— Ai, Stein, esta dor nostálgica é mais forte do que o rasgar de um punhal na nossa carne! É algo que vem de dentro e nos estrangula as palavras que gostaríamos de pronunciar! São pensamentos não expressados que nos sufocam o coração!
— Também eu luto, minha cara, com a última estrofe do meu poema inacabado escrito no destino. Há quanto tempo é viúva, Ashira?
— Já lá vão quatro anos de luta com a tentação, pois as oportunidades surgiram logo após a doença dele. Não fosse a lembrança da promessa que lhe fiz e o incentivo para continuar a sua obra em prol dos meus filhos e não sei se sucumbiria e evitava assim as dificuldades inerentes a esta emigração.
Ouviu junto a si o murmúrio da mulher carente como ele, daquele afeto que vibrava na intimidade dos dois, e aquela mão em seu ombro apressava a busca desse arrimo. O instinto voltou a alertar o seu subconsciente ao mesmo tempo que o pudor inibiu os seus dedos de se sobreporem ao afago feminil. Quase a resvalar para a renúncia anotou em seu siso o apelo:
— E você, Stein, não sente a chamada?
Não foi necessário pendurar-se em qualquer argumento para evitar o que já estava implícito naquele espaço tão estreito entre eles e onde a comunicação já tinha iniciado o prólogo do espírito amavioso que os envolvia. A mão buscou a outra mão e os dedos iniciaram a melodia do consentimento; naquele gesto se subordinaram ambos ao espírito do ardor amoroso que se acendeu no interior de suas coxas. O beijo aconteceu e era de tal sorte a carência afetiva dentro dela que, com sofreguidão, seus lábios beberam o licor que molhava o verbo dele. As mãos de Ashira se penduraram no pescoço de Berger, ao mesmo tempo que o suspiro:
— Ai, querido, que saudade eu sinto deste amplexo forte e másculo que ressuscita em mim a mulher carente de amor! Toma-me e faz-me tua meu bem querido!
Stein empolgou-se com o convite, segurou-a pelos glúteos e pousou-a sobre a roldana do escovém; sofregamente lhe arregaçou a saia comprida e ampla que enfolava na brisa; deslumbrou-se em sonhos eróticos de estudante, quando as polpas de seus dedos deslizaram sobre as suaves coxas femininas e, empolgado de desejo, ajoelhou-se no chão metálico e frio do convés e beijou com emoção o interior daquela intimidade envolvida em pelos púbicos. O cunilingus ficou adiado quando a ansiedade dela instou:
— Amor, entra em mim! Estou necessitada de sentir a tua carne devassando o meu ventre! Anda, querido meu, penetra-me!
Ainda antes de invadir aquele jardim privado, cujo aroma o incitava a trespassar como um furtivo, sentiu as águas felizes dela, tempestuosas e cálidas, inundarem as pétalas orvalhadas da flor e os gemidos de volúpia da mulher mais acenderam seu ânimo másculo, cujo instinto de cópula o incitou a devassar com uma estocada sádica a bainha daquela vagina que implorava o seu pénis. De imediato, sentiu a reação feminine, que lhe respondeu com uma trincada na orelha seguida de um gemido ansioso:
— Ai, amor, usufrui em mim do teu ardor! Anda, querido, dá-me tudo!
Segurou-a pelas meias-luas do traseiro e num ritmo forte de ir e vir, de vir e ir dentro dela, usufruiu o deslizar nas carnes tenras e cálidas, que no ardor esquecido pela longa viuvez se contraíam em espasmos de prazer venéreo. Foi na avalanche do gozo, no deliquar entre a fronteira do presente e da volúpia inserida no tempo imutável, que a vergonha se escondeu por não ter mais pudor e que a deliciosa sensação de se sentir outra vez fêmea a fez expandir em entrecortados gorjeios há muito pendurados em sua garganta. A torrente feliz esguichou dentro da vulva escaldante e ele urrou como fera ferida, na tempestade do orgasmo, e misturou os dois fluidos que extravasaram da flor dela, para deslizarem pelas pernas contraídas na conceção sexual da lascívia.
— Ai, amor! Você é um querido! Ai, Stein, amo-o e quero-o meu. Sou possessiva!
Ambos embalados pelo sentir que os unia, como se passeassem numa praia tropical à luz romântica do luar, sem a preocupação de saber se eram observados, encaminharam-se para o aconchego das respetivas casamatas, onde Morfeu os esperava; era véspera do desembarque. Apitos, gritos, uma cacofonia de sons e do ranger das amarras misturaram-se à emoção da atracagem e fizeram descorar a segurança. Foi necessário fazer valer a liderança para assegurar um desembarque ordeiro e, para gáudio de todos os chegados, as ameaças de turbulenta receção não se concretizaram. Era festivo o ambiente do cais onde muitos dos emigrantes até tinham familiares aguardando. Era o caso dos Katz, cujo irmão do falecido Theodore esperava a cunhada e os sobrinhos. Logo que a Sr.ª Katz desceu o portaló de desembarque, foi efusivamente saudada pelo Sr. Albert Katz e mais dois cavalheiros bem aperaltados, que Berger veio a conhecer como dois advogados ligados ao tal projeto proposto pela sua amiga e que também eram acionistas do mesmo empreendimento.
