Kyoko abriu a porta lentamente e deu uma olhada no corredor. Não vendo ninguém, foi em frente e Suki a seguiu. Voltou para trancar a porta atrás dela e girou o corpo rapidamente para ver Suki e ouviu um “grito curto”, provavelmente vindo de sua amiga. Ali, parado na porta de entrada, Kyou a observava...e não parecia satisfeito.
Kyou olhou Kyoko e sentiu sua raiva aumentar. Voltou o olhar para Suki mostrando claramente seu rosto desgostoso.
“Deixe-nos”, exigiu numa voz perigosamente fria.
Suki olhou apologeticamente para Kyoko, mas rapidamente cumpriu o ordenado temendo as consequências se hesitasse. Ela certamente não queria ficar contra Kyou e, além disso, o homem lhe dava calafrios. Ela tinha estado consciente desde seu primeiro contato, que ele era um imortal muito poderoso, cujo caminho ninguém queria cruzar. Ela estava feliz de estar do lado dele e de não ser sua inimiga.
Kyoko cruzou os braços diante dela, desapontada quando viu Suki apressada para sumir de vista. Virou-se então para se encontrar sob a atenção de Kyou, que no momento não parecia alegre. Ela arqueou uma sobrancelha para ele e esperou. Quando ele apenas ficou lá, perfurando-a com seus olhos dourados, ela sentiu seu temperamento começava a ferver. ´ Maldito seja com seu olhar penetrante ´.
“O que foi que eu fiz?”, ela finalmente perguntou, desistindo de esperar que ele lhe dissesse.
Kyou tinha ficado irritado quando sentiu a presença de Suki no andar. Quando as viu então saindo do quarto vestidas daquele jeito, viu que não era prudente deixar Kyoko sair. Não apenas ela corria perigo por parte do inimigo, havia também o risco de algum guardião, demônio ou humano querer se acasalar com ela. Kyou ficou furioso ao pensar nisso.
“Ninguém jamais virá a este andar sem minha permissão, exceto você e Toya, entendeu?. Sua voz soava como uma repreensão.
Kyoko se empertigou, mas rapidamente lembrou-se que o edifício era dele, logo, suas regras prevaleciam. “Sinto muito. Não sabia”, disse-lhe honestamente. Sentindo sua raiva diminuir, acalmou-se estalando os dedos das mãos. Estava começando a ficar nervosa porque ele não parecia mais feliz depois de suas desculpas.
Kyou deu um passo e ficou mais perto de Kyoko. Encarando-a, pareceu-lhe que podia quase vê-la através da blusa. “Não fui avisado de seus planos para hoje à noite”. Sentiu o ânimo dela piorar depois de suas palavras, e notou um brilho em seus olhos, mas não se importou. Se ele devia protegê-la, tinha que saber o que ela planejava. Ele sabia como as garotas da escola agiam, mas sentia que Kyoko ainda estava a parte, diferente das outras, inocente.
Kyoko mordeu o lábio inferior cismando se seria obrigada a comunicar-lhe cada movimento. “Não sabia que era obrigada a lhe dizer que ia sair”, disse tentando manter a voz calma, mas sabia que ela tinha que manter a posição para ter alguma liberdade.
“Vou sair com Suki e Shinbe hoje à noite”, disse-lhe firmemente, esperando que ele não tentasse impedi-la.
Kyou deu um passo adiante, somente para vê-la recuar um passo evitando olhá-lo de baixo para cima. Ele sorriu interiormente quando deu outro passo à frente. Literalmente encurralando-a contra a parede, deixou-se envolver pelo seu aroma.
“Vestida assim?”, perguntou zangado.
Kyoko arregalou os olhos agora que estava apenas a centímetros de seu rosto e ela estava olhado de baixo para cima. Ele era bem alto. O que ele tinha dito? Os olhos dela entrecerraram mais. ´ Vestida assim...? ´
“O que há de errado no modo como me visto?”. Ela encolheu-se contra a parede quando ele baixou o rosto ao lado do ouvido dela. Ela sentia sua respiração quente no pescoço.
“Você está procurando um companheiro?”, sussurrou no seu ouvido.
