mais pura verdade. Connie estava maravilhosa e seus cabelos loiros pareciam mais sedosos e brilhantes do que eram há um ano. Com os olhos azuis e a pele rosada, era o ideal perfeito que todo homem tinha da “rosa inglesa”.
Minella levara-a para a sala de estar, desejando conversar com ela e saber o que estava fazendo em Londres. Porém, dois minutos depois, seu pai entrara e havia ficado claro que Connie só queria conversar com ele.
Depois de alguns minutos, Minella saíra para preparar um chá e eles ficaram a sós. Quando estava voltando, tinha ouvido Connie dizer:
—Obrigada por sua gentileza, senhor. Se fizer isso por mim, ficarei tão feliz que nem terei palavras para agradecê-lo.
—Existe uma maneira melhor para você se expressar— respondera lorde Heywood com os olhos brilhando.
—Não vai esquecer?— perguntara Connie, ansiosa.
—Nunca esqueço minhas promessas.
Depois de algum tempo, Minella e o pai acompanharam Connie até o portão e ela havia partido, parecendo absurdamente elegante e fora de lugar na pequena e antiquada charrete do reverendo.
Enquanto a observavam se afastar, Minella tivera a certeza de que seu pai, pensava na fina cintura de Connie e em como aquele vestido justo lhe assentava maravilhosamente bem.
—Connie ficou muito bonita, não acha, papai?— comentara, dando o braço para ele.
—Muito bonita!
—Eu sempre ganhei de Connie nas aulas, mas ela me superou em beleza.
De repente o pai havia se virado e fitara-a intensamente, como se nunca a tivesse visto antes.
—Não precisa ter ciúmes das Connies do mundo, minha querida. Você tem o mesmo encanto que eu adorava em sua mãe. É bonita, e além disso, parece uma dama, o que é muito importante.
—Por que, papai?
—Porque eu não a criei para outra coisa!— respondera ele, energicamente.
Minella não havia entendido, mas, como conhecia seu pai muito bem, sabia que ele não queria que fizesse mais perguntas. Mesmo assim, tinha muita curiosidade para saber o que ele haveria prometido a Connie.
Naquele momento, embora sentisse que estava tomando uma atitude bastante errada, abriu a carta e leu:
“Caro lorde das luzes e do riso,
Como serei capaz de agradecer sua atenção? Deu tudo certo, exatamente como o senhor garantiu. Consegui o emprego e também mudei para esse pequeno e confortável apartamento que agora posso manter, graças ao senhor. Sempre o achei maravilhoso, mas nunca tanto como agora, me ajudando quando eu realmente precisava. Espero que algum dia eu tenha condições de retribuir e fazer algo pelo senhor!
Até lá, obrigada!
Obrigada! Obrigada!
Connie.”
Minella releu a carta lentamente. Em seguida, perguntando-se o que seu pai teria feito para deixar Connie tão agradecida, leu o papel pela terceira vez:
“Espero que algum dia eu tenha condições de retribuir e fazer algo pelo senhor!”
Era tarde demais para que Connie fizesse algo por ele, mas e se… e se sua gratidão fosse extensiva a ela?
Podia ser que lhe arranjasse algum emprego que a poupasse de aceitar o único convite que tinha recebido, ir morar com tia Esther.
Minella leu o endereço no topo da carta, mas, como não conhecia Londres, o nome da rua não significou nada para ela, embora sou- besse que ficava em alguma parte de West End.
«Se eu estivesse em Londres, haveria tantas opções de trabalho». pensou. «Poderia cuidar de crianças, até dar aulas para elas ou, talvez, embora mamãe reprovasse, trabalhar numa loja».
Não sabendo se era imaginação sua, Minella achava que as balco- nistas eram müito mal pagas e que tinham de trabalhar muitas horas seguidas.
Talvez isso acontecesse nas grandes lojas, que vendiam produtos baratos e tentavam atrair as massas. Porém, deveria haver lojas de primeira classe, que ficariam satisfeitas em empregar alguém com aparência de dama.
Minella sorriu.
«Tenho certeza de que papai nunca imaginou que essa minha qualidade poderia ser útil comercialmente».
Mas, por que não? Por que não?
Foi até o espelho olhar seu rosto, pensando no quanto Connie estava bonita quando os visitara há quase um ano.
Em seguida, olhou criticamente sua própria imagem. Seu rosto era como o de sua mãe, perfeitamente oval. Os olhos, grandes e expressivos, pareciam dominar o rosto inteiro, chamando atenção de imediato. Minella pensou que talvez eles fossem estranhos, porque eram acinzentados.
«Gostaria de ter olhos azuis como os de Connie», pensou.
Resolveu examinar o nariz pequeno e reto, e a curva dos lábios, concluindo que parecia jovem demais e que, talvez por isso, ninguém lhe desse uma posição de responsabilidade.
Tentou pensar no que faria para parecer mais velha e imaginou que poderia mudar o penteado simples que usava.
A moda era prender os cabelos no alto da cabela e deixá-los cair, ondulados e cacheados. Minella sabia que as garotas costumavam fazer os cachos artificialmente, se martirizando a noite inteira com papelotes.
Ela, entretanto, não precisava disso, pois seu cabelo era natu- ralmente ondulado e formava cachos nas pontas, que chegavam quase à cintura.
Quando estava atarefada ou cavalgando com seu pai, costumava ape- nas escovar os cabelos como sua mãe a ensinara. Depois, fazia um cdque na nuca, prendia-o com firmeza e esquecia dele o resto do dia.
Seus cabelos não eram de um loiro tão vivido quanto os de Connie. Ao contrário, eram pálidos, como os primeiros raios dê sol. Às vezes, pareciam prateados, como se tivessem sido tocàdos pela Lua.
«Posso parecer uma dama, mas muito sem jeito», pensou. «Duvido que alguém em Londres olhe duas vezes para um “rato do campo” como eu!»
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