Berger Stein, nomeado desde a partida de Malmo para dar apoio logístico naquela camarata, ordenou que se apagasse tudo quanto era lume, mesmo os poucos candeeiros a gás ou petróleo, para evitar que o derrame de combustível desse azo a algum foco de incêndio. Concordou, no entanto, com o pedido da Sr.ª Katz, para que todos os ocupantes: homens, mulheres e até crianças se reunissem numa prece ao Senhor, clamando por socorro e salvação. As mulheres foram as primeiras a apoiar a ideia e este apoio tornou-se oficial quando um ancião tirou o kippah e o ofereceu a Berger, para tornar a oração mais solene. Também a Sr.ª Katz, remexendo num baú, exibiu um longo tallit de cor azulada e o ofereceu ao jornalista, adiantando:
— Este era do meu Theodore e só o confio a quem me merece confiança!
Entre os dois brilhou um sorriso cúmplice de um porvir intuitivo, que a situação do momento adiou. A imponência do paramento dava ao orador uma solenidade acrescida do misticismo rabínico e foi investido dessa importância que deu início à prece:
— Escuta, ó Israel, o Eterno é nosso Deus, bendito seja o Seu Nome para sempre. É neste momento delicado, quando as agruras do mundo nos açoitam, que nós, seguindo os ensinamentos dos nossos pais, recorremos à tua bondade e ao teu poder sobre os elementos que nos ameaçam, para que o teu auxílio nos livre…
Para alívio de todos, puderam passar o resto da noite tranquilamente e, para gáudio das crianças, o novo dia se apresentou com um luminoso amanhecer. Já podiam brincar ao ar livre. Berger aproveitou o raiar do sol para iniciar a sua sessão de jogging sobre o convés e, quando numa das voltas passou pela entrada para as camaratas, olhou a bombordo e viu a Sr.ª Katz saudando-o e ao mesmo tempo fazendo-lhe sinal, como que desejando meter conversa. Sentindo que algo de urgente lhe teria a comunicar,aproximou-se dela na expectativa:
— Muito bom dia! Desculpe-me a intromissão, mas tinha este desabafo para pôr cá para fora: o senhor ontem aproximou-se da recordação que guardo do meu querido e saudoso Theodore. Olhe que cheguei a visioná-lo como tal, durante a oração! Quando invocou o Senhor nosso Deus, eu admirei-o como a um rabino. O senhor estava solene e investido de profética dignidade!
— Muito obrigado, senhora. Tenha também um bom dia. Eu já me sinto feliz por ter permitido um bom ânimo a uma pessoa carente de apoio e faço votos para que possa satisfazer mais vezes a sua vontade!
— O senhor é uma boa pessoa, já disse isso aos meus filhos e, pode estar certo, vai contar sempre com a nossa amizade!
Uma pequena festa foi improvisada quando o Algor se intrometeu entre as colunas de Hércules para entrar no Mediterrâneo. Entre as cerimónias diversas a evocar a Diáspora, foi realizada uma sessão de ofertas que aproximou mais as comunidades: era uma tentativa de união para o objetivo comum, a fixação permanente na Palestina. Para vincar a sua amizade por Stein, a Sr.ª Ashira Katz aproximou-se e apresentou-lhe os seus dois filhos:
— Estes são os meus rapazes e espero que no futuro grandioso que nos aguarda eles se congratulem com a sua amizade.
Uma vez mais, o olhar daquela senhora oriunda das geladas terras de Odessa transmitiu-lhe mais que um sentir amigo. Havia naquela mirada um ensejo que ele não conseguia identificar sem a suspeição de envolvimento emocional e o seu instinto defensivo alertava-o para a rejeição total, se tal desejo se insinuasse na relação desinteressada com aquela mulher viúva que ele tinha catalogado como carente.
