Riley retirou imediatamente a arma do coldre. Com as mãos a tremer, dirigiu-se ao roupeiro e abriu-o. Ninguém estava ali. Confirmou debaixo da cama. Ali também não estava ninguém.
Riley parou e forçou-se a pensar com clareza. Tinha estado no quarto desde que tinha chegado a casa? Sim, porque tinha colocado o coldre por cima do armário ao lado da porta. Mas não tinha ligado a luz e não tinha olhado para o interior. Tinha-se circunscrito ao umbral da porta e a colocar a arma em cima do armário antes de sair. Tinha vestido o pijama na casa de banho.
Teria o seu inimigo estado na casa todo aquele tempo? Depois de chegarem a casa, ela e April tinham conversado e visto televisão até tarde. Depois April fora para a cama. Só alguém muito furtivo e ardiloso conseguiria ficar escondido numa casa minúscula como a dela. Mas era uma possibilidade que ela não podia descartar.
E então um novo medo se apoderou dela.
April!
Riley agarrou na lanterna que guardava na mesa-de-cabeceira. Com a arma em riste na mão direita e a lanterna na mão esquerda, saiu do quarto e ligou a luz do corredor. A casa parecia adormecida. Dirigiu-se rapidamente ao quarto de April e escancarou a porta. O quarto estava mergulhado em escuridão. Riley ligou a luz do teto.
A filha estava na cama.
“O que foi, Mãe?” Perguntou April, semicerrando os olhos surpreendida.
Riley entrou no quarto.
“Não saias da cama,” Disse. “Fica sossegada onde estás.”
“Estás-me a assustar,” Disse April com a voz a tremer.
Não havia problema. Também ela estava com muito medo e a filha tinha todas as razões para sentir medo como ela. Dirigiu-se ao roupeiro de April, apontou a lanterna para o seu interior e viu que ninguém se encontrava lá dentro. Também não havia ninguém debaixo da cama da April.
O que fazer de seguida? Tinha que percorrer cada canto e recanto da casa.
Riley sabia o que o seu parceiro Bill Jeffreys teria dito.
Raios Riley, pede ajuda.
A sua tendência de longa data de fazer tudo sozinha, sempre tinha enfurecido o Bill. Só que desta vez ia seguir o seu conselho. Com a April em casa, Riley não ia correr riscos.
“Veste um robe e calça-te,” Disse à filha. “Mas ainda não saias do quarto.”
Riley voltou ao seu quarto e pegou no telefone, pousado em cima da mesa-de-cabeceira. Pressionou a ligação automática para falar com a Unidade de Análise Comportamental. Mal ouviu uma voz do outro lado, sussurrou, “Daqui fala Agente Especial Riley Page. Alguém entrou na minha casa e ainda pode estar cá. Preciso que alguém cá venha rapidamente.” Pensou durante um segundo e depois acrescentou, “E enviem uma equipa de análise de provas.”
“Vamos já para aí,” Responderam do outro lado da linha.
Riley desligou a chamada e regressou ao corredor. Com exceção dos dois quartos e do corredor, a casa continuava mergulhada na escuridão. Ele podia estar em qualquer lugar, à espreita, à espera de desferir um ataque. Este homem já a tinha apanhado desprevenida uma vez e quase tinha morrido às suas mãos.
Riley moveu-se sorrateiramente pela casa, ligando as luzes à medida que avançava com a arma pronta para qualquer eventualidade. Apontou a lanterna para o interior de todos os roupeiros e para todos os cantos penumbrosos.
Finalmente, olhou para o teto do corredor. A portinhola acima dela conduzia ao sótão, escondendo uma escada de puxar nas suas entranhas. Atrever-se-ia a subir lá acima e espreitar?
Naquele preciso momento, Riley ouviu as sirenes da polícia. Soltou um profundo suspiro de alívio ao ouvir aquele som. Apercebeu-se que a agência tinha chamado a polícia local, considerando a distância de mais de meia hora da sede da UAC.
Dirigiu-se ao seu quarto, calçou uns sapatos e vestiu um roupão de banho, regressando depois ao quarto de April.
