Kyoko observou-o atentamente tentando se lembrar de alguma coisa sobre ele. Ele parecia conhecê-la muito bem. Olhando profundamente em seus olhos, ela murmurou com curiosidade. ”Até que ponto nós éramos íntimos?”
Uma agitação de afeto oculto cruzou os olhos dourados de Kyou antes dele enrijecer e se afastar dela. Seu exterior frio voltara, ele resmungou olhando para a porta e voltou-se para ela rapidamente. “Não repita o que eu lhe disse porque eles se lembrarão sozinhos”.
Kyoko deu um salto assustada com as fortes batidas na porta, e ela logo foi aberta sem permissão.
Toya tinha começado a se preocupar pela segurança da garota e pensara em interromper, se não fosse por nada para salvá-la do tratamento gelado que ele sabia ser típico de Kyou. Seu olhar foi instantaneamente atraído para ela assim que entrou.
“Bem, vejo que ela sobreviveu à sua conversa”, disse com as íris dos olhos faiscando prata e sentindo ainda que algo não estava certo. “Se você já terminou com Kyoko, Suki está esperando por ela.” Toya ergueu seu olhar dourados para Kyou sem reparar as partículas prateadas que começavam a aparecer nos seus olhos.
Kyou encarou Toya friamente como de hábito e assentiu em silêncio.
Kyoko olhou Toya amigavelmente, pois agora que estava usando seus sentidos, sabia que ele, mesmo sem agir, tinha se preocupado com sua segurança.
´ Teria teria morrido por você ´. O que Kyou dissera veio-lhe à mente para assombrá-la.
Kyou observou como ela estava a vontade com Toya, e sentiu saudade de algo distante, porém familiar, que o fez franzir o sobrolho. Lembrava-se bem desse sentimento, e entrecerrou o olhar mirando o guardião prateado. Será que ela sempre teria um laço especial com seu irmão que não tinha pelos demais?
Kyoko ficou de pé, acenou em despedida para Kyou e lhe deu um sorriso secreto sem que Toya visse. Virou-se então para Toya dirigindo-lhe um de seus mais doces sorrisos. “Vamos embora, não podemos deixar Suki esperando”. Saiu pela porta deixando Toya ali com um sentimento de afeto. Um sentimento que somente seu sorriso poderia causar.
Ele sacudiu a cabeça tentando afastar a sensação afetuosa. Franziu então o sobrolho para Kyou, e reparou que ele o observava intensamente. “E então?” Toya perguntou com voz áspera sabendo que não conseguiria uma resposta. Decidindo que seria perda de tempo, saiu pela porta batendo-a atrás dele e apressando-se para alcançar Kyoko.
Toya observou as costas de Kyoko enquanto ela caminhava apressadamente pelo corredor. Ela devia estar com pressa para se afastar de Kyou. Riu para si mesmo, e acelerou o passo para alcança-la, o que não foi nenhum problema considerando-se que era um guardião. Seus pensamentos ficaram meio nublados, e ele ficou pensando se ela ao menos sabia quem ele era. Duvidava que ela soubesse, ou não teria sorrido para ele como tinha feito.
No topo das escadas, Kyoko sabia que Toya estava logo atrás dela porque podia senti-lo. Sim, ela sentia sua poderosa aura, mas era um pouco diferente do que com Kyou. Ela fechou os olhos, apenas por um segundo. Buscando a aura, Kyoko decidiu que não daria importância ao que ele tinha feito de ruim, sua aura era na verdade muito acolhedora e lhe fazia bem, entre outras coisas, a fazia sentir-se protegida.
Ela compreendia que Toya era mais novo que Kyou, mas ela também sentia o poder oculto que ele tinha. Um poder que, se acionado, poderia fazer Toya superar seu irmão num segundo, mas achava que nenhum dos dois tinha consciência disso. Kyoko se divertia em usar seus sentidos, agora que ela os tinha ativado novamente.
“Então...”, ela voltou-se para ele, ”onde estão Suki e Shinbe?”
Toya semicerrou os olhos mirando-a, agora que sua mentira tinha sido descoberta. ´ Puxa... como poderia saber onde Suki e Shinbe estavam? ´ Ele só tinha ido até ela para livrá-la de Kyou.
“Não sei”, disse em tom de pesar.
