1 ...6 7 8 10 11 12 ...16 — Se não és dos nossos, volta ao escurecer, que o bruxo te atende!
Resolvido a consumar de vez o seu enigma, resolveu dar uma volta pelos arredores e esperar o breu da noite. Entrou num bar e pediu vodka para amortecer e dissipar as brumas que teria de avivar na presença do bruxo. O feiticeiro o mirou fixamente uma, duas vezes, e de cada vez torceu a carranca como se o temesse. Fez uma pausa, ergueu a mão com os dedos em figa, recitou num murmúrio um estranho engrimanço e voltou a olhá-lo:
— Que maldição mais sinistra te rogaram, homem! Este foi mesmo um laço de amarração, o serviço foi bem feito e é persistente. Não vai ser fácil livrar-te dele. Conta-me como foi?
Quando iniciou o relato do que se passou naquela noite de maus instintos, do tripúdio estar que alterou seu viver, o bruxo contraiu novamente a carantonha, suspendeu o gesto e a sua respiração se tornou ofegante. Pendurou por momentos a palavra na garganta e em tom grave pronunciou:
— Tenho que rever o cerimonial dos mortos Romani, mas é um anátema muito forte e tétrico; preciso descobrir o nome secreto dela e para isso é preciso encontrar o ritual que usou. Aparece amanhã ao anoitecer, desce à cave e bate na porta de ferro pintada de negro. Ali ninguém tem a coragem de ir. Temos que iniciar nas trevas a procura e isso torna-se perigoso até para mim. Agora só te posso dar proteção para hoje com um engrimanço intercessor. Sê abstémio esta noite, de álcool ou sexo.
O ocultista ergueu a mão esquerda, passou sobre a sua face três dedos distendidos e virou-lhe as costas em direção à saída.
Quando chegou a casa, já bem alta era a noite; tinha sobre a mesa um bilhete de Erika que lhe pedia para se encontrar com ela cerca das dez horas no Centro Judeu.
A proteção das rezas do xamã tinha resultado; conseguiu adormecer em paz e sem evocar a maldita. Por paradoxo, até desfrutou de um sonho lindo que lhe veio à memória quando se levantou para dar atendimento ao pedido de Erika.
A proposta era simples — a Herold descobriu que ele era um voluntário para a Palestina. Como tinha sido prisioneiro de Auschwitz e era finalista de jornalismo, queriam contratar os seus serviços como repórter na Terra Prometida. Ora, para Berger nada de mais importante havia de momento do que ver camuflado o seu passado de colaborador dos nazis e conseguir uma maneira de fazer esquecer o tal tenebroso período da sua vida. Mais uma vez se dirigiu ao Centro Judaico para atestar o seu nacionalismo e outra vez assinou uma série de mentiras que comprovavam a sua versão sobre o extermínio de judeus e uma declaração sobre as câmaras de gaseamento sitas em Birkenau, conforme os relatórios fornecidos pelo exército soviético, que libertara os últimos prisioneiros. Tal revelação só esquecia de mencionar que os citados reclusos que ficaram foram aqueles que, por debilidade física, não puderam acompanhar a guarnição alemã na sua retirada. Até os jornalistas ocidentais se admiraram, porque os russos nunca consentiram que eles fizessem uma visita aos campos de Auschwitz antes que os seus técnicos acabassem a encenação meticulosa e destruíssem quaisquer provas que pudessem desmascarar as evidencias forjadas ou fomentar dúvidas acerca dos crimes relatados. Stein riu-se interiormente sobre as declarações fabricadas que iriam sustentar a tal fábula profética dos seis milhões. Pensou na proposta da Agência Herold e resolveu ir à secretaria da universidade adquirir um certificado sobre os seus estudos como jornalista, para assim assinar um contrato de trabalho vantajoso para os seus desígnios.
Já o crepúsculo dera lugar ao lusco-fusco do anoitecer, quando se lembrou da marcação que tinha com o bruxo. Comprou umas postas de arenque fumado e dirigiu-se a casa para tomar a frugal refeição da noite. Já a escuridão era total quando se pôs a caminho do local do esconjuro e por estranho que pareça, conseguiu mesmo, com as provações que tinha sofrido com a maldição da ciganita, manter-se calmo e alheio às maquinações sórdidas que a mente, em pródiga imaginação, tinha por costume fustigá-lo com o pertinente anátema do negativismo aterrorizante.
