Não falava de seus casos amorosos, mas Minella sabia da existên- cia deles em função das cartas e bilhetes que não paravam de chegar à mansão. Eram envelopes elegantemente decorados, com letras deli- cadas ou, então, bastante extravagantes.
Alguns ele jogava fora imediatamente, como se não tivessem o menor significado. Outros, porém, eram guardados com carinho...
Depois que recebia uma dessas cartas que guardava, dizia para a filha, em tom casual:
—Tenho que resolver alguns problemas em Londres. Acho que tomarei o trem amanhã pela manhã. Não ficarei fora por muito tempo.
—Sentirei saudades, papai!
—Eu também, minha boneca, mas estarei de volta no fim de semana.
Mas, quando chegava o final da semana, não havia o menor sinal de seu pai, e Minella tinha a nítida impressão de que ele só voltara porque o dinheiro terminara e não por sentir saudades dela.
Mesmo assinu até a morte de seu pai, não percebera que ele andava contraindo muitas dívidas.
Como os amigos sempre diziam, Roy Heywood, tinha uma saúde de ferro, e sua morte repentina, fora totalmente inexplicável.
Uma noite, ele chegara tarde em casa e, pela expressão de seus olhos, a filha percebera que se tinha divertido a valer em Londres.
Ele nunca havia gostado de álcool em excesso, e em comparação aos seus amigos, era praticamente abstêmio. Entretanto, pelo que contava nos seus momentos mais bem-humorados e expansivos, nas festas que frequentava, o champanhe circulava como água e o vinho que bebia no clube com os amigos era excelente.
Claro que essas extravagâncias acabavam afetando sua saúde e ela possuía sensibilidade suficiente para notar que aquela vida agitada já estava dando uma aparência precocemente envelhecida a ele.
Logo que seu pai entrou na mansão pela última vez, Minella percebera que não estava bem e vira que ele estava com a mão enfaixada por um lenço manchado de sangue.
—O que aconteceu, papai?
—Prendi a mão num pedaço de ferro solto na porta do vagão. Está doendo muito! Veja se consegue fazer alguma coisa, por favor!
—Claro, papai!
Minella lavara-lhe a mão e havia notado um corte grande e profundo.
Não conseguira deixar de pensar que ele devia estar meio cambaleante ao apanhar o trem. Talvez se tivesse desequilibrado, ou até caído.
Seu pai sempre tinha sido tão ágil e saudável, que ela imaginava que o ferimento cicatrizaria rapidamente.
Na manhã seguinte, entretanto, havia ficado muito perturbada ao vér que, apesar dos cuidados da noite anterior, a mão de lorde Heywood estava inchada e começando a inflamar.
O médico que Minella chamara disse que não era nada grave e havia receitado uma pomada desinfetante, que Minella aplicara se- guindo exatamente as instruções.
Mesmo assim, o ferimento havia piorado e, no fim de semana, lorde Heywood sentia dores insuportáveis na mão. Quando resolveramprocurar um cirurgião, era tarde demais. A infecção já se tinha alastrado pelo corpo inteiro, e só as drogas, que o deixaram inconsciente, o impediam de ficar gritando de dor.
Tudo acontecera tão depressa, que era difícil para Minella perceber o que realmente estava acontecendo. Só quando seu pai foi sepultado no pequeno cemitério ao lado de sua mãe, havia compreendido que estava completamente sozinha no mundo.
De início, não tendo ideia do estado das finanças deixada por seu pai, imaginara continuar morando na mansão, cultivando parte da terra que não estava arrendada.
O Sr. Mercer, porém, a desiludira, fazendo-a compreender que aqueles planos não passavam de sonhos, já que a mansão e pelo menos metade das terras estavam hipotecadas.
Quando as hipotecas foram pagas, Minella tinha se deparado com um grande acúmulo de dívidas contraídas por seu pai em Londres, e fora obrigada a enfrentar a realidade, não só estava sozinha, como também sem dinheiro!
