Cito somente alguns autores que se dedicaram a estudar esse assunto, seguindo Juan Carlos Ochoa Abaurre em sua tese de doutorado 18: “O mito configurou um modelo de comportamento que regulou a interação social, a forma de conhecimento do mundo e do além”; Creuze afirmava que o mito contém uma “misteriosa” verdade que abriga formas simbólicas de pensamento “natural”; “Von Schelling considerou...o mito como uma realidade que incide (e deve incidir) sempre e de maneira positiva no presente”; “Malinowski... interpretou o mito... como: “ histórias que afetam decisivamente toda a sociedade”.
Ainda que normalmente vejamos a palavra “mito” associada ao estudo das culturas distantes no tempo e no espaço, diversos autores, entre eles Barthes 19, apontaram a importância do mito na formação do suporte ideológico das sociedades modernas. Outros pensadores apontaram a influência do mito na formação de determinadas sociedades e culturas, de tal forma que, podemos afirmar que, qualquer que seja a sua origem e seu verdadeiro significado os mitos marcam e modelam as ideias e comportamentos da sociedade.
É difícil pensar que em uma sociedade onde, em cada uma das cerimônias mais profundas, se escute sobre a bondade de alguns deuses masculinos e a maldade de algumas divindades femininas, as mulheres possam alcançar um papel igualitário. Igualmente, é difícil imaginar que em outra, onde o louvor às deusas e às mulheres ancestrais estavam na ordem do dia, as mulheres tenham sofrido uma grande discriminação. A esse respeito disse Engels: “O papel da mulher nos mitos demonstra que nos tempos antigos a mulher gozava de maior liberdade e recebia mais respeito.”
De fato, o estudo dos mitos e culturas das minorias na China não deixa dúvidas sobre essas afirmações. Os trabalhos de Du Shanshan 20, por exemplo, nos mostram que entre os Lahu, com sua manifesta igualdade, a criação é um trabalho de duas divindades, uma masculina e outra feminina. No entanto, também vemos no trabalho dessa outra autora que, de acordo com a própria sociedade Lahu, as mulheres estão perdendo a sua importância devido a influência da cultura chinesa, suas divindades criadoras estão se transformando em um só deus masculino, com o nome ainda composto, que prepara psicologicamente para futuras transformações.
Entre os Moso, onde a mulher ainda conserva um papel importante na vida social, descobrimos que sua divindade principal é uma deusa, Gemu. Outro conjunto de deusas governam as montanhas e as águas, monopolizando, como é natural, seu fervor religioso.
Ao apresentar aqui uma seleção de mitos nos quais a divindade feminina atua como protagonista, não podemos assegurar que todos esses povos adoraram uma grande deusa na antiguidade; e nem sequer, nos casos em que esse culto à deusa foi demonstrado, pode-se assumir que se tratava de sociedades matriarcais. No entanto, o conhecimento deles, dos rituais que estavam associados, e das culturas em que estão enquadrados, obviamente fornece diversos materiais para um debate posterior.
5. O valor dessa obra
Nesse livro incluímos mitos de povos que pertencem a cada um dos oito grupos etno-linguísticos mencionados antes, portanto, se não podemos demonstrar a universalidade do papel assumido pela deusa entre os povos da China, ao menos podemos demonstrar que em todos eles existiram deusas que, em determinado momento da sua história, desempenharam um papel relevante em seu universo mental. É possível perceber isso de imediato ao ler essa relação dos mitos apresentados nessa obra, classificados de acordo com os grupos etno-linguísticos e povos aos quais pertencem.
