Se o alemão voltou a escrever, suas cartas devem ter retornado com o sinal de “destinatário ausente”. A foto de Athena aparecera apenas uma vez no jornal, durante o primeiro confronto em Portobello, de modo que as chances de ser reconhecida eram mínimas. Além de mim, apenas três pessoas sabem da história: seus pais e seu filho. Todos nós comparecemos ao “enterro” de seus restos, e a sepultura tem uma lápide com seu nome.
O menino vem visitá-la todos os finais de semana, e está com uma brilhante carreira na escola.
Claro, um dia Athena pode cansar-se desta vida isolada, e decidir voltar a Londres. Mesmo assim, a memória das pessoas é curta, e exceto pelos seus amigos mais íntimos, ninguém se lembrará dela. A esta altura, Andrea será o elemento catalisador e — justiça seja feita — tem muito mais capacidade que Athena para continuar a tal missão. Além de possuir os dons necessários, é uma atriz — sabe como lidar com o público.
Ouvi dizer que seu trabalho tem crescido significativamente, sem chamar atenção desnecessária. Escuto histórias de gente em posições-chave na sociedade que estão em contato com ela, e quando for necessário, quando atingirem uma massa crítica suficiente, terminarão por acabar com toda a hipocrisia dos reverendos Ian Buck da vida.
E é isso que Athena deseja; não sua projeção pessoal, como muitos pensavam (inclusive Andrea), mas que a missão seja cumprida.
No início de minhas investigações que resultaram neste manuscrito, pensava que estava levantando sua vida para que soubesse o quanto foi corajosa e importante. Mas, à medida que as conversas prosseguiam, eu ia descobrindo também a minha parte oculta — embora não acredite muito nestas coisas. E chegava à conclusão de que a razão principal de todo este trabalhão era responder a uma pergunta que nunca soube explicar: por que Athena me amava, se somos tão diferentes, e não dividimos a mesma visão de mundo?
Lembro-me de quando lhe dei o primeiro beijo, em um bar ao lado de Victoria Station. Ela trabalhava em um banco, eu já era um detetive da Scotland Yard. Depois de alguns dias saindo juntos, convidou-me para dançar na casa do proprietário do seu apartamento, coisa que jamais aceitei — não condiz com meu estilo.
E em vez de irritar-se, respondeu apenas que respeitava minha decisão. Relendo os depoimentos que me deram seus amigos, fico realmente orgulhoso; Athena parecia não respeitar a decisão de mais ninguém.
Meses depois, antes de partir para Dubai, eu disse que a amava. Ela respondeu que sentia a mesma coisa — embora, acrescentou, devêssemos nos educar para longos momentos de separação. Cada um trabalharia em um país diferente, mas o verdadeiro amor pode resistir à distância.
Foi a única vez que ousei perguntar-lhe: “por que me ama?”.
Ela respondeu:”não sei e não tenho o menor interesse em saber”.
Agora, ao concluir todas estas páginas, acho que encontrei a resposta na sua conversa com o tal jornalista.
O amor é.
25/2/2006 19:47:00
Terminada a revisão no dia de Santo Expedito, 2006