Naquele momento, olhando para o advogado, disse:
—Não sei como agradecer por tudo o que fez, Sr. Mercer. Dei-lhe muito trabalho e só espero que o senhor tenha conseguido reservar uma quantia que o recompense pelos serviços prestados.
—Não se preocupe com isso, Srta. Minella. Seus pais foram muito bondosos comigo logo que vim morar aqui, e foi através de lorde Heywood que consegui muitos clientes novos para meu pequeno escritório de advocacia.
Minella sorriu.
—Papai sempre queria ajudar as pessoas.
—É verdade. Acho que esta foi uma das razões de os credores não o terem pressionado tanto quanto poderiam. Todos me expressaram seus mais profundos sentimentos pela morte dele.
Aquele comovente tributo à personalidade de seu pai fez brotarem algumas lágrimas aos olhos de Minella.
—Papai sempre me dizia que, quando pudesse me levar a Londres, talvez no ano que vem, seus amigos me receberiam com alegria e me proporcionariam momentos maravilhosos.
—Talvez eles queiram fazer isso agora— sugeriu ele, esperançoso.
Ela meneou a cabeça.
—Tenho certeza de que não seria a mesma coisa, a não ser que papai estivesse lá para diverti-los.
O Sr. Mercer sabia que era verdade, mas se limitou a dizer:
—Talvez alguma senhora amiga de seu pai ficasse feliz em recebê-la em sua casa e apresentá-la à sociedade.
—Não estou particularmente interessada na sociedade londrina— replicou Minella, pensativa, como se estivesse falando sozinha—, mas também não quero ir morar com tia Esther, pois seria muito deprimente!
—Não precisa decidir hoje, Srta. Minella, pois já tivemos que resolver tantas coisas deprimentes...
O Sr. Mercer tentou consolá-la, pois achou que a moça ia chorar.
—Pode ficar aqui, pelo menos até o fim do mês. Assim, terá tempo de pensar nisso com calma.
Ela teve vontade de responder que já estava se preocupando com o fato. Tinha passado a noite acordada, lembrando-se dos parentes Clinton-Wood que ainda estavam vivos e repetindo os nomes dos familiares de sua mãe, que não conhecia.
—Deve haver alguém— disse, como já tinha dito centenas de vezes.
—Tenho certeza que sim— encorajou-a o Sr. Mercer.
O advogado levantou-se e começou a recolher os papéis espalhados sobre a escrivaninha para guardá-los em sua pasta de couro.
Era uma pasta velha e surrada e ele a usava desde que se tornara advogado de lorde Heywood. Embora seus sócios e funcionários zom- bassem dele, o Sr. Mercer nunca pensaria em se separar de algo tão familiar.
Minella também se levantou e caminharam juntos para o pequeno hall de entrada.
O pequeno e antigo trole do Sr. Mercer estava à espera dele, puxado por um cavalo jovem que o levaria com rapidez à pequena cidade de Huntingdonshire, onde ficava seu escritório.
O advogado subiu, o jovem criado que segurava a cabeça do cavalo sentou-se ao seu lado e partiram.
Minella acenou, entrou e, enquanto fechava a porta, pensou em como era difícil acreditar, que aquela casa não fosse mais sua e que não tivesse a menor ideia de para onde ir.
A não ser… e a ideia pairava como uma ameaçadora nuvem negra… que fosse morar com tia Esther.
Lembrava-se de cada termo da carta que a tia escrevera depois que a morte de seu pai havia sido noticiada nos jornais.
Além de não haver nenhum calor ou afeto nas palavras escritas por ela, ainda colocara uma nota:
“P.S. Como nossa família atualmente é muito reduzida, acho que você terá que vir morar comigo. Será mais um fardo para eu carregar, mas, como nunca tive outra coisa em minha vida, estou acostumada.”
—Um fardo!
Aquela palavra soara como um tapa no rosto de Minella.
Com um orgulho que desconhecia, tivera vontade de responder que nunca seria um fardo para ninguém.
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