— E eu estou lhe avisando, tire as mãos de mim. Sou um cidadão da República Federal de Saro e esta é ainda uma estrada livremente aberta a todos os cidadãos. Você não tem autoridade sobre mim.
— Ele fala como um professor — observou um dos outros homens, rindo. — Acha que tem direitos.
O homem alto deu de ombros.
— Já temos o nosso professor. Não precisamos de outro. Chega de conversa. Agarrem-nos e façam a Busca. Da cabeça aos pés.
— Fique longe de mim…
Uma mão agarrou Theremon pelo braço. Ele cerrou o punho e golpeou alguém nas costelas. Aquela cena já lhe parecia familiar. Outra briga, outra surra, na certa. Mesmo assim, estava decidido a resistir. Alguém o acertou no rosto, outro homem segurou-o pelo cotovelo e ouviu Siferra gritar de raiva e de medo. Tentou desvencilhar-se, acertou alguém, foi acertado de novo, esquivou-se, levou um soco no rosto…
— Hei, esperem! — gritou uma nova voz. — Calma! Butella, largue esse homem! Fridnor! Talpin! Parem!
Era uma voz familiar. A quem pertenceria?
Os homens recuaram. Theremon, um pouco tonto, lutou para manter o equilíbrio enquanto se voltava para o recém chegado.
Era um homem magro, rijo, com uma expressão inteligente, que estava rindo para ele, os olhos penetrantes se destacando em um rosto sujo de fuligem…
Alguém que ele conhecia, sim.
— Beenay!
— Theremon! Siferra!
Na mesma hora, tudo mudou. Beenay levou Theremon e Siferra para um pequeno abrigo surpreendentemente acolhedor que ficava do outro lado do bloqueio: almofadas, cortinas, uma pilha de latas que pareciam conter alimentos. Uma mulher jovem estava deitada ali, com a perna esquerda envolta em bandagens. Parecia fraca e febril, mas sorriu debilmente quando os outros entraram.
— Você se lembra de Raissta 717, não se lembra, Theremon? Raissta, esta é Siferra 89, do departamento de arqueologia. Eu lhe falei sobre ela. Foi quem descobriu que aquela cidade tinha sido incendiada várias vezes. Raissta é minha companheira oficial — disse para Siferra.
Theremon se encontrara com Raissta algumas vezes nos últimos anos, por causa de sua amizade com Beenay. Mas isso havia acontecido em outra era, em um mundo que estava morto e enterrado. Mas podia reconhecê-la. Lembrava-se da moça como uma jovem bonita, bem vestida, que parecia sempre arrumada, sempre de bom humor. Mas agora… agora! Aquela mulher pálida, macilenta, desgrenhada… parecia uma sombra da Raissta que conhecera!
Fazia mesmo apenas algumas semanas que ocorrera o eclipse? De repente, parecia que anos tinham se passado. Anos, não, milênios… eras geológicas…
— Tenho uma garrafa de conhaque, Theremon — disse Beenay.
Theremon arregalou os olhos.
— Está falando sério? Sabe quanto tempo faz que eu não bebo? Que ironia, Beenay. Você, o abstêmio que eu tive que convencer a tomar o primeiro gole de Tano Especial… você é o dono da última garrafa de conhaque deste planeta!
— Siferra? — perguntou Beenay.
— Por favor. Só um pouquinho.
— Só tenho um pouquinho — disse Beenay, servindo três doses minúsculas de conhaque.
Quando a bebida começou a esquentá-lo, Theremon perguntou:
— Beenay, que está acontecendo por aqui? Que história é essa de Busca?
— Você não ouviu falar da Busca?
— Eu, não.
— Onde vocês dois estiveram desde o eclipse?
— A maior parte do tempo, na floresta. Siferra ajudou-me depois que alguns vagabundos me deram uma surra e me levou para o Abrigo da universidade, onde me recuperei dos ferimentos. Depois, nós dois pegamos esta estrada, na esperança de chegarmos a Aragando.
— Então você sabe a respeito de Aragando?
