Barba esquálida, as mãos de unhas armadas;
18 Rasga, esfola, atassalha a triste gente.
Uivam à chuva, quais lebréus, coitados!
Mudam de lado sem cessar, buscando
21 Defensa e alívio, as almas condenadas.
Cérbero, o grão réptil, nos divisando
Os dentes mostra, as bocas escancara,
24 De sanha os membros todos convulsando.
Meu Guia, as mãos abrindo, se prepara:
Enche-as de terra, e às guelas devorantes
27 Lança da fera essa iguaria amara.
Qual mastim, que em latidos retumbantes
Brada de fome, e, apenas a sacia
30 Devorando, aquieta as iras de antes:
Tal, aplacando a fúria, parecia
O demônio que as almas atordoa:
33 Surdez de ouvi-lo o mal lhes pouparia.
O solo, onde pisamos, se povoa
Das sombras, que essas chuvas derrubavam:
36 Forma e aparência tinham de pessoa.
Sobre a terra estendidas, a alastravam;
Mas uma surge, súbito sentada,
39 Aos passos que adiante nos levavam.
“Tu” — disse — “que és guiado pela estrada
Do inferno, vê se acaso me conheces:
42 Nasceste antes de eu ser nesta morada”.
Tornei-lhe: “A grande angústia em que padeces,
Tua feição lembrar-me não consente:
45 Inota face aos olhos me ofereces.
“Quem és que em tal lugar tão duramente
Pelos pecados teus stás dando a pena?
48 Se há maior, nenhuma é tão displicente”. —
— “Em tua pátria” — responde — “que tão plena
Já é de inveja, que transborda o saco,
51 Existência gozei leda e serena.
“Vós, Florentinos, me chamastes Ciacco:
Por ter da gula a intemperança amado,
54 À chuva peno enregelado e fraco.
“Mas sou nesta miséria acompanhado;
Pois quantos aqui estão de igual castigo
57 Punidos foram por igual pecado”. —
— “Com dor sincera” — lhe falei — “te digo
Que esse tormento o peito me enternece.
60 Saberás se os partidos a perigo
“Florença levarão, que já padece?
Algum justo ali vive? A que motivo
63 A cizânia se deve, que ali cresce?” —
— “Virão a sangue após ódio excessivo;
E o partido selvagem triunfante
66 O outro lançará feroz e esquivo.
“Três sóis passados, chegará o instante
De ser pelos vencidos suplantado,
69 Que esforça alguém, que aos dois faz bom semblante.
“Por algum tempo o vencedor ousado
A cerviz calcará do outro partido
72 Que se aflige oprimido e envergonhado.
“Justos há dois: ninguém lhes presta ouvido.
Três brandões — Avareza, Orgulho, Inveja,
75 Incêndio têm nos peitos acendido”. —
Assim a flébil narração boqueja.
Eu lhe respondo: “A informação completa;
78 Favor farás a quem te ouvir almeja.
“Farinata e Tegghiaio, de alma reta,
Jacopo Rusticucci, Mosca, Arrigo,
81 E os mais que da virtude o amor inquieta,
“Onde estão? Diz e franco sê comigo!
Saber qual seja anelo a sorte sua:
84 Stão no céu, ou no inferno têm castigo?” —
“Entre os que sofrem punição mais crua
Estão, por seus maus feitos, lá no fundo:
87 Se lá desces, verão a face tua.
“Quando tomares ao saudoso mundo,
De mim aviva aos meus o pensamento...
90 Não mais: volto ao silêncio meu profundo” —
Os olhos que não tinham movimento,
Torcendo fita em mim; já curva a frente
93 E cai entre os mais cegos num momento.
E disse, o Vate: “Em sono permanente
Hão de aguardar a angélica chamada,
96 Quando os julgar severo o Onipotente.
“Cad’um, a triste sepultura achada,
Ressurgindo na carne e na figura,
99 Voz ouvirá pra sempre reboada”. —
A passo lento assim pela mistura
Das sombras e da chuva caminhando,
102 Falávamos da vida, que é futura.
— “Mestre” — lhe disse então — “irá medrando
Depois da grã sentença esse tormento?
105 Igual pungir terá? Será mais brando?” —
— “Do teu saber recorre ao documento:
Verás que ao ente quando mais se eleva
108 Do bem, da dor mais cresce o sentimento.
“Bem que esta raça condenada à treva
Jamais da perfeição se eleve à altura
111 Ressurgindo, há de ter pena mais seva”. —
Perlustramos do círculo a cintura,
De cousas praticando que não digo,
Té descer um degrau na estância escura.
115 Ali’stá Pluto, o nosso grande imigo.
14. Cérbero , monstro, meio cão, meio dragão, com três cabeças, que, segundo a mitologia antiga, estava à guarda do inferno. — 52. Ciacco , parasita florentino. — 65. O partido selvagem , os Brancos. — 80. Farinata etc., nomes de florentinos ilustres.
Pluto, que está de guarda à entrada do quarto círculo, tenta amedrontar a Dante com palavras irosas. Mas Virgílio o faz calar-se, e conduz o discípulo a ver a pena dos pródigos e dos avarentos, que são condenados a rolar com os peitos grandes pesos e trocarem-se injúrias. Os Poetas discorrem sobre a Fortuna, e, depois, descem ao quinto círculo e vão margeando o Estiges, onde estão mergulhados os irascíveis e os acidiosos.