“Vem comigo,” Disse. “Fica perto de mim.”
Ainda segurando na arma, Riley envolveu com o seu braço esquerdo os ombros de April. A pobre criança tremia de medo. Riley levou April para a porta de entrada, abrindo-a ao mesmo tempo que vários polícias de uniforme se apressavam em direção à casa.
O polícia responsável aproximou-se da casa com a arma em riste.
“Qual é o problema?” Perguntou.
“Alguém esteve na minha casa,” Respondeu Riley. “Ainda pode lá estar.”
O polícia contemplou, inquieto, a arma que Riley empunhava.
“Sou do FBI,” Tranquilizou-o Riley. “Os agentes da UAC devem estar a chegar. Já revistei a casa, exceto o sótão.” Disse, apontando na sua direção. “Há uma porta no teto por cima do corredor.”
O polícia chamou, “Bowers, Wright, venham cá e revistem o sótão. Os outros revistam lá fora, atrás e à frente da casa.”
Bowers e Wright foram diretamente para o corredor e puxaram a escada para subirem até ao sótão. Ambos empunhavam as suas armas. Um esperou no fundo da escada, enquanto o outro subia e apontava uma lanterna em todas as direções. Dali a momentos, o homem desapareceu no interior do sótão.
E logo depois uma voz ressoou, anuncinado, “Não está aqui ninguém.”
Riley queria sentir-se aliviada. Mas a verdade era que desejava que Peterson estivesse ali em cima. Seria preso ali naquele momento, ou ainda melhor, alvejado, morto. E tinha a certeza de que não estaria nem atrás, nem à frente da casa.
“Tem uma cave?” Perguntou o polícia responsável.
“Não, só uma pequena arrecadação,” Respondeu Riley.
O polícia vociferou lá para fora, “Benson, Pratt, vejam debaixo da casa.”
April ainda estava desesperadamente agarrada à mãe.
“O que é que se passa, Mãe?” Perguntou.
Riley hesitou. Durante anos, evitara contar a April a verdade crua do seu trabalho. Contudo, recentemente compreendera que tinha sido excessivamente protetora. Então, contara a April o traumático cativeiro sofrido às mãos de Peterson, ou pelo menos, o que considerou suportável para ela. Também partilhara com ela as dúvidas quanto à morte do homem.
Mas o que diria agora a April? Não sabia ao certo.
Antes de Riley se decidir, April disse, “É o Peterson, não é?”
Riley abraçou a filha com força. Anuiu, tentando esconder o arrepio que lhe trespassou o corpo.
“Ele ainda está vivo.”
Uma hora mais tarde, a casa de Riley estava repleta de pessoas de uniforme e agentes do FBI. Agentes federais armados até aos dentes e uma equipa de análise de provas estavam a trabalhar com a polícia.
“Embala essas pedras na cama,” Ordenou Craig Huang. “Têm que ser examinados para se detetarem impressões digitais ou ADN.”
Inicialmente, Riley não ficara muito satisfeita por ver que Huang era o agente encarregue de analisar o sucedido em sua casa. Ele era muito jovem e a anterior experiência de trabalho com ele não tinha corrido da melhor forma. Mas agora via que dava ordens sólidas e organizava a cena de forma eficiente. Huang estava a amadurecer.
A equipa de análise de provas já estava a trabalhar, percorrendo cada recanto da casa à procura de impressões digitais. Outros agentes tinham desaparecido na escuridão atrás da casa, tentando detetar marcas de veículos ou algum rasto na floresta. Agora que tudo parecia orientado, Huang levou Riley até à cozinha. Sentaram-se à mesa e April juntou-se a eles, ainda combalida.
“O que achas?” Perguntou Huang a Riley. “Há alguma hipótese de ainda o encontrarmos?”
Riley suspirou, desanimada.
“Não, temo que já não seja possível. Deve ter estado aqui no início da noite, antes de eu e a minha filha chegarmos a casa.”
Naquele preciso momento, uma agente envergando um fato Kevlar, surgiu vinda das traseiras da casa. Tinha cabelo escuro, olhos negros, tez morena e aparentava ser ainda mais nova do que Huang.
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