Finalmente, chegaram à orla da floresta. A temperatura estava caindo e o dia havia ficado desagradavelmente escuro, agora que Patru e Trey eram os únicos sóis no céu. No passado, Theremon jamais se preocupara com o nível relativamente baixo de iluminação que era típico das ocasiões em que apenas um dos pares de sóis se encontrava no céu. Desde o eclipse, porém, as noites de dois sóis o deixavam com a impressão (que sabia ser falsa) de que a Escuridão poderia voltar a qualquer momento. As feridas psíquicas do Cair da Noite levariam muito tempo para sarar, mesmo para os indivíduos mais equilibrados do planeta.
— O Abrigo fica logo no final desta estrada — disse Siferra. — Como está se sentindo?
— Mais ou menos — disse Theremon. — Eles não conseguiram me aleijar.
Mesmo assim, era preciso um esforço considerável para fazer as pernas machucadas funcionarem. Sentiu um imenso alívio quando finalmente chegaram à entrada do Abrigo.
O lugar parecia um grande labirinto. Cavernas e corredores se espalhavam em todas as direções. À distância, viu os tubos e fios de equipamentos científicos, misteriosos e indecifráveis, correndo ao longo das paredes e do teto. Lembrou-se de que ali havia funcionado o acelerador de partículas da universidade até ser inaugurado o novo laboratório. Aparentemente, os físicos haviam deixado para trás as máquinas obsoletas.
Um homem alto apareceu, irradiando autoridade.
— É Altinol 111 — disse Siferra. — Altinol, quero lhe apresentar Theremon 762.
— O jornalista da Crônica? — disse Altinol. Ele não parecia surpreso nem impressionado, parecia apenas estar registrando o fato.
— Ex-jornalista — disse Theremon.
Os dois se encararam friamente. Altinol parecia um osso duro de roer, pensou Theremon. Era um homem de meia-idade, em excelente forma física. Estava bem vestido e tinha o ar de uma pessoa que está acostumada a ser obedecida. Depois de examinar sua fisionomia por alguns instantes, Theremon vasculhou os escaninhos da memória, e, de repente, seu rosto se iluminou.
— Indústrias Morthaine? O mesmo Altinol?
Um lampejo de… interesse — seria aborrecimento? apareceu nos olhos de Altinol.
— O mesmo Altinol.
— Os jornais diziam que seu sonho era ser o Primeiro Executivo. Agora parece que conseguiu o que queria. Pelo menos, para o que restou da cidade de Saro, se não para a República Federal.
— Uma coisa de cada vez — disse Altinol, com voz contida. — Primeiro, vamos tentar sair da anarquia. Depois, será a hora de colocar o país de novo em ordem e decidir quem vai ser o novo Primeiro Executivo. Temos o problema dos Apóstolos, por exemplo, que assumiram o controle de toda a parte norte da cidade e terrenos vizinhos. Não vai ser fácil tirá-los de lá. — Altinol sorriu friamente. — Uma coisa de cada vez, meu amigo.
— Quanto a Theremon — interveio Siferra — a primeira coisa de que ele precisa é de um banho. Depois, uma refeição decente. Ele está vivendo na floresta desde o Cair da Noite. Venha comigo — disse para o repórter.
Haviam levantado tabiques ao longo do túnel do acelerador de partículas, dividindo-o em uma série de cubículos. Siferra levou-o até um deles, no qual canos de cobre montados no teto levavam água para um tanque de porcelana.
— A água não vai estar muito quente — preveniu a arqueóloga. — Só ligamos a caldeira alguma horas por dia, para economizar combustível. Mas deve ser melhor do que tomar banho em um rio gelado da floresta. Que é que você sabe a respeito de Altinol?
— Ele é presidente das Indústrias Morthaine, uma grande companhia de transportes. O nome dele esteve nas manchetes faz uns dois anos, por causa de um contrato supostamente irregular para desenvolver um grande projeto imobiliário em terras do governo, na província de Nibro.
— Que é que uma companhia de transportes tem a ver com projetos imobiliários? — perguntou Siferra.
