— E você? — quis saber Theremon. — Como se envolveu com eles?
— Logo que as Estrelas desapareceram, fui para a floresta. Entretanto, ela me pareceu muito perigosa, e foi então que me lembrei do Abrigo. Fui até lá. Descobri que estava ocupado por Altinol e seus homens. Eles me convidaram para juntar-me a eles. — Siferra sorriu ironicamente. — Na verdade, não foi bem um convite. Eles não primam pela delicadeza.
— A época não é favorável para delicadezas.
— Tem razão. De modo que eu disse para mim mesma: melhor com eles do que sozinha. Eles me deram este lenço verde, que todo mundo por aqui aprendeu a respeitar. Ganhei também uma pistola. É uma coisa que as pessoas também respeitam.
— Quer dizer que você entrou para o Corpo de Bombeiros — disse Theremon, em tom de admiração. — Não sabia que você dava para esse tipo de coisa.
— Nem eu.
— Mas você acha mesmo que esse Altinol e seu bando são gente decente, trabalhando para restabelecer a lei e a ordem?
A arqueóloga sorriu de novo, e novamente não foi uma expressão de alegria.
— Gente decente? Eles acham que são.
— E você, não acha?
Siferra deu de ombros.
— Eles se colocam acima dos outros, quanto a isso não há dúvida. No momento, existe um vácuo de poder, e eles querem preenchê-lo. Mas talvez não sejam as piores pessoas para termos no governo. Pelo menos, são mais razoáveis do que algumas outras organizações que conheço.
— Como os Apóstolos do Fogo? Eles também estão tentando formar um governo?
— É provável que sim. Não sei o que foi feito deles depois do eclipse. Altinol acha que ainda estão escondidos em algum abrigo subterrâneo ou que Mondior os levou para algum lugar do interior, onde vão fundar uma nova nação. Mas temos alguns novos grupos de fanáticos que são umas gracinhas, Theremon. Você acaba de se defrontar com um deles, e, como sabe, teve muita sorte em escapar vivo. Eles acreditam que a única salvação para a humanidade é renunciar totalmente ao uso do fogo, já que o fogo foi a ruína do mundo. Por isso, saem por aí destruindo fósforos e isqueiros e matando as pessoas acusadas de acenderem fogueiras.
— Eu estava só tentando assar um pedaço de carne disse Theremon, de cara feia.
— Para eles, não interessa se você estava cozinhando ou bancando o incendiário. Fogo é fogo, e eles o abominam. Sua sorte foi eu ter chegado a tempo. Eles aceitam a autoridade do Corpo de Bombeiros. Somos a elite, os únicos que têm permissão para usar o fogo sem serem punidos.
— O únicos que têm pistolas — observou Theremon. É por isso que respeitam vocês. — Esfregou um ponto dolorido no braço e olhou em torno, com ar pensativo. – Você disse que existem outros grupos de fanáticos?
— Existem os que acreditam que foram os astrônomos que fizeram as Estrelas aparecerem. Eles colocam a culpa do que aconteceu em Athor, Beenay & Cia. É o velho ódio pelos intelectuais, que se manifesta sempre que as emoções primitivas são liberadas.
— Céus! E existe muita gente que pensa assim?
— Até demais. Só os deuses sabem o que eles fariam se encontrassem o pessoal da universidade que ainda não chegou a Aragando. Provavelmente, tratariam de enforcá-los no poste mais próximo.
— E eu seria o responsável — declarou Theremon, lentamente.
— Você?
— Tudo que aconteceu é minha culpa, Siferra. Não é culpa de Athor, nem de Folimun, nem dos deuses. É minha. Aquela vez que você me chamou de irresponsável, estava sendo muito benevolente. Não fui apenas irresponsável. Fui criminosamente negligente.
— Pare, Theremon. Que adianta…
O repórter não lhe deu ouvidos.
