Theremon tinha chegado mais um pouco para a frente. Estava fazendo pontaria com a pistola.
A bola incandescente atingiu a fachada branca da casa. Na mesma hora, a madeira começou a ficar preta. Pequenas chamas apareceram. Ele desenhou uma linha de fogo na frente da casa, parou por um momento, atirou de novo, traçando uma nova linha sobre a primeira.
— Passe a sua pistola para cá — disse para Siferra. A minha está ficando superaquecida.
A moça entregou-lhe a arma. Theremon ajustou-a e disparou pela terceira vez. Uma boa parte da frente da casa já estava em chamas. O feixe já começava a penetrar no interior dos aposentos.
Não fazia muito tempo, pensou Siferra, aquela casa branca de madeira tinha pertencido a alguém. Pessoas moravam ali, uma família, orgulhosa de sua casa, do seu bairro… cuidando do gramado, regando as plantas, brincando com os cachorros, recebendo os amigos para jantar, bebendo drinques na varanda enquanto viam os sóis se porem.
Agora, nada disso significava mais nada. Agora Theremon estava deitado de bruços em um beco cheio de detritos, incendiando, de forma eficiente e sistemática, uma casa branca de madeira. Porque era a única maneira de poder sair dali e continuar a viagem para o Parque de Aragando.
Um mundo de pesadelo, sim.
Uma grossa coluna de fumaça estava saindo da casa. Todo o lado esquerdo da fachada estava em chamas.
E os ocupantes estavam pulando da janela do segundo andar.
Três, quatro, cinco deles, tossindo, lutando para respirar. Duas mulheres e três homens. Caíram no jardim e ficaram parados por um momento, como se estivessem tontos.
As roupas estavam em farrapos, os cabelos desgrenhados. Malucos. Tinham sido alguma coisa diferente, antes do Cair da Noite, mas agora eram parte daquela grande horda de infelizes, cujas mentes tinham sido perturbadas, talvez para sempre, pela súbita rajada de luz fria que as Estrelas haviam submetido seus sentidos despreparados.
— Levantem-se! — gritou Theremon. — Mãos para cima! Já! Vamos, levantem as mãos!
Levantou-se, com uma pistola em cada mão, e atravessou a rua. Siferra acompanhou-o. A casa agora estava envolvida pela fumaça, e dentro daquele manto negro grandes labaredas lambiam todos os lados da estrutura, como se fossem flâmulas escarlates. Será que ainda havia pessoas lá dentro? Que importava?
— Façam fila! — ordenou Theremon. — Isso mesmo! Virados para a esquerda! — Eles ficaram em posição de sentido. Um dos homens parecia um pouco relutante, e Theremon atirou por cima da sua cabeça para apressá-lo. — Agora comecem a correr. Pelo meio da rua! Mais depressa! Mais depressa!
Um dos lados da casa desabou, com um grande estrondo, deixando à vista os quartos, os armários, a mobília, como uma grande casa de bonecas. Estava tudo em chamas.
Os invasores já tinham chegado à esquina. Theremon continuou a gritar e a ameaçá-los, atirando de vez em quando. Depois, voltou-se para Siferra.
— Tudo bem. Vamos dar o fora daqui!
Colocaram as pistolas nos coldres e saíram correndo na direção oposta, à procura da Grande Estrada do Sul.
— E se eles tivessem saído atirando? — perguntou Siferra mais tarde, quando já podiam ver à distância o começo da estrada. — Teria coragem de matá-los, Theremon?
O jornalista olhou para ela, muito sério.
— Se fosse a única maneira de sairmos daquele beco? Acho que já respondi a esta pergunta. Claro que teria coragem. Que mais poderia fazer?
— Nada, suponho — observou Siferra, com um fio de voz.
A imagem da casa em chamas ainda estava bem viva na sua memória. E a visão daquelas pessoas esfarrapadas, correndo pela rua. Eles haviam atirado primeiro, disse para si mesma. A culpa era deles. Era impossível dizer de que seriam capazes, se Theremon não tivesse tido a ideia de incendiar a casa… casa… a casa de alguém… casa de ninguém, corrigiu.
