— Larguem-me! — murmurou Theremon, debatendo-se.
— Podem largá-lo — disse o líder. Ele enfiou o pé mais uma vez na fogueira de Theremon, misturando as plantinhas com a terra. — As fogueiras não são mais permitidas — disse para Theremon. — Chega de fogo. O risco é muito grande, você não compreende? Se tentar acender outra fogueira, vamos voltar e quebrar a sua cabeça, está me entendendo?
— Foi o fogo que acabou com o mundo — disse um dos outros.
— Foi o fogo que nos fez sair de casa.
— O fogo é o inimigo. O fogo é proibido. O fogo é mau.
Theremon. olhou para ele, surpreso. Fogo mau? Fogo proibido? Então eles eram malucos, no final das contas!
— A pena por acender uma fogueira, da primeira vez, é uma multa — disse o líder. — Vamos ficar com este animal. Isto lhe ensinará a não colocar em perigo a vida de pessoas inocentes. Pegue-o, Listigon. É uma boa lição para ele. Da próxima vez que pegar alguma coisa, se lembrará de que não deve tentar conjurar o inimigo só porque está com vontade de comer carne assada.
— Não! — gritou Theremon, com voz estrangulada, quando Listigon se curvou para pegar o graben. — Ele é meu, seus débeis mentais! Meu! Meu!
Avançou contra eles às cegas, louco de raiva e frustração. Alguém lhe deu um soco no estômago, com toda a força. Ele deixou o ar escapar e se dobrou em dois, segurando o abdome com as duas mãos. Outro dos estranhos golpeou-o nas costas, fazendo-o cambalear. Desta vez, porém, ele teve tempo de dar uma cotovelada no atacante e ouviu, satisfeito, um grito de dor.
Fazia muito anos que não se envolvia em uma briga. Além disso, tinha certeza de que nunca lutara contra cinco homens ao mesmo tempo. Não havia, porém, alternativa.
O que tinha a fazer, disse para si mesmo, era se manter de pé e procurar chegar à parede de pedra, onde pelo menos não poderiam atacá-lo pela retaguarda. Em seguida, trataria de mantê-los à distância, chutando, socando e mordendo, se necessário, até que resolvessem deixá-lo em paz.
Uma voz dentro dele disse: Estão todos completamente malucos. É bem possível que não desistam até matá-lo de pancada. Entretanto, não havia nada que pudesse fazer além de tentar mantê-los à distância, agora.
Manteve a cabeça baixa e se defendeu com os braços, tentando ao mesmo tempo aproximar-se da pedra. Eles o cercaram, golpeando-o de todos os lados. Mesmo assim, ele não caiu. A vantagem numérica não era tão esmagadora quanto esperava. Naquele espaço limitado, os cinco não conseguiam atacá-lo ao mesmo tempo, e Theremon podia tirar proveito da confusão, esquivando-se dos socos e mudando de posição enquanto eles paravam os golpes no ar com medo de atingir os próprios companheiros.
Mesmo assim, sabia que não poderia resistir por muito tempo. O lábio estava sangrando, um dos olhos começou a inchar e sentiu que estava perdendo o fôlego. Mais um soco bem dado e desabaria no chão. Manteve um dos braços na frente do rosto e atacou com o outro, continuando a recuar na direção da parede de pedra. Deu um pontapé em alguém e ouviu uma praga. Alguém o chutou de volta. Theremon sentiu uma dor aguda na coxa.
Cambaleou. Lutou desesperadamente para respirar. Era difícil saber o que estava acontecendo. Estavam todos em cima dele agora, socando-o sem parar. Não conseguiria chegar à pedra. Não conseguiria continuar de pé por muito tempo. Quando caísse, seria pisoteado. Seria o fim…
Seria a morte…
De repente, percebeu que havia uma confusão dentro da confusão. Gritos de vozes diferentes, caras novas se misturando com as antigas, um exército de pessoas por toda a parte. Só faltava esta, pensou. Um outro bando de malucos para se divertir comigo. Mas talvez eu consiga escapar enquanto os dois bandos se estranham…
— Parem, em nome do Corpo de Bombeiros! — gritou alto uma mulher, em tom autoritário. — É uma ordem! Parem, todos vocês! Afastem-se dele! Já!