— E exatamente essa a questão. Nada a ver. Ele foi acusado de tentar manipular os congressistas. Se não me engano, ofereceu passagens de graça em seus navios para os senadores, se eles aprovassem o projeto. — Theremon deu de ombros. — Na verdade, nada disso importa. A companhia deixou de existir. O projeto imobiliário não tem mais razão de ser. Não existem mais senadores para serem subornados. Provavelmente, ele não gostou de ter sido reconhecido.
— Provavelmente, ele não se importou nem um pouco. No momento, a única coisa que lhe interessa é dirigir o Corpo de Bombeiros.
— Por enquanto — declarou Theremon. — Hoje o Corpo de Bombeiros da cidade de Saro, amanhã o mundo. Viu como ele falou em tirar os Apóstolos da parte norte da cidade. Mas acho que alguém tem que fazer essas coisas. E ele é o tipo de pessoa que gosta de mandar nos outros.
Siferra saiu. Theremon entrou no tanque de porcelana. Não era uma instalação luxuosa, mas depois de tudo que havia passado recentemente, sentiu-se no paraíso. Deitou-se, fechou os olhos e relaxou o corpo.
Depois do banho, Siferra levou-o ao refeitório do Abrigo, um aposento simples, com teto de metal, e o deixou sozinho, alegando que tinha que fazer o relatório do dia para Altinol. Havia uma refeição à espera do repórter, uma das bandejas de comida congelada que tinham sido armazenadas ali nos meses que precederam o eclipse.
Carne com legumes. Como complemento, um refrigerante verde. Para Theremon, estava tudo delicioso.
Forçou-se a comer devagar, sabendo que, depois de tanto tempo na floresta, seu corpo não estava mais acostumado a comida de verdade. Seu primeiro impulso era engolir tudo de uma vez e pedir mais, mas mastigou cada bocado.
Depois de terminar a refeição, Theremon ficou olhando para as feias paredes de metal. Não estava mais com fome, e seu estado de espírito estava começando a mudar para pior. Apesar do banho, apesar da comida, apesar da tranquilidade de saber que estava em segurança naquele Abrigo bem defendido, surpreendeu-se ao se ver envolvido pela mais profunda depressão.
Sentia-se cansado, sem esperanças e cheio de melancolia. Tinha sido um bom mundo, pensou. Não um mundo perfeito, longe disso, mas um mundo agradável. As pessoas eram razoavelmente felizes. Estavam fazendo progresso em todas as frentes. O conhecimento científico aumentava a cada dia, a distribuição de renda estava se tornando mais justa, as disputas entre os países eram resolvidas cada vez mais através da negociação. As guerras estavam praticamente ultrapassadas, e os preconceitos religiosos eram coisa do passado.
Agora, estava tudo terminado. Em questão de horas, a Escuridão se encarregara de destruir toda uma civilização. Um novo mundo nasceria das cinzas do antigo, é claro.
Era sempre assim, como as escavações de Siferra haviam demonstrado.
Mas que tipo de mundo seria?, pensou Theremon. A resposta estava diante dos seus olhos. Seria um mundo no qual as pessoas eram capazes de matar por um pedaço de carne, porque alguém havia violado uma superstição a respeito do fogo, ou apenas porque matar parecia ser uma coisa divertida. Um mundo no qual pessoas como Altinol se aproveitavam do caos para chegar ao poder. O mundo no qual pessoas como Folimun e Mondior estavam se preparando para se tornar ditadores do pensamento, provavelmente com a cumplicidade de pessoas como Altinol. Um mundo no qual…
Não. Sacudiu a cabeça. Que adiantava ficar se lamentando daquele jeito?
Siferra estava certa, disse para si próprio. Não era hora de ficar especulando sobre o que poderia ter acontecido. Pelo menos, estava vivo, seu cérebro estava funcionando de novo, e tinha escapado da aventura na floresta com apenas alguns arranhões que logo estariam curados. A depressão era uma emoção inútil; pior do que isso, era um luxo a que não podia se permitir, da mesma forma que Siferra não podia se permitir o luxo de continuar zangada com ele por causa dos artigos que escrevera.
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