«Onde estou eu? Não será tudo isto um sonho? O que foi que me disseram? É realmente verdade que vi o Javert e que ele me falou daquele modo? Quem será esse Champmathieu? Será possível que se pareça comigo a tal ponto? Quando me lembro de que ainda ontem estava tão tranquilo e longe de suspeitar semelhantes coisas! Que fazia eu ontem a esta hora? O que há, pois, em todo este incidente? Qual será o seu destino? Que hei de fazer?»
Eis a tormenta que o agitava. As ideias passavam-lhe como ondas pelo cérebro, que perdera a força de as reter; e ele para o conseguir apertava a fronte entre as mãos.
Deste tumulto que lhe abalava a vontade e a razão, e do qual ele procurava tirar uma evidência e uma resolução, saía apenas livre a angústia.
A cabeça escaldava-lhe. Dirigiu-se para a janela e abriu-a de par em par. No céu não havia uma só estrela.
Em seguida foi novamente sentar-se junto da mesa.
Decorreu deste modo a primeira hora.
Entretanto, a pouco e pouco, começaram a formar-se-lhe no meio da meditação uns vagos delineamentos e pôde entrever com a exatidão da realidade, não o conjunto da situação, mas alguns pormenores.
Principiou por reconhecer que por mais extraordinária e crítica que fosse a sua situação, estava completamente senhor dela.
O seu espanto tornou-se ainda mais intenso.
Independentemente do severo e religioso fim a que visavam as suas ações, tudo quanto fizera até àquele dia não fora mais do que aprofundar a cova em que enterrara o seu nome. Era o seu nome o que ele sempre mais temera ouvir pronunciar nas suas horas de insónia dizia consigo próprio que seria esse o fim de tudo para ele; no dia em que esse nome tornasse a aparecer, o seu desaparecimento faria desvanecer em torno de si a sua vida nova, e quem sabe se talvez no interior dele a sua nova alma?
Estremecia só com a lembrança da possibilidade de semelhante pensamento. com efeito, se alguém naquelas ocasiões lhe houvesse dito que chegaria uma hora em que esse nome lhe soaria aos ouvidos, em que esse medonho nome Jean Valjean sairia subitamente da profunda obscuridade em que jazia e se ergueria diante dele, em que essa luz temível, feita para dissipar o mistério em que ele se envolvia, resplandeceria de improviso a seus olhos, e que esse nome o não ameaçaria, que essa luz só produziria uma obscuridade mais espessa, que o rasgar desse véu aumentaria mais o mistério, que aquele tremor de terra consolidaria o seu edifício, que esse prodigioso incidente não teria outro resultado, se a ele lhe aprouvesse, senão tornar-lhe a existência juntamente mais límpida e mais impenetrável, e que do seu confronto com o fantasma de Jean Valjean sairia o bom e digno burguês Madelaine, mais honrado, mais tranquilo e mais respeitado do que nunca; se alguém lhe tivesse dito tudo isto, encolheria os ombros e julgaria insensatas tais palavras. Pois bem! Fora precisamente o que lhe sucedera; tão grande montão de impossíveis era um facto e Deus permitira que tamanhas loucuras se tornassem realidades!
As suas visões continuavam a esclarecer-se; cada vez ia adquirindo mais profundo conhecimento da sua posição.
Parecia-lhe que acabava de acordar de um estranho sono e que no meio da noite, de pé, à beira de um abismo, diligenciando em vão recuar, resvalava para ele num declive rápido e inevitável. No mais denso das sombras entrevia um desconhecido que o destino se comprazia em tornar seu substituto e que o impelia em seu lugar para o medonho abismo. Era necessário que um ou outro caísse no precipício, para que ele se fechasse. Não havia mais do que deixar correr as coisas. A luz chegou à sua maior intensidade, e ele confessou a si próprio que o seu lugar nas galés estava vago; que, por mais que fizesse, elas lá o esperavam; que o roubo ao pequenito Gervásio ali o conduziria outra vez que esse lugar vazio o aguardava e atrairia até que o fosse preencher, o que era inevitável e fatal. Em seguida disse ainda para consigo que naquele momento tinha um substituto, porque parecia que um tal Champmathieu tomava essa crítica posição e que quanto a ele, presente nas galés na pessoa desse Champmathieu, presente na sociedade debaixo do nome de Madelaine, já nada tinha a temer, contanto que não obstasse a que os homens selassem sobre a cabeça desse Champmathieu, essa pedra de infâmia que, semelhante à pedra do sepulcro, uma só vez cai, para nunca mais se erguer.
