A história era completa. Não podíamos exigir mais, pois nossos próprios cérebros poderiam imaginar o resto. Concebíamos a descida lenta e progressiva daquela grande cidade nas profundidades abissais do oceano, entre convulsões vulcânicas que elevavam ao seu redor picos submarinos. Vimos com os olhos da imaginação a enorme cidade estendida no fundo do Atlântico ao lado da arca de refúgio, em que um punhado de sobreviventes se reunia pávido. E finalmente compreendemos como decorrera sua vida depois, como haviam aprendido a utilizar os numerosos recursos com que a previsão e sabedoria de seu grande chefe os havia provido; de como este lhes transmitira toda a sua ciência antes de morrer e como de cinqüenta ou sessenta sobreviventes se originara toda uma comunidade, que fora obrigada a escavar as entranhas da terra a fim de conseguir espaço para se expandir. Nenhuma biblioteca informativa nos poderia dar de tudo uma idéia mais clara que aquela série de aspectos e as deduções que deles podíamos inferir. Tais foram a sorte da grande Atlântida e as causas que motivaram sua ruína. Num dia distante em que este lodo já se terá transformado em calcário, esta grande cidade sairá novamente das águas por algum outro movimento sísmico, e o geologista do futuro, escavando o solo, exumará não rochas e conchas, mas sim as ruínas de uma civilização desaparecida e os sinais de uma catástrofe remota.
Só um ponto ficara duvidoso; o tempo que decorrera desde que a tragédia tivera lugar. O Dr. Maracot, porém, descobriu um método grosseiro de se avaliar este tempo. Entre as numerosas dependências do grande edifício havia um grande sepulcro onde se enterravam os chefes. Como no Egito e em Yucatán, também eles tinham o costume de mumificar os mortos, e em nichos nas paredes viam-se inúmeras fileiras dessas relíquias fúnebres do passado. Manda apontou-nos orgulhosamente o primeiro nicho desocupado, dando a entender que havia sido especialmente preparado para a sua pessoa.
— Se se tomarem por base os reinos da Europa, disse Maracot — ver-se-á que em média se sucedem cinco reis por século. Podemos tomar essa circunstância como base para calcular a época da submersão da Atlântida. Não podemos esperar uma exatidão científica do resultado, mas teremos uma aproximação aceitável. Contei as múmias e vi que eram em número de quatrocentas.
— Teria sido então há oito mil anos?
— Exatamente. E isto concorda até certo ponto com a estimativa de Platão. Certamente ocorreu antes das narrações escritas dos egípcios, e estas sobem a seis ou sete mil anos antes da data atual. Sim, creio que poderemos dizer que nossos olhos viram a reprodução de uma tragédia que ocorreu no mínimo há oito mil anos. Além disso, construir uma civilização tal como aquela cujos restos tivemos ocasião de ver, deveria por sua vez ter exigido muitos milhares de anos.
«Assim — concluiu ele, e eu te transmito suas palavras — aprofundamos os horizontes da história humana como nenhum conseguiu fazê-lo desde que a História nasceu.»
Foi cerca de um mês após nossa visita à cidade submersa, conforme nossos cálculos, que nos surpreendeu um sucesso dos mais contristadores e inesperados. Pensávamos por aquela época que estávamos a salvo de tais abalos e que nada mais nos conseguiria sobressaltar, mas este fato ultrapassava tudo o que nossa imaginação poderia esperar.
Foi Scanlan quem trouxe a notícia de que algo sensacional ocorrera. Bem podes imaginar que por este tempo já nos sentíamos até certo ponto à vontade naquele grande edifício. Já sabíamos onde estavam situados os salões de descanso e diversões, assistíamos a concertos (tinham uma música original mas agradável) e espetáculos teatrais, onde a linguagem ininteligível era traduzida pela gesticulação expressiva e dramática. Falando de um modo geral, já nos integráramos na comunidade. Visitávamos várias famílias em seus aposentos particulares e a vida que levávamos — pelo menos na minha opinião — era tornada mais agradável pelo cativante trato daquele estranho povo e especialmente daquela mui cara senhorita a que já me referi. Mona era filha de um dos chefes e encontrei em sua família um acolhimento cordial e amistoso, que anulou todas as diferenças de raça e língua. No que se refere à mais terna das linguagens, não creio que haja muita diferença entre a velha Atlântida e a moderna América. Creio que aquilo que agradaria a uma colegial de Brown's College de Massachusetts é justamente o que agradaria à minha dama de sob as águas.