Theremon piscou os olhos e esfregou a testa. Olhou em torno, surpreso.
Havia quatro recém-chegados na clareira. Pareciam limpos e descansados, e estavam usando roupas em bom estado. Todos tinham lenços verdes amarrados no pescoço. Estavam armados com pistolas.
A mulher, que parecia ser a chefe, fez um gesto rápido com a arma e os cinco homens que haviam atacado Theremon se afastaram dele e se colocaram em forma.
— Que aconteceu aqui? — perguntou a mulher ao líder dos cinco homens, em tom glacial.
— Ele estava acendendo uma fogueira. Pretendia assar um animal, mas nós chegamos a tempo…
— Está certo. Não vejo nenhum fogo aqui. As leis foram respeitadas. Podem ir.
O homem fez que sim com a cabeça. Curvou-se para pegar o graben.
— Ei! Isto é meu! — protestou Theremon.
— Não — disse o outro. — Vamos levá-lo como multa por você ter infringido a lei.
— Deixe o castigo por minha conta — disse a mulher. — Largue o animal e vá embora! Já!
— Mas…
— Vão embora, ou vou pedir a Altinol para punir vocês. Vamos! Andem!
Os cinco homens se afastaram com relutância. Theremon continuou onde estava. A mulher de lenço verde no pescoço se aproximou dele:
— Acho que cheguei bem na hora, não é, Theremon?
— Siferra! — exclamou o repórter. — Siferra!
Seu corpo doía em centenas de lugares. Provavelmente estava com alguns ossos quebrados. O olho, de tão inchado, estava quase fechado. Mesmo assim, percebeu que iria sobreviver. Encostou-se na parede de pedra, esperando que a dor diminuísse um pouco.
— Temos uma garrafa de conhaque de Jonglor no quartel-general — disse Siferra. — Posso autorizá-lo a tomar um drinque, suponho. Como remédio, é claro.
— Conhaque? Quartel-general? Que quartel-general? De que está falando, Siferra? Você está mesmo aqui?
— Acha que sou uma alucinação? — Ela riu e segurou-lhe o braço de leve. — Acha que isto é uma alucinação?
O repórter fez uma careta de dor.
— Vá com calma. Estou todo dolorido. Você simplesmente caiu do céu?
— Estava passando pela floresta, a serviço do Corpo de Bombeiros, quando ouvi o barulho de luta. Resolvemos investigar. Eu não fazia ideia de que você estava envolvido até chegar aqui. Estamos tentando restabelecer a ordem.
— Estamos?
— Agora faço parte do Corpo de Bombeiros. É o novo governo local. O quartel-general fica no Abrigo da universidade, e o chefão é um homem chamado Altinol, que era uma espécie de executivo antes do eclipse. Sou um dos seus auxiliares diretos. Na verdade, trata-se de um grupo particular, que defende a tese de que o uso do fogo deve ser controlado e apenas os membros do Corpo de Bombeiros têm o privilégio de…
Theremon levantou a mão.
— Calma, Siferra. Mais devagar, está bem? Está dizendo que os funcionários da universidade que estavam no Abrigo formaram um grupo particular? Que eles saíram por aí apagando incêndios? Como isso é possível? Sheerin contou-me que eles todos tinham ido embora, que estavam a caminho do Parque Nacional de Aragando.
— Sheerin? Ele está aqui?
— Estava. Resolveu ir também para Aragando. Eu… eu preferi continuar aqui por mais alguns dias. — Teve vergonha de dizer a ela que havia ficado para se dedicar à tarefa impossível de localizá-la.
Siferra assentiu.
— O que Sheerin lhe contou é verdade. Todo o pessoal da universidade deixou o Abrigo um dia depois do eclipse. Devem estar em Aragando, mas ainda não tive notícias deles. Deixaram o Abrigo aberto, e Altinol e seu bando o estão usando como quartel-general. O Corpo de Bombeiros tem quinze ou vinte membros, todos mentalmente sãos. Conseguiram fazer valer sua autoridade sobre mais ou menos metade da floresta e parte da cidade, onde algumas pessoas ainda estão morando.
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