Isto tudo era tão violento e extraordinário que subitamente se operou nele o movimento indescritível que nenhum homem experimenta mais de duas ou três vezes na vida, espécie de convulsão da consciência, que revolve quanto o coração contém de duvidoso, que se compõe de ironia, de alegria e desespero, e que bem poderia chamar-se uma gargalhada íntima.
De repente acendeu precipitadamente a vela e disse consigo:
«Mas que devo eu temer? Para que hei de pensar nestas coisas? Estou salvo! Acabou-se tudo! Não havia senão uma porta entreaberta pela qual o passado poderia irromper na minha vida, e essa porta está para sempre fechada! Esse Javert que há tanto tempo me perturba, esse temível instinto que parecia ter-me adivinhado, que me adivinhou e que por toda a parte me seguia; esse medonho rafeiro que me não perdia a pista, ei-lo fora do rasto, atento para outra parte, absolutamente desnorteado! Agora está satisfeito, encontrou o seu Jean Valjean; deixar-me-á, portanto, tranquilo! Quem sabe? Talvez até queira sair da cidade! Fez-se tudo sem que eu desse um passo! Não entrei com coisa alguma em tudo isto! Mas, de facto, o que pode haver de desgraça neste acontecimento? Palavra de honra que quem me visse havia de julgar que me sucedeu alguma catástrofe! Afinal de contas, se isto acarreta prejuízo a alguém, não é minha a culpa. É tudo devido à Providência, que aparentemente assim o quer! Tenho eu porventura direito de contrariar os seus desígnios? O que exijo eu presentemente? Em que me vou envolver? Sou estranho a tudo! De que é que preciso? O fim a que tenho aspirado por tantos anos, o sonho de todas as minhas noites, o objeto das minhas súplicas ao céu, a segurança, alcancei-a definitivamente! E para que o quer Deus? Para que eu continue o que comecei, para que pratique o bem, para que possa ser um dia grande e animador exemplo, para que chegue a dizer que houve enfim alguma felicidade ligada à penitência que tenho cumprido e à virtude a que voltei! Realmente não compreendo porque tive medo de entrar em casa do excelente cura, de lhe contar tudo como a um confessor e de lhe pedir conselho; ter-me-ia evidentemente dito o mesmo que tenho pensado. Está decidido, deixemos caminhar as coisas! Deixemos completar a obra de Deus!»
Assim raciocinava ele no mais íntimo da consciência, debruçado sobre o que poderia chamar-se o seu próprio abismo. Levantou-se por fim da cadeira e pôs-se a passear no quarto.
— Vamos — disse ele, falando consigo próprio —,não pensemos mais nisto. Estou resolvido!
Não sentiu, porém, a mínima alegria. Pelo contrário.
Pretender obstar a que o pensamento volte a ocupar-se de uma ideia, seria o mesmo que querer impedir o mar de voltar a humedecer a areia da praia. Para o marinheiro, chama-se isto a maré; para o criminoso, chama-se remorso. Deus agita a alma, como agita o oceano.
Passados instantes e por mais que fizesse, continuou o sombrio diálogo, em que era de que falava e quem escutava, dizendo o que desejaria calar, escutando o que desejaria não ouvir, cedendo a essa potência misteriosa que lhe dizia: Pensa! Como há dois mil anos dizia a outro condenado: Caminha!
Antes de nos adiantarmos mais e para sermos completamente compreendidos, insistamos numa observação necessária.
É certo que o homem fala a si mesmo; não há um único ser racional que o não tenha experimentado. Pode mesmo dizer-se que o mistério do Verbo nunca é mais magnífico do que quando, no interior do homem, vai do pensamento à consciência e volta da consciência ao pensamento. É somente neste sentido que devem ser entendidas até palavras, frequentemente empregadas neste capítulo: disse, exclamou: diz, fala, exclama, cada um consigo mesmo, sem que seja quebrado o silêncio exterior. Há um grande tumulto; tudo fala em nós, exceto a boca. As realidades da alma, por não serem visíveis e palpáveis, nem por isso deixam de ser também realidades.
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