Alvin hesitou. Quando respondeu, afinal, não era o explorador indômito quem falava, mas a criança perdida nascida num mundo alienígena.
— Não — disse lentamente. — Não foi essa a única razão… Ainda que não soubesse disso até agora, sentia-me solitário.
— Solitário? Em Diaspar? — Seranis sorria, mas havia compreensão em seus olhos, e Alvin percebeu que ela não esperava maiores explicações.
Agora que havia contado toda sua história, esperou que ela cumprisse o prometido. Seranis então levantou-se e começou a andar de um lado para outro.
— Sei quais são as perguntas que você quer fazer — ela disse. — Algumas eu posso responder, mas seria cansativo fazê-lo em palavras. Se você abrir-me sua mente, eu lhe direi o que precisa saber. Pode confiar em mim. Nada tirarei de você sem sua permissão.
— Que quer que eu faça? — perguntou Alvin cautelosamente.
— Que aceite minha ajuda… olhe para meus olhos… e esqueça-se de tudo — ordenou Seranis.
Alvin não saberia nunca dizer o que lhe aconteceu. Houve um eclipse total de seus sentidos, e embora não se lembrasse de havê-lo adquirido, quando olhou para dentro de sua mente o conhecimento estava lá.
Ele pôde olhar o passado, não de maneira clara, mas como um homem do alto de uma montanha veria uma planície nevoenta. Compreendeu que o Homem nem sempre havia sido um habitante de cidades e que, desde que as máquinas o haviam libertado do trabalho, surgira uma rivalidade entre dois tipos diferentes de civilização. Nas Eras do Alvorecer tinham existido milhares de cidades, mas grande parte da humanidade preferira viver em comunidades relativamente pequenas. O transporte universal e as comunicações instantâneas lhe davam todo o contato necessário com o resto do mundo, e não sentiam nenhuma necessidade de viver amontoados com milhões de seres de sua espécie.
Lys pouco diferia, nos primeiros dias, de centenas de outras comunidades. Mas gradualmente, no transcurso das eras, adquirira uma cultura diferente, uma das mais altas que a humanidade jamais conhecera. Era uma cultura baseada fundamentalmente no uso direto do poder mental, e isso a apartou do resto da sociedade humana, que passava a confiar cada vez mais nas máquinas.
Através das eras, e à medida que seguiam caminhos diferentes, ampliou-se o abismo entre Lys e as outras cidades. Esse hiato só se fechava em épocas de grande crise, quando a Lua começou a cair, sua destruição foi empreendida pelos cientistas de Lys. O mesmo aconteceu com a defesa da Terra contra os Invasores, os quais foram detidos na batalha final de Shalmirane.
A grande provação havia exaurido a humanidade. Uma a uma, as cidades morreram e o deserto rolou sobre elas. Ao reduzir-se a população, teve início a migração que faria de Diaspar a última e a maior de todas as cidades.
A maioria dessas mudanças não afetou Lys, mas ela tinha sua própria batalha a ser travada — a luta contra o deserto. A barreira natural das montanhas não era suficiente, e muitas eras se passaram antes que o grande oásis fosse tornado seguro. Nesse ponto, as imagens se borravam, talvez por expressa deliberação. Alvin não podia ver o que dera a Lys a virtual eternidade que Diaspar havia conseguido.
A voz de Seranis parecia vir de grande distância — mas não era apenas sua voz, pois ela parecia fundida com uma sinfonia de palavras, como se muitas outras línguas falassem em uníssono com a dela.
— Essa, muito resumida, é nossa história. Você verá que mesmo nas Eras do Alvorecer tínhamos muito pouco em comum com as cidades, ainda que seus habitantes viessem muitas vezes à nossa terra. Nunca os impedimos, pois muitos de nossos maiores homens vieram do Exterior, mas, quando as cidades começaram a morrer, não quisemos ser envolvidos em sua derrocada. Com o fim do transporte aéreo, só restou um caminho para Lys — o sistema subterrâneo que parte de Diaspar. Esse caminho foi fechado lá, com a construção do Parque… e vocês nos esqueceram, embora nunca nos tenhamos esquecido de vocês.