PAPE Satan, pape Satan, aleppe: Pluto com rouca voz, ao ver-nos brada. 3 Para que eu do conforto não discrepe, Virgílio, em tudo sábio: — “Da aterrada Mente” — me diz — “se desvaneça o susto! 6 Poder Pluto não tem, que tolha a entrada”. E, se volvendo ao vulto, de ira adusto, Lhe grita: — “Cal’-te, ó lobo abominoso! 9 Em ti consome esse furor injusto! “Se ao abismo descemos tenebroso, A lei se cumpre do alto, onde, em castigo, 12 Suplantara Miguel bando orgulhoso”. — Como o mastro, abatendo, traz consigo Velas, que o vento de feição tendia, 15 Baqueou-se por terra o monstro imigo. E, pois que o quarto círculo se abria, Mais penetramos pela estância horrenda, 18 A que todo seu mal o mundo envia. Ah! justiça de Deus! Que lei tremenda, Dores, penas, quais vi, tanto amontoa? 21 Por que da culpa nos obceca a venda? Como em Caribde a vaga que ressoa Embate noutra, e quebram-se espumantes: 24 Assim turba com turba se abalroa. Almas em cópia, nunca vista de antes, Fardos de um lado e de outro, em grita ingente, 27 Rolavam com seus peitos ofegantes. Batiam-se encontrando rijamente, E gritavam depois, atrás voltando: 30 “Por que tens?” “Por que empurras loucamente?” Assim no tetro círc’lo volteando Iam de toda parte ao ponto oposto, 33 Por injúria o estribilho apregoando. Nos semicírc’lo novamente rosto Faziam, té o embate reiterarem. 36 Eu, me sentindo à compaixão disposto, — “Quem são? Que razão há para aqui estarem?” Ao Mestre disse — “À esquerda os colocados 39 Clérigos são para tonsura usarem?” — “Da mente sendo vesgos, transviados” — Tornou — “andaram na primeira vida, 42 Sempre os bens aplicando desregrados. “Quem seus clamores ouve não duvida: Levantam grita aos termos dois chegados, 45 Onde oposta os separa a culpa havida: “Os que então de cabelos despojados Clérigos, papas, cardeais hão sido, 48 Pela nímia avareza subjugados”. — — “Entre eles” — respondi — “Mestre querido, Muitos serão, por certo, que eu conheça, 51 Imundos desse mal aborrecido”. — — “Te enganas, quando assim — diz — “te pareça: Da sua ignóbil vida a oscuridade 54 Vestígio não deixou, que ora apareça: “Eles se hão de embater na eternidade: Ressurgindo, uns terão as mãos fechadas, 57 Os outros de cabelos pouquidade. “Por dar mal, por mal ter, viram cerradas Do céu as portas; penam nesta lida, 60 Com mágoas, que não podem ser contadas. “Vês quanto é de vaidade iludida A ambição, em que os homens a porfiam, 63 Da Fortuna anelando os bens na vida. “Todo o ouro, que as entranhas conteriam Da terra, não pudera dar repouso 66 A um dos que em fadiga se cruciam”. — — “Quem é Mestre” — falei — “o portentoso Ser, que chamas Fortuna, que à vontade 69 Bens distribui ao mundo cobiçoso?” — Responde o Vate: — “Ó cega humanidade, Quanta ignorância a mente vos ofende. 72 Do meu pensar direi toda a verdade. “Quem pelo seu saber tudo transcende, Os céus criando, guias elegeu-lhes; 75 E toda parte a toda parte esplende, “Pela luz que igualmente concedeu-lhes. Assim fez aos mundanos esplendores, 78 Geral ministra e diretora deu-lhes, “Que em tempo os bens mudasse enganadores De nação a nação, de raça a raça 81 Contra esforços de humanos sabedores. “A pujança de um povo é grande ou escassa Segundo o seu querer, que, se escondendo 84 Qual serpe em erva triunfante passa. “Contra ela o saber vosso não valendo, No seu reino ela tem poder e mando, 87 Como os outros o seu, estão regendo. “Mudanças incessante efetuando, Se apressa por fatal necessidade, 90 E assim tantas no mundo vai formando. “Tal é Fortuna, a quem por má vontade Insulta o que louvá-la deveria, 93 Censurando-a com dura iniquidade. “Mas, feliz, não escuta a vozeria, E entre iguais criaturas primitivas, 96 Volvendo a esfera, em paz goza alegria. “Desçamos ora a dores mais esquivas; Estrelas baixam, que ao partir surgiram; 99 Demoras são defesas, são nocivas”. — Os nossos passos através seguiram Do círculo até fonte, que, fervendo, 102 As águas brota, que torrente abriram, A cor mais negra do que persa tendo. Ao longo do seu curso nós baixamos, 105 Por caminho diverso nos movendo. Lagoa, dita Stígia, deparamos, Junto à encosta maligna produzida 108 Pelo triste ribeiro, que notamos. Eu, que tinha a atenção toda embebida, Vi sombras, nesse pântano, lodosas, 111 Desnudas, de face enfurecida. Não só co’as mãos batiam-se raivosas; Peitos, cabeças, pés armas lhes sendo, 114 Com dentes laceravam-se espantosas. — “As almas, filho meu, que ora estás vendo São dos que” — disse o mestre — “venceu ira. 117 Como certo também fica sabendo “Que sob as águas multidão suspira, E em borbulhões as águas entumece 120 Por toda essa extensão, que vista gira”. — — “Nos doces ares, a que o sol aquece” — No ceno imersas dizem — “tristes fomos: 123 Dentro em nós fumo túrbido recresce. “Ora no lodo inda mais triste somos”. — Com voz cortada assim gargarejavam, 126 De palavras somente havendo assomos. “Os passos, em grande arco, nos levavam. Do paul sobre a borda seca; o bando, Tendo à vista, que assim lodo tragavam, 130 E junto de uma torre alfim chegando.
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