Grupo linguístico |
Povo |
Mito |
Sínico |
chinês chinês chinês |
Nuwa cria a espécie humana. O fim da era dourada das mulheres. A princesa Pargo Vermelha |
Zhuang-Dong |
Zhuang Shui Dong Dai Dai Dai Dai |
Miluojia. A deusa criadora dos Zhuang. A deusa Yaxian cria a humanidade. A deusa Shatianba cria o mundo A Mulher Pássaro. A Mulher Elefante. A Mulher Dragão. A Deusa do Arroz. |
Sino tibetano |
Jino Jino Hani Hani Nu Jingpo Yi Yi Yi Yi Pumi Pumi Lisu Baima |
Amoyaobai. A origem das oferendas aos ancestrais. A mãe Taporang. Ema, deusa dos Hani. A Deusa da Caça dos Nu. A deusa do sol. Canção dos antepassados do mundo. A origem da medicina Cuoriapu conquista o Reino das Mulheres. Shilaete tem um pai. A origem dos povos. A deusa Tana dos Pumi. Como os homens ficaram inteligentes. A filha do Deus do Lago. |
Miao-Yao. |
Bunu Yao Miao |
Miluotou. A deusa dos Bunu Yao. Criação do céu e da terra. |
Turco. |
Uygur |
A Deusa do Céu cria o mundo. |
Mongol |
Oiratos Mongol |
Maider cria o céu e a terra. A bondade da deusa. |
Man-Tungús. |
Elunchun Ewenki Manchú Manchú Manchú |
A Menina do Sol, origem dos Elunchunes. A lenda da criação do mundo. A guerra do paraíso. Baiyungege. Fugulun, mãe dos Manchúes |
Austronésico. |
Deang Deang Wa Wa Wa Bulang |
A origem dos ramos dos Deang. Histórias dos cinturões Deang. Oração à Deusa do Arroz. Os animais de estimação foram trazidos pelas mulheres. Como a mulher cede o poder ao homem entre os Wa. A Deusa do Céu. |
Para a conveniência do leitor, dividimos os mitos desse livro em quatro seções:
- A deusa criadora, com os mitos em que a criação é protagonizada por uma deusa. Tanto a criação do mundo, como a da humanidade. Deixamos de fora, e são muitos, aqueles em que uma divindade masculina e outra feminina criam o mundo simultaneamente, geralmente com a deusa realizando um papel principal. Em muitos desses mitos, de fato, a origem das montanhas é atribuída ao fato de que, tendo sido encarregada a criação do céu pela divindade masculina e a terra pela feminina, a escassa diligência com que deus realiza seu trabalho faz com que a terra seja maior que o céu, que não pode cobri-la por completo, obrigando a deusa a franzi-la para diminuir a sua superfície e ser devidamente coberta pelo céu.
- A deusa civilizadora.Inclui mitos em que vemos como as divindades ou personagens femininos ensinam a humanidade a viver nesse mundo.
- Em tempos matriarcais.Aqui incluímos contos que nos falam do tempo em que as mulheres comandavam a sociedade.
- O fim das Amazonas é onde reunimos as histórias que nos contam como as mulheres perderam o poder na sociedade, que passou a ser dominada pelo homem.
6. Relevância desse trabalho no contexto atual
Vivemos em uma sociedade que exige dos seus integrantes fé de que o modelo que ela propõe é o melhor que se pode ter e o melhor que já se teve ao longo da história. Curiosamente, esse modelo não foi aceito de comum acordo pelos membros da sociedade, mas foi imposto de cima para baixo por suas elites intelectuais, e está sendo moldado a cada dia para se adaptar às necessidades financeiras das corporações que são movidas exclusivamente pelo lucro.
Uma sociedade estruturada em torno do lucro e da busca pelo benefício econômico imediato, acaba afastando as pessoas dos seus atributos, tornando-as unicamente consumidores. O homo consumidor já não é um homo religioso (no sentido amplo, preocupado com os mistérios da vida após a morte), nem um homo social (cuja realidade cotidiana baseia-se na relação com outros seres humanos). Diante da solidão da existência, uma pessoa já não pode mais recorrer a um deus ou ao seu irmão, mas a algum dispositivo concebido por uma corporação.
O homo consumidor, considerando o mundo como um objeto de consumo, chega à aberração de considerar a natureza e os próprios seres humanos da mesma forma.
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