— Ali está — disse Theremon. — A Grande Estrada do Sul. Daqui até Aragando, são cinco horas de carro. Poderíamos chegar lá na hora do jantar.
— Se tivéssemos um carro — disse Siferra.
— Se tivéssemos um carro.
Mesmo depois de tudo que havia visto no caminho, o estado da Grande Estrada do Sul pegou Theremon de surpresa. Era como se o pior pesadelo de um engenheiro de estradas se transformasse em realidade.
Enquanto estavam atravessando os subúrbios ao sul da cidade, Theremon e Siferra haviam encontrado muitos veículos abandonados nas ruas. Era evidente que muitos motoristas, tomados pelo pânico no momento do eclipse, haviam saltado dos carros e fugido a pé, na esperança de encontrar algum lugar para se esconderem do brilho aterrorizante das Estrelas.
Entretanto, os carros abandonados nas ruas dos bairros residenciais pelos quais ele e Siferra haviam passado estavam espalhados de forma mais ou menos esparsa, aqui e ali, com grandes espaços vazios entre eles. Naqueles bairros, o tráfego na hora do eclipse, depois do final do expediente, deve ter sido relativamente leve.
A Grande Estrada do Sul, porém, que àquela hora ainda estava com o tráfego pesado dos motoristas que voltavam para casa do trabalho, deve ter se transformado instantaneamente em um hospício no momento em que a catástrofe se abateu sobre o planeta.
— Olhe para isso! — sussurrou Theremon, horrorizado. — Olhe para isso, Siferra!
A arqueóloga sacudiu a cabeça.
— É incrível. Incrível!
Havia carros em toda parte, nas mais estranhas posições, alguns empilhados por cima dos outros. A estrada de várias pistas estava quase totalmente bloqueada pelos veículos, que formavam uma parede de destroços. Estavam voltados em todas as direções. Alguns estavam de rodas para cima. Muitos não passavam de esqueletos calcinados.
Poças de gasolina derramada brilhavam como lagos cristalinos. Trilhas de cacos de vidro faziam o piso cintilar. Carros mortos. Motoristas mortos.
Era a pior cena que os dois já haviam visto. Um enorme exército de cadáveres se estendia diante deles. Havia corpos ao volante dos carros, corpos imprensados entre os veículos que haviam colidido, corpos debaixo das rodas dos carros. E centenas de corpos simplesmente espalhados como bonecas velhas ao longo do acostamento da estrada, os membros congelados nas posições grotescas da morte.
— Provavelmente alguns motoristas pararam logo que as Estrelas apareceram — disse Siferra. — Outros, porém, aceleraram, tentando chegar em casa, e se chocaram com os que haviam parado. Outros, ainda, ficaram tão assustados que não conseguiram mais controlar os seus carros. Olhe, um deles saiu da estrada bem ali, e aquele deve ter dado meia-volta e tentado voltar pela contramão…
Theremon estremeceu.
— Um engavetamento colossal. Carros chegando de todos os lados ao mesmo tempo. Girando sobre si mesmos, capotando, passando para a outra pista. As pessoas saltando, correndo sem destino, sendo atropeladas por outros carros que ainda não haviam parado. Todos perdendo a razão de mil maneiras diferentes.
O jornalista começou a rir com amargura.
— Como você tem coragem de achar graça de uma coisa dessas?
— Estou rindo da minha inocência — explicou Theremon. — Sabe, Siferra, há uma hora, quando estávamos nos aproximando da estrada, pensei que, com um pouco de sorte, poderíamos encontrar um carro abandonado com um pouco de combustível no tanque e simplesmente dirigir até Aragando. Seria muito conveniente, não acha? Só que não parei para pensar que a estrada estaria totalmente bloqueada, que mesmo que tivéssemos a sorte de achar um carro em bom estado, não conseguiríamos andar nem cem metros com ele…
— No estado em que está a estrada, até a pé vai ser difícil.
— É verdade. Mas não existe outro caminho. Sombrios, começaram a longa jornada para o sul. Iluminados pela luz quentes de Onos, caminharam pelo acostamento da rodovia, desviando-se dos carros amassados, tentando ignorar os corpos calcinados e mutilados, as poças de sangue seco, o cheiro de morte, o horror daquilo tudo.
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