— Sei, e graças a você — disse Theremon. – Encontrei-me com Sheerin na floresta. Ele esteve no Abrigo logo depois que vocês partiram e encontrou o bilhete em que você falava de Aragando. Ele me contou e contei para Siferra. Resolvemos ir juntos para lá.
— E Sheerin? — quis saber Beenay. — Onde está?
— Não está conosco. Nós nos separamos faz alguns dias. Ele partiu na direção de Aragando, e eu fiquei em Saro para procurar Siferra. Não sei o que foi feito dele. Será que eu podia tomar mais um gole de conhaque, Beenay? Se não for fazer falta. Você estava começando a me contar a respeito da Busca.
Beenay serviu outra dose para Theremon. Olhou para Siferra, que fez que não com a cabeça.
— Se Sheerin estava viajando sozinho, deve ter enfrentado sérios problemas — disse, em tom preocupado. — Tenho certeza de que não passou por aqui desde que cheguei, e a Grande Estrada do Sul é a única ligação entre a cidade de Saro e o parque de Aragando. Vamos ter que mandar um grupo de salvamento à procura dele. Quanto à Busca, é uma das coisas novas que as pessoas fazem. Este é um posto oficial de Busca. Existe um posto na divisa de cada província que a Grande Estrada do Sul atravessa.
— Estamos a apenas alguns quilômetros de cidade de Saro — protestou Theremon. — Esta ainda é a província de Saro, Beenay.
— Não é mais. Todos os velhos governos provinciais desapareceram. O que resta da cidade de Saro foi dividido em várias partes. Ouvi dizer que os Apóstolos do Fogo ficaram com a parte norte, e a região da floresta e da universidade está sendo controlada por um homem chamado Altinol, que comanda um grupo paramilitar chamado Corpo de Bombeiros. Talvez vocês tenham cruzado com eles.
— Trabalhei para o Corpo de Bombeiros por alguns dias — disse Siferra. — Este lenço verde que estou usando é a marca registrada deles.
— Então você sabe o que aconteceu — disse Beenay. — O velho sistema se fragmentou. Estão surgindo pequenos governos em toda parte. Vocês estão na divisa da província da Restauração. Ela se estende por mais dez quilômetros ao longo da rodovia. Quando chegarem à próxima estação de Busca, estarão entrando na província dos Seis Sóis. Depois vem a Terra dos Deuses, depois a Luz do Dia, e depois… esqueci. As coisas estão mudando muito depressa…
— E a Busca? — quis saber Theremon.
— É a nova paranoia. Todos têm medo dos incendiários. Sabe o que são. Malucos que acharam o que aconteceu no dia do eclipse muito divertido. Saem por aí pondo fogo nas coisas. Parece que um terço da cidade de Saro foi destruído na noite do eclipse por pessoas assustadas que tentaram afugentar as Estrelas com fogo, mas outro terço foi destruído mais tarde, muito depois de as Estrelas terem ido embora. Assim, as pessoas que conservaram a sanidade mental… eu e meus companheiros estamos entre elas… revistam todo mundo em busca de qualquer coisa capaz de provocar incêndios. É proibido carregar fósforos, isqueiros, pistolas de raios ou qualquer outro…
— A mesma coisa está acontecendo na cidade — interrompeu Siferra. — E assim que funciona o Corpo de Bombeiros. Altinol e seus capangas se consideram as únicas pessoas em Saro autorizadas a usar o fogo.
— E eu fui atacado na floresta só porque estava tentando cozinhar um pedaço de carne — disse Theremon. — Teria sido espancado até a morte se Siferra não tivesse aparecido no último momento para me salvar. Foi mais ou menos o que você fez hoje comigo.
— Não sei quem atacou você na floresta — disse Beenay — mas a Busca tem o mesmo objetivo. Está acontecendo em toda parte, todo mundo revistando todo mundo. A suspeita é universal, ninguém escapa. É como uma febre… uma febre de medo. Apenas pequenas elites, como o Corpo de Bombeiros de Altinol, podem transportar equipamentos proibidos. Nas barreiras, todos são obrigados a entregar esses equipamentos às autoridades locais. É melhor você deixar estas pistolas comigo, Theremon. Nunca chegará a Aragando com elas.
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