— Eu devia ter escrito artigos diários prevenindo a população a respeito do que estava para acontecer, defendendo um programa de emergência para a construção de abrigos, para a instalação de geradores de emergência, para o tratamento dos desequilibrados mentais, para fazer mil outras coisas… Em vez disso, que foi que fiz? Levei tudo na brincadeira. Ridicularizei os astrônomos em sua torre de marfim! Tornei politicamente impossível alguém do governo levar a sério as advertências de Athor.
— Theremon…
— Você devia ter deixado aqueles malucos me espancarem até a morte, Siferra.
Os olhos da arqueóloga encontraram os seus. Ela parecia zangada.
— Não seja tolo. Todo o planejamento do mundo não teria feito a menor diferença. Eu também gostaria que você não tivesse escrito aqueles artigos, Theremon. Sabe que eles me deixaram furiosa. Mas que importa isso agora? Você estava sendo sincero quando os escreveu. Podia estar errado, mas foi sincero. De qualquer maneira, não adianta especular agora sobre o que poderia ter acontecido. A situação é esta, e está acabado. — Acrescentou, em tom mais suave: — Agora chega de conversa. Você está em condições de andar? Quero que vá comigo para o Abrigo. Que acha de um banho, uma muda de roupa, uma refeição decente…
— Refeição?
— O pessoal da universidade deixou a maior parte das provisões.
Theremon riu e apontou para o graben.
— Quer dizer que eu não vou ter que comer isso, afinal?
— Não, a menos que faça questão. Por que não oferece essa carcaça a alguém mais necessitado, quando estivermos saindo da floresta?
— Boa ideia.
Ele se pôs de pé, devagar, gemendo. Deuses, o corpo todo estava dolorido! Deu um passo, com todo cuidado: nada mau, nada mau. Parecia que, no final das contas, não tinha quebrado nenhum osso. A ideia de um banho quente e uma refeição nutritiva já o fazia sentir-se melhor.
Deu uma última olhada no seu pequeno abrigo, seu regato, seus arbustos. Seu lar, nos últimos dias. Não sentiria falta daquele lugar, mas também não se esqueceria dele tão cedo. Pegou o graben e colocou-o no ombro.
— Mostre o caminho — disse para Siferra.
Não tinham andado mais do que 10O metros, quando Theremon viu um grupo de meninos à espreita atrás das árvores. Eram os mesmos que haviam tirado o graben da toca e o abatido a pedradas. Com certeza haviam voltado para procurá-lo. Agora, observavam-no de longe, certamente frustrados com o fato de Theremon estar indo embora com sua presa. O respeito que sentiam pelos lenços verdes do Corpo de Bombeiros (ou, talvez, pelas pistolas) os impedia de tentar recuperar o animal.
— Ei! — gritou Theremon. — Isto é de vocês, não é? Jogou a carcaça do graben na direção dos meninos. Ela foi cair bem perto do lugar onde estavam, e eles recuaram, assustados. Era evidente que estavam ansiosos para pegar o animal, mas ao mesmo tempo não tinham coragem de se adiantar.
— Assim é a vida da era pós-eclipse — observou o repórter, em tom penalizado. — Estão famintos, mas o medo é mais forte. Acham que pode ser uma armadilha. Pensam que se saírem de trás daquelas árvores, nós vamos atirar neles só para nos divertirmos.
— Quem pode culpá-los? — disse Siferra. — Hoje em dia, todo mundo tem medo de todo mundo. Vamos andando. Quando eles tiverem certeza de que fomos embora, perderão o medo.
A arqueóloga foi na frente e Theremon a seguiu, mancando.
Siferra e os outros membros do Corpo de Bombeiros se deslocavam com confiança pela floresta, como se fossem imunes aos perigos que espreitavam em toda parte. E, na verdade, não houve nenhum incidente enquanto o grupo se dirigia, tão rapidamente quanto os ferimentos de Theremon permitiam, para a estrada que cruzava a floresta.
Era interessante, pensou o jornalista, o modo como a sociedade estava começando a se reconstituir. Em apenas alguns dias, uma organização irregular como aquele Corpo de Bombeiros tinha começado a assumir uma espécie de autoridade governamental. A menos que fossem apenas as pistolas e o ar de segurança que mantinham os loucos à distância.
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