“Vivo logo a seguir à cidade.”
A miúda disse-lhe a morada.
Peterson disse, “Fica a caminho. Entra.”
A miúda sentou-se no banco da frente. Observou, ainda mais satisfeito, que ela até tinha os olhos cor de avelã da mãe.
Peterson carregou no trinco para trancar as portas e as janelas. No meio do ruído difuso do ar condicionado, a rapariga nem se apercebeu de nada.
*
April sentiu um agradável fluxo de adrenalina ao colocar o cinto de segurança. Nunca tinha pedido boleia na vida. A mãe teria um ataque se descobrisse.
É claro que era algo que convinha à mãe. Fora desprezível deixá-la dormir em casa do pai a noite passada – tudo por causa da ideia maluca de que o Peterson tinha estado em sua casa. Não era verdade e April sabia-o. Os dois agentes que a tinham levado a casa do pai tinham-no dito. Por aquilo que comentaram entre eles, quase parecia que toda a agência achava que a mãe estava um bocado passada da cabeça.
O homem perguntou, “Então o que te traz a Fredericksburg?”
April virou-se e olhou para ele. Era um tipo de aspeto agradável com um maxilar saliente, cabelo desgrenhado e pera. Sorria.
“Escola,” Disse April.
“Um curso de verão?” Perguntou o homem.
“Sim,” Respondeu April. De certeza que não lhe ia dizer que decidira faltar às aulas. Não que parecesse alguém que não compreenderia. Parecia muito fixe. Talvez até lhe agradasse ajudá-la a desafiar a autoridade parental. Ainda assim, era melhor não arriscar.
O sorriso do homem tornou-se desconfiado.
“E o que pensa a tua mãe sobre pedir boleia?” Perguntou.
April corou de vergonha.
“Oh, ela não se importa,” Respondeu.
O homem soltou uma risadinha. Não era um som muito agradável. E April lembrou-se de algo. Ele perguntara o que a mãe pensava, não o que os pais pensavam. O que o levara a formular a pergunta daquela forma?
O trânsito era intenso perto da escola àquela hora da manhã. Ia demorar algum tempo a chegar a casa. April esperava que o homem não fosse demasiado conversador. Aquilo podia tornar-se estranho.
Após algum tempo de silêncio, April começou a sentir-se desconfortável. O homem já não sorria e a sua expressão pareceu-lhe sombria. Reparou que todas as portas estavam trancadas. Sub-repticiamente, tocou no botão da janela do lado do passageiro. Não se mexia.
O carro parou atrás de uma fila de carros que aguardavam pelo semáforo verde. O homem fciou na fila para virar à esquerda e, de repente, April sentiu uma súbita explosão de ansiedade apoderar-se dela.
“Hum… temos que ir por aqui,” Disse.
O homem nada disse. Será que não a tinha ouvido? Incompreensivelmente, não tivera a coragem de repetir o que dissera. Para além disso, talvez ele quisesse seguir por um caminho diferente. Mas não, ela não percebia como é que a levaria a casa seguindo naquela direção.
April começou a pensar no que devia fazer. Deveria gritar por socorro? Alguém a ouviria? E se o homem não tivesse ouvido o que ela tinha dito? E não lhe quisesse fazer mal? Seria tremendamente embaraçoso.
E foi então que April viu alguém conhecido a caminhar descontraidamente no passeio com a mochila pendurada no ombro. Era Brian, o seu “namorado”. Bateu audivelmente no vidro.
Suspirou de alívio quando Brian olhou e a viu.
“Queres uma boleia?” Perguntou a Brian através do vidro.
Brian sorriu e assentiu.
“Oh, é o meu namorado,” Disse April. “Podemos parar e dar-lhe boleia, por favor? De qualquer das formas, ia para a minha casa.”
Era mentira. April não fazia a mínima ideia para onde ia Brian. O homem franziu as sobrancelhas e resmoneou qualquer coisa. Não estava contente com aquela situação. Iria parar? O coração de April batia a um ritmo diabólico.
