1 ...8 9 10 12 13 14 ...50 — Bem se vê! Estás fazendo o mesmo agora — murmurou, aborrecido, Miusov.
— Agora mesmo? Pois acredita que o sabia, Pyotr Alexandrovitch, e deixa-me dizer-te que quando comecei o temia. Imagina que também me parecia que serias tu o primeiro a dar por isso. Quando estou um minuto sem brincar, Reverendo Padre, sinto no rosto como se me arrancassem a mandíbula inferior e pinta-se-me no rosto uma expressão de pasmo. Isto sucede-me desde a juventude, quando comecei a correr de casa em casa, divertindo todos para conseguir ganhar a vida. Tenho sido um farsista incorrigível; vem-me do berço, reverência; é uma mania como outra qualquer. Estou em dizer que há em mim um diabo; bom, pelo menos um diabrete, porque um diabo sério preferiria outra morada. Mas não a tua alma. Pyotr Alexandrovitch; não tens posto digno de um nem de outro. Eu creio em Deus e se tive alguma dúvida acerca da sua existência, aqui me tendes disposto a escutar palavras de sabedoria. Nisto faço como Diderot. Não sabíeis, Santíssimo Padre, que Diderot foi ver o metropolitano Platão, nos tempos da imperatriz Catarina? Pois foi. Chegou e disse de repente: «Não existe Deus.» Ao que o grande bispo respondeu, alçando as mãos: «O néscio diz no seu coração que não existe Deus.» Imediatamente caiu o outro a seus pés, exclamando: «Creio e peço o batismo!» Foi batizado, tendo por padrinhos a princesa Dachkov e Ptyomkin.
— Fedor Pavlovitch, isto passa já de brincadeira! Bem sabes que dizes mentiras e que essa anedota grosseira não está certa. Porque te armas em tonto? — admoestou Miusov com voz trémula.
— Sempre suspeitei de que não fosse certa — gritou aquele, convencido — e quero que saibam toda a verdade, senhores. Venerável ancião, perdoai o que acabo de vos contar referente ao batismo de Diderot. Nada estava mais longe do meu pensamento, até agora, que me ocorreu para amenizar a conversa. Se faço de tonto, Pyotr Alexandrovitch, é para agradar, embora muitas vezes não saiba eu próprio para que o faço. Quanto a Diderot, ouvi cem vezes na minha juventude, a pessoas instruídas, aquela frase «o néscio diz no seu coração» e, sem ir mais longe, tua tia foi quem me contou a história. Toda a tua família estava persuadida de que o infiel Diderot discutiu Deus com o metropolitano Platão...
Miusov deu um salto na cadeira, esquecendo a moderação, furioso por ser posto em ridículo.
Era verdadeiramente incrível o que estava a suceder naquela cela que durante anos e anos, desde os primeiros Presbíteros, só sentimentos de profundo respeito havia inspirado a quantos a visitavam. Quase todos os que ali eram admitidos se mostravam orgulhosos do favor especial que lhes era concedido e muitos permaneciam ali durante todo o tempo da receção, de joelhos. Nobres, sábios e alguns livres pensadores, atraídos pela curiosidade, todos se mostravam igualmente respeitosos e recolhidos, como é próprio de um local onde não se tratam questões de interesse, mas pelo contrário onde brota o colóquio do amor e da bondade, onde se procura a penitência ou se resolve um problema de crise espiritual. Era forçoso que semelhante bobice sobressaltasse desconcertadamente a maioria dos presentes. Os monges ainda que parecessem a ponto de se levantar, indignados, como Miusov, esperaram, imóveis, que falasse o ancião. Aliocha permanecia cabisbaixo, com os olhos cheios de lágrimas, afligido especialmente por Ivan, a sua única esperança naquele transe, e capaz como ninguém de pôr cobro àquela maluqueira de seu pai, se manter quieto com o olhar no chão, como quem aguarda com interesse que acabe um incidente que não provocou. Aliocha não ousava olhar Rakitin, o estudante amigo, cujas ideias conhecia melhor que a ninguém do mosteiro.
— Perdoai — começou Miusov, dirigindo-se ao Padre Zossima — se vos fiz pensar que tomava parte nesta comédia absurda. Enganei-me ao crer que um homem como Fedor Pavlovitch pudesse chegar a portar-se com a correção que impõe uma visita a uma pessoa tão digna e suponho que não necessito desculpar-me pelo mero feito de haver vindo com ele.
Miusov perturbou-se de confusão e vergonha e, sem mais, quis ir-se embora. Mas o velho foi atrás dele, caminhando com dificuldade e, pegando-lhe em ambas as mãos, deteve-o.
— Não se aflija, por Deus! Não se aflija e olhe-me como se eu fosse um amigo especial. Sou eu que lho peço... — E inclinando-se perante o ofendido voltou a ocupar a sua cadeira.