Kyoko franziu o sobrolho, “mas você tinha dito...”
Toya a interrompeu. “Você deveria me agradecer por tê-la salvado”, disse ele aproximando-se para amedrontá-la.
“Salvar-me de que?” Kyoko murmurou bem perto do seu rosto, não gostando de sua atitude. Puxa, algumas vezes ele realmente se comportava como um babaca.
“Salvá-la de Kyou”, respondeu Toya em voz alta cerrando o punho. Ela poderia realmente tirá-lo do sério com sua boquinha linda. ´ Boquinha linda? De onde vinha essa expressão? ´ Ele deu um passo atrás, confuso.
Surpresa, Kyoko olhou fixamente para ele por um minuto. Então, lentamente no início, mas depois cada vez mais alto, começou a rir dele. “Foi o que você fez?”, perguntou tentando respirar entre risadas. “Por que você faria isso?” Disse parando de rir aos poucos, finalmente sorrindo abertamente, embora seus olhos ainda mostrassem um lampejo de travessura.
“Isso foi muito gentil. Não sabia que você se importava”, disse franzindo o nariz para ele e tentando manter-se séria.
Toya a encarou percebendo que ele era a piada. “ Então, você afinal decidiu ficar, sacerdotisa?” Cuspiu a última palavra sentindo um gosto ruim na boca.
Kyoko parou de sorrir e aproximou outra vez o rosto a centímetros dele, olhando fixamente seus olhos dourados. “Sim, decidi, guardião” Ela arqueou uma sobrancelha para ele, virou-se e correu rindo para descer a escada.
´ SIM! ´ Disse Kyoko mentalmente, e marcou mais um ponto a favor no seu marcador secreto e imaginário. ‘Kyoko um… Toya nada’.
Os olhos de Toya se arregalaram por um instante antes dele perceber que a garota tinha lhe passado a perna. “Merda!”. Ele assobiou e saiu atrás dela.
Kyoko estava quase no pé da escada quando sentiu que seus instintos de sacerdotisa estavam sobrecarregados. Pressentindo outro guardião além de Toya, ela olhou em volta. A única pessoa suficientemente próxima para causar essa sensação era um estudante no pé da escada olhando-a com interesse.
Olhando mais de perto ela ficou perplexa com os reflexos arroxeados de seu cabelo indomável e com os olhos mais lindos que já vira. Enquanto olhava aqueles olhos ela podia jurar que via o brilho de todas as cores aparecer dentro das íris dos olhos dele.
Toya agora estava atrás de Kyoko. Vendo-a parar subitamente, ele notou que ela estava encarando Kamui. ´ Então ela também pode detetar imortais ´, Toya pensou consigo mesmo. Indo até ela, agarrou seu braço, “Venha, vou lhe apresentar”.
Toya tinha descoberto o ponto fraco de Kamui logo que o conhecera. Tudo o que ele realmente sabia era que ele não tinha pais e que tinha crescido num orfanato até Kyou lhe oferecer um lugar aqui.
Kyoko se deixou levar meio puxada, meio empurrada por Toya até o estranho. Ela podia dizer que ele também era imortal, e sentia ao mesmo tempo sua extraordinária bondade. Ela deixou seus sentidos explorarem a aura dele, encontrando a calidez e inocência oculta de uma criança.
“Olá Toya, quem é essa aqui?” Os olhos de Kamui brilharam ao contemplá-la com fascinação Ele se sentiu como se a esperasse há tanto tempo... ainda que não tivesse ideia alguma de quem ela era. Era como se sempre tivesse sentido imensamente sua falta. Pareceu-lhe poderia de repente respirar de novo e ele até inalou para comprovar isso, mas quando o fez captou seu aroma descobrindo que também lhe parecia muito conhecido.
Olhando Toya, perguntou: “O que foi que você fez? Arranjou uma namorada?” Kamui sorria com seus olhos acesos de bom humor.
“De jeito nenhum”, Toya replicou. “Ela em absoluto não é meu tipo”.
“Como você pode saber? Você nunca teve uma namorada”. Kamui riu alto gostando de seu próprio gracejo.
Kyoko tentou não rir, mas ver a alegria nos olhos de Kamui somada à expressão sombria no rosto de Toya tornou isso impossível.
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