Mas, como dizia, Scanlan entrou em nosso quarto com notícias de que algo sensacional ocorrera.
— Acaba de chegar um deles tão agitado que se esqueceu completamente de tirar sua roupa de vidro e levou falando vários minutos antes de compreender que ninguém o poderia escutar. Depois foi só tá-tá-tá-, tá-tá-táp, tá-tá-tá, até perder o fôlego e agora todos o estão seguindo para a câmara de saída. Eu é que vou também para a água, pois deve haver alguma coisa lá digna de ser vista.
Precipitando-nos para fora, vimos nossos amigos caminhando apressadamente pelo corredor a gesticular agitada-mente e juntando-nos à procissão fazíamos dali a pouco parte da multidão que se adiantava apressadamente pelo fundo do mar, conduzida pelo agitado mensageiro. Caminhavam com uma pressa tal que se nos tornava difícil segui-los mas como traziam consigo suas lanternas elétricas mesmo se ficássemos para trás poderíamos orientar-nos pela claridade das mesmas. Seguimos como da outra vez ao longo dos rochedos de basalto até chegarmos a um ponto em que uma série de degraus gastos pelo uso conduzia ao seu cimo. Subindo por eles, encontramo-nos numa região acidentada, cheia de elevações de pedra e profundos abismos que embaraçavam o caminho. Atravessando esta região atravancada de formações vulcânicas, chegamos a uma planície circular que rebrilhava à luz fosforescente do fundo do oceano, e bem no meio dela deparamos com um espetáculo que me imobilizou de espanto. Olhando para meus companheiros, pude ver pela expressão de seus rostos que partilhavam plenamente da minha emoção.
Semi-enterrado no lodo via-se um vapor de grande calado. Estava ligeiramente adernado, com a chaminé quebrada e uma das extremidades levantada; seu mastro de traquete fora arrancado, mas quanto ao resto o navio estava intato e tão polido que parecia ter acabado de deixar os estaleiros. Corremos para ele e dali a pouco nos achávamos sob a proa. Podes bem imaginar qual não teria sido nossa emoção quando lemos o nome «Stratford, London» aí escrito. Nosso navio nos seguira ao Pélago de Maracot.
Afinal, depois do primeiro choque, o caso não nos pareceu tão incompreensível. Lembramo-nos do aviso do comandante, das velas colhidas do experiente veleiro norueguês e da ameaçadora nuvem negra que víramos no horizonte. Deveria ter-se desencadeado um súbito ciclone de enorme violência, que pusera a pique o «Stratford». Era evidente que toda a sua tripulação deveria estar morta, pois a maioria dos escaleres ainda pendia das serviolas em diferentes estados de destruição. De qualquer modo, qual o escaler que resistiria a tal furacão? A tragédia deveria ter ocorrido uma ou duas horas após nosso próprio desastre. Talvez a sonda que víramos tivesse sido lançada pouco antes de o temporal desabar. Era terrível e ao mesmo tempo extravagante que ainda estivéssemos vivos, enquanto que os mesmos que haviam lamentado nossa perda já estivessem mortos. Não podíamos saber se o navio se achava ali há muito tempo ou se o atlante o encontrara pouco tempo depois que fora aí ter.
O pobre Howie, o capitão, ou pelo menos o que restava dele, estava ainda em seu posto sobre a ponte de comando, firmemente seguro ao peitoril por suas mãos crispadas. Seu corpo e o de três foguistas eram os únicos que haviam afundado com o navio. Fizemos removê-los um por um sob nossa direção e enterrá-los sob o lodo, com uma coroa de flores marinhas sobre suas sepulturas. Dou estes detalhes para que possam servir de algum conforto à Sra. Howie em sua dor. Os nomes dos foguistas eram-nos desconhecidos.
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