— Falai, grande Presbítero! Ou estais enojado da minha cantilena? — interrompeu Fedor, agarrando-se a ambos os braços da cadeira como que disposto a fugir se a resposta não o satisfizesse.
— Também lhe hei de pedir que não se incomode nem se desgoste por nada — disse o velho afetuosamente. — Esteja como em sua casa e perfeitamente à vontade. O pior de tudo é que uma pessoa tenha vergonha de si própria.
— Como em casa? Com naturalidade? Oh! Isso é já um excesso de bondade. Agradeço-vos profundamente, mas mais valera, Santo Padre, não me convidar a uma manifestação singela e expansiva do meu caráter. Não arrisqueis tanto... Por esta vez quero desobedecer pelo respeito que vos devo. Bem, aí tendes os outros, embrenhados ainda nas névoas da incerteza; e aposto que não falta quem gostasse e tivesse um vivo prazer em retratar-me ao vivo. Por ti o digo, Pyotr Alexandrovitch. Quanto a vós, santa criatura, tenho de vos confessar que me deixais extasiado.
Levantou-se bruscamente e, elevando as mãos ao alto, exclamou:
— Bendito seja o ventre que vos gerou e os peitos que vos criaram!... especialmente os peitos. Quando há pouco dizíeis que «o pior é uma pessoa ter vergonha de si mesma», penetráveis no meu íntimo e líeis no meu coração. Numa reunião sinto-me sempre o mais trivial e creio que todos me tomam por um palhaço, e é nessas alturas que digo a mim mesmo: «Pois façamos palhaçadas a sério sem temer o que dirão, já que sou um palhaço eles ultrapassam-me em maldade». Por isto, nem mais nem menos, sou um bobo; por vergonha, bom velho, por vergonha. Apenas um excesso de sensibilidade me torna tão buliçoso. Se tivesse a certeza de que me tomavam pelo melhor e pelo mais prudente dos homens, ah, senhor, que santo eu não seria!... Mestre — continuou, caindo de joelhos —, que devo fazer para ganhar a vida eterna?
Era muito difícil adivinhar se estava a fantasiar ou se se encontrava realmente comovido.
O Padre Zossima olhou-o e disse, sorrindo:
— Por que faz essa pergunta, se já sabe a resposta há tanto tempo? Tem bastante discernimento: não se entregue à bebida e corrija a língua; ame a continência e não demasiadamente a riqueza. Feche as tabernas; se não puder fechá-las todas, duas ou três, pelo menos. Sobretudo... não minta.
— Dizeis isso por causa de Diderot?
— Não por isso, mas porque apenas se enganará a si próprio, e o homem que escuta como certas as próprias mentiras chega a não poder discernir a verdade do que pensam dele e perde o respeito que deve a si mesmo e ao próximo. Com o respeito desaparece o amor, e então em nada poderá gozar a não ser que se deixe arrastar pelos mais grosseiros prazeres, que acabam por bestializá-lo completamente. E tudo isso pelo vício da mentira. O embusteiro, além disso, expõe-se mais do que ninguém a receber uma ofensa. Crê o senhor, talvez, que por vezes é agradável ofender alguém, não? O homem enganoso sabe que ninguém o insultou, mas como há que ser gracioso e divertido, ele próprio toma uma palavra, faz uma montanha de um grão de areia e a atira contra si para se dar ao gosto de manifestar enfado por uma ofensa por si inventada; e disto ao verdadeiro rancor não vai mais do que um passo. Mas agora levante-se e volte para o seu lugar. Não é franca essa atitude...
— Santo varão, dai-me a vossa mão para que a beije! — E Fedor Pavlovitch saltou, deixando um beijo na mão nodosa do velho. — É muito, muito agradável dar-se uma pessoa por ofendida. Haveis expressado a ideia como nunca a ouvi. Sim, passei toda a vida a fazer-me de ofendido para me divertir e por uma razão de estética, já que não é tão agradável e distinto ser o objeto de insultos... haveis esquecido, grande senhor, que não é tão distinto. Se fosse a vós, apontaria isso. Mas claro que estive a mentir, o que se diz mentir de verdade, durante a minha vida inteira sem perder um dia ou uma hora. Na realidade, eu sou a própria mentira, o pai da mentira, embora não acredite nisso. Sou um solene charlatão. Dizei talvez o filho da mentira e será bastante. Apenas que... anjo meu!... posso por vezes falar de Diderot e não preciso ter cuidado. Diderot é inofensivo: são certas palavras apenas as que ofendem. E a propósito, Grande Presbítero, agora recordo que vivi dois anos com a intenção de vir consultar-vos sobre certas dúvidas. Mas dizei a Pyotr Alexandrovitch que não me interrompa. A questão reduz-se ao seguinte: é verdade, insigne Padre, que a Martirologia fala de um santo que quando o decapitaram se levantou e, pegando na cabeça do chão, a «beijou devotamente» e caminhou durante um grande bocado levando-a nas mãos? É certo isso ou não, venerável Padre?
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