Junto ao decrépito edifício, dois dos vezeiros vagabundos lhe saíram ao encontro e o saudaram como se ele já pertencesse à mesma cambada.
— Boa noite, jovem! Tens por aí uns trocados para um copo de aguardente?
Esteve prestes a lançar uma imprecação de repúdio ante o aproveitamento dos vadios, mas lembrou-se do conselho do xamã para que fosse discreto para tal gente. Assim, tirou do bolso algumas coroas, estendeu-as aos pedintes que, quase sem o olharem, desapareceram rua fora à procura de um bar onde pudessem satisfazer o vício alcoólico.
Entrou no vetusto prédio e desceu as escadas de pedra, que levavam à cave. Deu um leve toque com os nós dos dedos na chapa da negra porta e quase de imediato assomou a carantonha do feiticeiro com uma onda de odor a cera e um misterioso cheiro a outra coisa que não identificou. Olhou com estranheza a enorme bacia de barro cheia com água, assente no chão e as velas de cera negra que a rodeavam eram cinco e estavam acesas. Esperou pela explicação e ao pensamento lhe surgiram as histórias bíblicas macabras sobre a necromancia praticada pelo rei Saul e pelo seu compatriota José, o místico que usava a água para os seus ritos de adivinhação. Todo esse arsenal de magia que, ao fim e ao cabo, veio a ser copiado pelos druidas com o seu caldeirão para trazer de volta a alma dos mortos. O bruxo ofereceu-lhe um banco baixo de madeira e mandou-o sentar-se em frente à tina com água. Dirigiu-se a um altar onde assomava a figura grotesca de uma mulher e clamou de mãos distendidas numa prece:
— Danahh! Danahh! Minha protetora e Senhora! Obriga aquela a quem vou invocar que obedeça, sem contrapartidas, à minha advocação.
Pôs-se de cócoras mirando a água da bacia e com uma vela negra acesa em cada mão ordenou:
— Exijo o teu nome e a tua presença aqui dentro deste fluido donde emanou todo o ser humano, por ordem do nosso Demiurgo!
Fez uma pausa de alguns segundos e voltou a invocar:
— Hida, o teu nome me foi sussurrado pela poderosa Danahh, minha patrona e tua deusa. Assim, pelo seu poder, te exijo que regresses da morte para tomares em atenção o que te ordeno!
Stein esteve quase a cair de costas com a surpresa e se arregalaram seus olhos de terror ante a visão daquele rosto de esgar malévolo, que apareceu por instantes no espelho aquoso dentro da tina. O bruxo impôs as mãos, agora livres, sobre a água agitada e recitou outra obscura reza, desta vez cantada, ergueu-se e, do altar, tomou um fio de cabedal que estava aos pés do manipanso que ele tratou como protetora, mergulhou-o no líquido do alguidar e prendendo nele um amuleto em cetim azul pendurou-o no pescoço de Stein, explicando:
— Este talismã contém as poderosas ervas de proteção da deusa Danahh. Deves usá-lo até cumprires o que o espírito dela, pela minha boca, te vai exigir.
Voltou a inclinar-se sobre a tina iluminada pelas cinco velas negras e, depois de uns segundos de concentração, recitou:
— Maldito continuarás pelo meu secreto nome e só te livrarás do meu anátema quando praticares a salvação de uma jovem em perigo de vida e a protegeres para sempre!
O xamã levantou-se, voltou a abençoá-lo com as mãos impostas sobre a sua cabeça e perguntou:
— Entendeste a sua ordem?
— Sim, compreendi perfeitamente. Oxalá esse mandamento não me custe a vida! Agora, diz-me, quanto te devo?
— Dá-me o que tens no pensamento neste preciso momento, sem esqueceres o valor do meu trabalho!
O judeu riu-se do enigma adstrito às palavras, tirou do bolso um maço de notas e completou com uma expressão de aprazimento:
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