«Diaspar surpreendeu-nos. Esperávamos que ela seguisse o destino das demais cidades, mas ao invés disso ela conseguiu formar uma cultura estável, capaz de ter a mesma duração da Terra. Não é uma cultura que conte com nossa admiração, mas ficamos felizes com o fato de que aqueles que desejaram escapar o tenham conseguido. Muito mais gente do que você imagina empreendeu a viagem, e quase sempre foram homens extraordinários, que trouxeram consigo alguma coisa de valor quando vieram para Lys.»
A voz desvaneceu-se, a paralisia dos sentidos de Alvin diminuiu e ele voltou a si. Viu com espanto que o Sol havia mergulhado sob as árvores, e que a leste o céu já tinha sombras da noite. Em algum lugar vibrou um grande sino, com uma pulsação que morreu lentamente, deixando o ar tenso de mistério e premonições. Alvin deu consigo tremendo de leve, não por causa do primeiro toque do frio da noite, mas em conseqüência do assombro que lhe causava tudo aquilo que acabara de aprender. Já era muito tarde e estava longe de casa. Sentiu súbita necessidade de rever seus amigos e achar-se entre os aspectos e as cenas familiares de Diaspar.
— Tenho de voltar — disse. — Khedron… meus pais… eles estão me esperando.
Isso não era exatamente verdade. Khedron com toda certeza estaria pensando no que lhe acontecera, mas Alvin tinha plena certeza de que ninguém mais sabia que havia abandonado Diaspar. Não podia explicar o motivo da pequena fraude de que lançara mão, e sentiu-se ligeiramente envergonhado tão logo pronunciou as palavras.
Seranis olhou-o pensativamente.
— Receio que as coisas não sejam assim tão fáceis — disse.
— O que quer dizer? — perguntou Alvin. — O veículo que me trouxe não pode levar-me de volta? — Ele ainda se recusava a enfrentar o fato de que poderia ser mantido em Lys contra a vontade, ainda que essa idéia tivesse passado rapidamente por sua mente.
Pela primeira vez, Seranis parecia ligeiramente embaraçada.
— Nós estivemos conversando a seu respeito — explicou, sem especificar quem faria parte do «nós», nem exatamente como haviam conferenciado. — Se você voltar para Diaspar, toda a cidade ficará sabendo de nós. Mesmo que você prometesse não dizer nada, seria impossível manter o segredo.
— E por que desejam que isso fique em segredo? — perguntou Alvin. — Evidentemente, seria ótimo para ambos os povos se voltassem a se encontrar.
Seranis mostrou desagrado.
— Não pensamos assim. Se os portões fossem abertos, nossa terra seria invadida por curiosos indolentes e caçadores de sensações. Da maneira como as coisas estão, só os melhores dentre sua gente chegaram até aqui.
Essa resposta irradiava tanta superioridade inconsciente, posto que baseada em falsas premissas, que Alvin sentiu um aborrecimento que prontamente superava seu alarme.
— Isso não é verdade — disse secamente. — Não creio que vocês encontrassem outra pessoa em Diaspar disposta a deixar a cidade, mesmo que pudesse… mesmo que soubesse que há outro lugar para onde ir. Se eu voltasse, isso não causaria nenhuma diferença a Lys.
— Essa decisão não é minha — explicou Seranis — e você está subestimando os poderes da mente, se julga que as barreiras que isolam seu povo nunca poderão ser quebradas. Não desejamos mantê-lo aqui contra sua vontade, mas se você regressar a Diaspar teremos de cancelar de sua mente todas as lembranças de Lys. — Hesitou por um instante. — Essa questão nunca surgiu antes. Todos os seus antecessores que vieram, foi para ficar.
Aquela era uma opção que Alvin se recusava a aceitar. Ele queria explorar Lys, desvendar todos os segredos daquele mundo novo, descobrir em que ele se distinguia de Diaspar. Entretanto, estava igualmente resolvido a voltar, a fim de mostrar a seus amigos que não sonhara com coisas inexistentes. Não podia compreender as razoes que levavam a esse desejo de segredo, e mesmo que compreendesse, isso não teria feito diferença alguma em seu comportamento.
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