Kyoko subitamente teve medo do guardião defronte dela. As palavras que ele proferiu a deixariam furiosa em circunstâncias normais, mas agora elas apenas a faziam querer encontrar um canto escuro agradável para se esconder. Se um alfinete caísse no chão, soaria como um trovão naquele silêncio. Ela praticamente saiu da própria pele quando ouviu a voz de outro tão perto deles.
“Kyoko, você está pronta?” Toya se apoiou contra a parede observando-os. Podia sentir o cheiro do medo de Kyoko a três metros de distância. Fechou uma carranca para Kyou enquanto observava Kyoko se abaixar sob o braço dele e vir rapidamente para ele.
Kyou endireitou-se novamente, mais uma vez parecendo indiferente enquanto observava Toya se colocar entre ele e Kyoko, escondendo-a de sua vista.
Bem, onde eu já vi isto antes, pensou aborrecido dizendo então friamente: “Se ela for, você não deixe que ela saia de seu lado”. Cerrou os dentes flexionando a musculatura da mandíbula, não gostando de Toya vê-la vestida com tão pouca roupa.
Toya podia ver que Kyou falava sério, e o olhar de seus olhos quase lhe dava calafrios. “Já sei”, falou estalando os dedos e tomando a mão de Kyoko: “Vamos embora”. Pediu gentilmente.
Kyoko não ia discutir isso, e não se importava de Toya praticamente empurrá-la na frente dele. “Quanto mais depressa melhor”, ela pensou. No momento ela não queria mais nada além de se apressar, agora que ela estava completamente despenteada, e praticamente voou escada abaixo.
Toya soltou a mão dela tão logo percebeu que estavam fora das vistas de Kyou. Ele observou a pressa dela com uma carranca no rosto. Ele tinha ouvido o que Kyou tinha dito a ela. Sendo guardião, sua audição era excelente. Ele tinha ido encontrar Kyoko quando Suki descera praticamente voando as escadas, quase o derrubando no caminho.
As palavras que ele tinha ouvido Kyou sussurrar no ouvido de Kyoko o tinham irritado, e tudo o que podia fazer era fingir que ele não tinha escutado. Ele nunca tinha pensado em ferir Kyou, mas o pensamento dele murmurando tais coisas a Kyoko aflorava seus piores sentimentos. Ela não tinha feito nada para merecer tal tratamento.
Toya tentou afastar os sentimentos ruins quando se encontraram com os outros.
*****
Ao entrarem no clube, Suki notou que Kyoko continuava muito quieta e perguntou, impaciente: ”Esse mau humor todo é por causa do Kyou?”
“Não é nada”, Kyoko respondeu que não queria falar sobre isso, mas então lembrou o que ele dissera a mais: “Ele disse que daquele momento em diante, ninguém mais deveria pisar naquele andar a não ser eu e o Toya”. Encolheu os ombros com tristeza e então notou que Toya estava olhando para ela.
Ela se perguntou se ele tinha ouvido o que Kyou tinha falado, então corou e rapidamente desviou o olhar não querendo saber a resposta para essa pergunta. Esta provavelmente era sua última noite de liberdade, decidiu então limpar a mente e olhar em volta com a intenção de se divertir de um jeito ou de outro.
Suki arregalou os olhos quando sentiu braços que a agarravam por trás, puxando-a ao encontro de alguém muito forte. Virando-se, deparou com olhos ametistas mirando-a.
Shinbe debruçou-se sobre o pescoço dela, e aconchegando-se, disse sorrindo: “Venha dançar”, convidou com voz sedutora.
“Mas acabamos de chegar aqui”, falou Suki sem entusiasmo.
“Eu sei”, replicou Shinbe piscando para Kyoko. “Quero lhe pegar antes que alguém o faça”. Deliberadamente, ele deslizou a mão pela sua cintura fazendo com que ela se virasse para encará-lo. Olhando maliciosamente para Kyoko, falou: ”Ela volta logo”.
Suki concordou, tentando disfarçar ter ficado instantaneamente corada. Shinbe levou-a até a pista de dança, afastando-se de Kyoko e Toya.
Kyoko sabia que seus nervos não iam aguentar muito mais, e foi para o bar achando que um drinque poderia ajudá-la a relaxar um pouco. Nem olhou para ver se Toya a seguia. Sabia que ele tinha recebido ordens para vigiá-la. Não era como se eles tivessem marcado aquele encontro. Ela quase sentia pena dele.
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