Brian falava ao telemóvel no passeio. Mas estava a olhar diretamente para o carro e April estava certa de que conseguia ver o condutor nitidamente. Estava contente por ter uma potencial testemunha no caso do homem ter em mente algo ilícito.
O homem estudou Brian, viu-o falar ao telemóvel e viu-o a olhar para ele.
Sem dizer uma palavra, o homem destrancou as portas. April fez sinal a Brian para entrar no banco detrás, ele abriu a porta e entrou. Fechou a porta no preciso momento em que a luz verde se acendeu e a fila de carros começou novamente a circular.
“Obrigado pela boleia,” Agradeceu Brian.
O homem não proferiu uma palavra, permanecendo de cenho franzido.
“Este senhor está a levar-nos para minha casa, Brian,” Informou April.
“Fantástico,” Respondeu Brian.
Agora April sentia-se segura. Se o homem realmente tivesse más intenções, de certeza que não os levaria a ambos. De certeza que os levaria diretamente para casa da mãe.
Refletindo antecipadamente, April pensou se deveria contar à mãe sobre o homem e as suas suspeitas. Mas não, isso significaria revelar que faltara às aulas e pedira boleia. A mãe castigava-a de vez.
Além disso, pensou, o condutor não podia ser Peterson.
Peterson era um assassino psicopata, não um homem normal a conduzir um carro.
E afinal de contas, Peterson estava morto.
A expressão rígida e sombria de Brent Meredith indicava a Riley que ele não gostara nada do seu pedido.
“É um caso para mim,” Disse Riley. “Tenho mais experiência que qualquer outro com este tipo de assassino em série pervertido.”
Acabara de descrever a chamada recebida de Reedsport.
Após um longo silêncio, Meredith finalmente suspirou.
“Autorizada,” Anunciou, relutantemente.
Riley libertou um suspiro de alívio.
“Obrigado,” Agradeceu.
“Não me agradeça,” Rosnou Meredith. “Faço isto indo contra o senso comum. Só o permito porque tem as capacidades necessárias para lidar com este caso. A sua experiência com este tipo de assassino é única. Vou atribuir-lhe um parceiro.”
Riley sentiu um abanão de desânimo. Sabia que trabalhar com Bill não era uma boa opção neste momento, mas imaginou se Meredith sabia o porquê da tensão existente entre os parceiros de longa data. Pensou que o mais provável era Bill ter dito a Meredith que queria ficar mais perto de casa.
“Mas…” Principiou Riley.
“Não há mas,” Sentenciou Meredith. “E nada de artifícios de loba solitária. Não é inteligente e vai contra todas as regras. Quase morria mais do que uma vez. Regras são regras. E eu já estou a quebrar algumas neste momento ao não deixá-la de baixa depois dos recentes incidentes.”
“Sim, senhor,” Concordou Riley ordeiramente.
Meredith esfregou o queixo, obviamente considerando todas as opções que se lhe apresentavam. Acabou por dizer, “A agente Vargas vai consigo.”
“Lucy Vargas?” Perguntou Riley.
Meredith limitou-se a assentir. Riley não gostou muito da ideia.
“Ela fazia parte da equipa que esteve na minha casa ontem à noite,” Disse Riley. “Parece ser muito profissional e eu gostei dela, mas é uma novata. Estou habituada a trabalhar com alguém mais experiente.”
Meredith sorriu abertamente. “As notas dela na academia eram as mais altas. É certo que é jovem, mas é raro alguém sair diretamente da academia para a UAC. Ela é boa a esse ponto. Está pronta para ter uma experiência no terreno.”
Riley sabia que não tinha escolha.
Meredith prosseguiu, “Quando pode ir?”
Riley fez um cálculo mental. Em primeiro lugar, tinha que falar com a filha. E que mais? Não tinha o kit de viagem no gabinete. Tinha que ir até Fredericksburg, parar em casa, assegurar-se que April ficava em casa do pai e depois regressar a Quantico.
“Dê-me três horas,” Concluiu.
“Vou pedir um avião,” Disse Meredith. “Vou avisar o chefe da polícia de Reedsport que temos uma equipa a caminho. Esteja na pista daqui a exatamente três horas. Se se atrasar, vai ser o inferno na terra.”
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