Riley olhou em redor para os outros gabinetes. Ninguém parecia estar disponível naquele momento. Os outros agentes estavam todos na pausa ou a trabalhar em casos no terreno. Riley atendeu o telefone.
“Agente Especial Riley Paige. Em que posso ajudar?”
A voz do outro lado da linha parecia preocupada.
“Agente Paige, fala Raymond Alford, Chefe da Polícia de Reedsport, Nova Iorque. Temos problemas por cá. Era possível falarmos por vídeo chamada? Talvez conseguisse explicar melhor. E tenho algumas fotos que deveria ver.”
Riley sentiu a sua curiosidade ser espicaçada. “Claro,” Disse e deu o seu contacto a Alford. Alguns momentos depois, já falava com ele olhos nos olhos. Era um homem esguio e careca aparentando já alguma idade. Naquele momento, apresentava uma expressão ansiosa e cansada.
“Tivemos um homicídio aqui a noite passada,” Relatou Alford. “Uma coisa bastante feia. Deixe-me mostrar-lhe.”
Surgiu uma fotografia no ecrã de Riley. Mostrava o que aparentava ser o corpo de uma mulher pendurado de uma corrente sobre uma linha de comboio. O corpo estava envolto num amontoado de correntes e parecia estar vestido de forma estranha.
“O que é que a vítima tem vestido?” Perguntou Riley.
“Um colete-de-forças,” Respondeu Alford.
Riley ficou sobressaltada. Olhando para a foto com mais atenção, conseguia ver que assim era. Depois a imagem desapareceu e Riley deu por si a olhar novamente para Alford.
“Chefe Alford, compreendo a sua preocupação. Mas o que é que o leva a pensar que este caso é apropriado para a Unidade de Análise Comportamental?”
“Porque a mesma coisa aconteceu muito perto daqui há cinco anos atrás,” Respondeu Alford.
Uma imagem com outro corpo de mulher apareceu no ecrã. Também ela estava toda acorrentada e presa por um colete-de-forças.
“Naquela altura foi uma funcionária prisional em part-time, Marla Blainey. O MO foi idêntico, mas em vez de ser pendurada, foi atirada para a margem do rio.”
O rosto de Alford voltou a aparecer.
“Desta vez a vítima foi Rosemary Pickens, uma enfermeira da cidade,” Informou. “Não ocorre um motivo a ninguém, para nenhuma das mulheres. Ambas eram pessoas queridas.”
Alford afundou-se na cadeira e abanou a cabeça.
“Agente Paige, eu e o meu pessoal estamos a apalpar terreno para nós desconhecido. Esta nova morte tem que se enquadrar numa série ou numa cópia. O problema é que nenhuma dessas hipóteses faz sentido. Não costumamos ter esse tipo de problema em Reedsport. Esta é apenas uma pequena cidade turística junto ao rio Hudson com uma população de cerca de sete mil habitantes. Por vezes temos que intervir numa escaramuça ou pescar um turista do rio. E isso é tudo o que de mais negativo se passa por aqui.”
Riley pensou naquilo. Parecia mesmo um caso para a UAC. Ela devia encaminhar Alford diretamente para Meredith.
Mas Riley relanceou o gabinete de Meredith e viu que ainda não tinha regressado. Podia falar com ele sobre o assunto mais tarde. Entretanto, talvez pudesse ajudar um pouco.
“Quais as causas das mortes?” Perguntou.
“Gargantas cortadas, ambas.”
Riley tentou não mostrar a sua surpresa. O estrangulamento e golpe grosseiro eram mais comuns do que o corte.
Parecia ser um assassino muito invulgar. Ainda assim, era o tipo de psicopata que Riley conhecia bem. Especializara-se exatamente em casos como aquele. Seria uma pena não poder aplicar os seus conhecimentos àquele caso. À luz do seu trauma recente, não lhe atribuiriam o caso.
“Já desceram o corpo?” Perguntou Riley.
“Ainda não,” Respondeu Alford. “Ainda está aqui pendurada.”
“Então não desçam. Deixem-no aí por agora. Esperem até os nossos agentes chegarem.”
Alford não pareceu agradado.