O capitão reuniu-se com os líderes judeus a bordo e alertou:
— Não sei qual a receção que nos aguarda na terra que já foi de nossos pais e que uma vez mais passou a ser ensanguentada pelas fações que lutam pela supremacia política, essa ideia que não foi profetizada pelos nossos homens santos. Também temos que contar com a adversidade dos povos invasores que agora se julgam os donos desta Terra Prometida, que foi entregue ao povo hebreu pelo nosso Deus. Os nossos amigos sionistas querem que Israel ressuscite antes do tempo prometido na Sagrada Torá: «Vos trarei de volta à terra que dei aos vossos pais quando o meu povo se tiver purificado com a eliminação de seis milhões». Face a estes obstáculos, solicito que, seja qual for o ambiente que nos aguarda, a vossa colaboração seja de todo eficaz e afetiva para proteger as mulheres e as crianças.
Ao sair da reunião na ponte de comando, dirigiu-se à proa para saborear um cigarro à feição da brisa que vinha do levante e, envolvido na sensação daquele balançar suave que vinha do mar, degustou com deleite o travo agridoce da primeira fumaça, que lhe trouxe ao pensamento o alerta do desembarque. De repente e sem que suspeitasse, foi surpreendido por aquela voz que saiu do breu da noite, aquela entoação que fez vibrar o ser carente que morava em sua alma. Sentia-se enredado numa afetividade que a mente desejava afastar e que o seu instinto de defesa tinha também rejeitado. Ele tinha-se deixado envolver aquando da apresentação dos filhos dela como amigos num porvir onde a solidariedade dava azo a um apoio social de amplo cariz. Pela primeira vez sentiu o seu querer vacilar perante o ânimo do desejo e, na excitação que o foi envolvendo, chegou à conclusão que não só o prazer da companhia, mas também a lascívia era latente em si. Não era dele a ideia e tão pouco a tinha programado, mas sentia, isso sim, que aquela era a sua oportunidade: não era normal que uma mulher ali, àquela hora e naquele lugar, não tivesse o objetivo pecaminoso que bailava em sua cabeça.
— Uma santa noite, Sr. Stein! Parece que não sou sozinha na meditação sobre o porvir desta aventura que se nos apresenta como uma encruzilhada, onde a Diáspora encontrará o melhor caminho para um horizonte feliz. Sou otimista por opção!
— Parece que sim, minha senhora, ambos temos que encontrar um destino nesta clareira que nos aponta a vereda da esperança. A senhora, tal como eu, também é só e ainda tem o encargo de preparar dois homens para enfrentar um porvir que se nos apresenta nebulado.
— Gosto das suas palavras, Sr. Stein. Elas são incentivo de confiança e de índole positiva; levantam a nossa moral ao mesmo tempo que fortalecem o nosso espírito. Junto a si até esqueço o meu Theodore, que também tinha esse predicado e encarava as situações delicadas sempre pelo lado prático e útil. Ele não perdia tempo com cogitações negativas; era objetivo, inventivo e muito empreendedor. Foi devido a essa capacidade e à sua visão de empresário futurista e arrojado que eu me afoitei como emigrante numa terra da qual só tinha ouvido falar. Claro que tenho interesses a defender e, além do capital investido, tomo a peito a defesa do património cultural do meu companheiro de tantos anos. Confio tanto no futuro do seu plano, que aproveito para o convidar a aplicar as suas poupanças no nosso projeto. O nosso empreendimento ainda está aberto a novos acionistas.
Berger sorriu para si próprio e deixou que a viúva discorresse sobre o plano empresarial que o seu irmão estava iniciando sob as diretrizes escritas do seu falecido Theodore. Embora anotando na mente a oferta de negócio, preferiu antes explorar o lado terno da alma feminina:
— É tão forte assim a convicção sobre a visão do seu homem, ou é mais a saudade da sua presença? Tem a necessidade ainda do seu conselho amigo, Ashira?
Ao ouvir pronunciar o seu nome naquela inflexão carinhosa pela primeira vez, a mulher que existia na viúva exultou e deixou-se enlevar no sonho, que era também na sua intimidade.
Por entre a escuridão enlutada por uma lua nova e pela neblina que ofuscava até o reflexo de Sírius sobre a serena ondulação que lambia o deslizar da proa, o lamento da Sr.ª Katz se fez audível:
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