Quando Stein pousou o saco sobre o empedrado do cais, logo Abba, o filho mais velho da Sr.ª Katz, veio ao seu encontro com um sorriso e fazendo um gesto para tomar a sua bagagem, comunicando-lhe:
— A minha mãe pede para o senhor conhecer os seus sócios, que residem em Eilat.
Ainda indeciso, lá seguiu o jovem até o café onde a uma mesa abancavam a família e os cavalheiros subscritores.
— Venha, Sr. Stein, tenho aqui um lugar para tomarmos uma bebida. Que toma?
Mesmo antes de se servir, o cunhado de Ashira estendeu-lhe uns papéis onde estavam explicados os projetos da Sociedade, ao mesmo tempo que lhe murmurava com entusiasmo:
— Eilat é uma mina de ouro ainda não explorada; temos que iniciar a sua abertura para extrair dela um futuro grandioso e lucrativo, antes que os americanos se apercebam deste filão implantado no Mar Vermelho.
Berger gostou da maneira como o plano lhe foi apresentado e resolveu ali mesmo investir uma nota de crédito do seu banco UBS, no valor de 20.000 dólares. Selou o pacto com a sua assinatura e todos fizeram um brinde de êxito ao novo acionista.
Já a caminho do escritório da Agência de Notícias da Herold, fez uma retrospetiva da sua vida nos últimos tempos e novamente aquele ultimato da maldita ocupou-lhe a mente: «Continuarás amaldiçoado pelo meu nome secreto e só te livrarás do meu anátema quando praticares a salvação de uma jovem em perigo de vida e a protegeres para sempre»— — uma vez mais sentiu-se vazio por dentro e bandalho no coração; tinha chegado ao desprezo absoluto pelos outros e, como tal, era justo ser desprezado por si próprio. Ganhou um pouco de ânimo e, num folgo, interrogou-se: será que encontraria naquela terra estranha o caminho para mudar de vida? Para encontrar a dignidade de antes, aquela inocência que foi apagada com a sua subserviência ao jogo sujo dos nazis, onde mergulhou na escuridão a sua alma e a honra de ser humano? Era esta culpa que destruía a essência de tudo o que poderia ser um lampejo do bem em si. Sentiu-se mal com o vazio que era o valor do nada em sua vida e o caricato da situação é que nem coragem encontrava na esperança de encontrar uma janela que lhe apontasse uma nesga de claridade no horizonte do caminho, para ao menos tentar a via que o feiticeiro lhe indicara, para se livrar do travo amargo que era a maldição da cigana.Tentou abstrair-se daquele pesadelo. Era um repórter em terreno ensanguentado por uma guerra fratricida e estava sobre uma mina prestes a explodir. Releu a placa da Herold e entrou.
Dois sujeitos amigáveis no trato e ligados à administração receberam-no efusivamente e, depois de uma conversa breve e amena para o porem ao corrente do que esperavam dele, o acordo ficou assinado com dois apertos de mão.
A tiracolo, uma Zenit de repórter e no saco um fornecimento substancial de rolos fotográficos para captar durante meses as tragédias de uma guerra que se adivinhava cruel na vingança e atroz no sentir; era sem quartel! Ele tinha sido apologista da criação da célebre Legião Judaica proposta por Vladimir Jabotinsky, em 1935: homens obedientes até à morte! O tal movimento que foi abençoado por Mussolini, por intermédio de um seu colaborador judeu, César Sarafatti. O Duce propunha, para o êxito dos judeus, uma aliança com os fascistas italianos, para conseguir um estado independente, uma bandeira e uma língua próprias e, para enaltecer o fascismo do líder judeu, deu-lhe o título de Cidadão Fascista. Jabotinsky aceitou no seio do seu movimento dois grupos paramilitares: a Irgun e o grupo Stern. Ambas as organizações tinham por missão prioritária combater os ingleses na Palestina e a Irgun, sob o comando de Begin, era a favor de uma revolta imediata contra os britânicos. A Stern era a favor de uma luta contra os ingleses, mesmo durante a guerra, com o apoio alemão e para o efeito ofereceu a Hitler um exército de 40.000 homens a serem treinados pelos nazis. Esses soldados seriam oriundos da Europa Oriental e seria o início de uma aliança com o Eixo apadrinhada por Mussolini, mas Hitler rejeitou e preferiu apostar na carta árabe por causa do petróleo. Mas para quê estar a desperdiçar o tempo para uma bebida com pensamentos retrógrados? Israel já era um estado independente por decreto das Nações Unidas e já tinha enfrentado com êxito cinco países da região. Agora era só consolidar as fronteiras e ocupar legalmente as propriedades que pertenciam aos verdadeiros palestinianos. O barão Rothschild tinha já contribuído com avultado financiamento, para comprar essas terras agricultáveis que se destinavam a desenvolver as chamadas cooperativas sociais, os kibutz. Tudo se preparava para dar curso às promessas messiânicas e concretizar o sonho de Bem Gurion em 1937 — «Uma maioria palestiniana compelirá os colonos judeus a usarem a força para provocarem o sonho: uma Palestina puramente judia!» Ele tinha afirmado também:
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