“Agente Paige, isso vai ser difícil. Está mesmo ao lado das linhas de comboio e pode ser visto do rio. E a cidade não precisa deste tipo de publicidade. A pressão para o descer é imensa.”
“Deixe-o,” Disse Riley. “Sei que não é fácil, mas é importante. Não vai demorar muito tempo. Teremos agentes aí ainda esta tarde.”
Alford assentiu, concordado em silêncio.
“Tem mais fotos da última vítima?” Perguntou Riley. “Imagens mais detalhadas?”
“Claro, vou mostrar-lhas.”
Riley observou uma série de fotos pormenorizadas do corpo. Os polícias locais tinham feito um bom trabalho. As fotos mostravam quão apertadas e elaboradamente envoltas no corpo estavam as correntes.
Finalmente, surgiu uma imagem aproximada do rosto da vítima.
Riley sentiu um sobressalto no coração. Os olhos da vítima estavam inchados e a boca estava amordaçada com uma corrente. Mas não foi isso que chocou Riley.
A mulher era muito parecida com Marie. Era mais velha e mais pesada, mas ainda assim, Marie ficaria muito parecida com aquela mulher se tivesse vivido mais uma década. Aquela imagem fora um soco no estômago de Riley. Era como se Marie lhe estivesse a pedir ajuda, a exigir que ela apanhasse aquele assassino.
Sabia que tinha que ficar com aquele caso.
CAPÍTULO 4
Peterson circulava, nem muito devagar, nem muito depressa, sentindo-se bem por ter a rapariga novamente debaixo de olho. Tinha-a finalmente encontrado. Ali estava ela, a filha de Riley, sozinha, a ir para a escola, sem lhe passar pela cabeça que ele a perseguia, sem lhe passar pela cabeça que ele estava prestes a matá-la.
Enquanto a observava, ela parou repentinamente e virou-se, como se pressentisse que estava a ser vigiada. Estacou e ali ficou, indecisa. Alguns estudantes passaram por ela e entraram no edifício.
Peterson encostou o carro na berma, esperando pelo seu próximo passo.
Não que a rapariga lhe interessasse particularmente. A mãe é que era o verdadeiro alvo da sua vingança. A mãe que o havia contrariado de forma inominável e que tinha que pagar por isso. De certa forma, já tinha pago, afinal, ele levara Marie Sayles a suicidar-se. Mas agora chegara a altura de lhe arrancar dos braços a pessoa mais importante da sua vida.
Para seu contentamento, a rapariga começou a voltar para trás e a afastar-se da escola. Aparentemente, decidira hoje não ir às aulas. O seu coração bateu com mais intensidade – ele queria atacar. Mas não podia. Ainda não. Tinha que ser paciente. Havia outras pessoas na rua.
Peterson arrancou e circulou no espaço de um quarteirão, forçando-se a ser paciente. Reprimiu um sorriso, antevendo a alegria iminente. Com aquilo que reservara para a sua filha, Riley ia sofrer de uma forma inimaginável. Apesar de ainda ser desengonçada e estranha, a miúda era muito parecida com a mãe. E isso só tornava tudo ainda mais agradável.
Enquanto conduzia, reparou que a miúda caminhava vigorosamente. Parou na curva e observou-a durante alguns momentos até se aperceber que se encaminhava para fora da cidade. Se ia para casa sozinha, então este poderia ser o momento ideal para levar o seu plano avante.
Com o coração a bater descompassadamente, querendo saborear a antecipação, Peterson conduziu mais um quarteirão.
Ele sabia que era necessário saber adiar certos prazeres, esperar até chegar o momento certo. A recompensa adiada tornava tudo mais agradável. Sabia-o graças a muitos anos de deliciosa e vagarosa crueldade posta em prática.
Há tanto por que esperar, Pensou, satisfeito.
Quando deu a volta e a viu novamente, Peterson riu-se. Estava a pedir boleia! Deus estava do seu lado naquele dia. Era óbvio que estava destinado a matá-la.
Parou o carro ao lado dela e dirigiu-lhe o seu mais agradável sorriso.
“Queres uma boleia?”
A miúda lançou-lhe um sorriso aberto. “Obrigado. Isso seria ótimo.”
“Para onde vais?” Perguntou.
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