Seis e quarenta e cinco, os barbeadores zumbem e os Agudos fazem fila por ordem alfabética diante dos espelhos, A, B, C, D… Os Crônicos, que ainda caminham como eu, entram quando os Agudos acabam; depois, os Circulantes são trazidos nas cadeiras de rodas. Os três velhos que ainda restam, com uma crosta de mofo amarelo na dobra frouxa debaixo do queixo, são barbeados em espreguiçadeiras, na enfermaria, com uma tira de couro em torno da testa para impedi-los de cabecear de um lado para o outro sob o barbeador.
Em algumas manhãs – as de segunda-feira especialmente – eu me escondo e tento resistir ao horário. Em outras ocasiões, acho que é mais inteligente me meter na fila, no lugar entre A e C no alfabeto e ir seguindo adiante como todo mundo, sem levantar os pés – magnetos muito fortes sob o assoalho manobram o pessoal pela enfermaria como se fossem fantoches…
Às sete horas a sala de refeições se abre e a ordem da formatura se inverte: os Circulantes primeiro, então os Caminhantes, depois os Agudos apanham as bandejas, flocos de milho, bacon com ovos e torradas – e hoje de manhã um pêssego em calda num pedaço de alface verde cortada. Alguns dos Agudos trazem as bandejas para os Circulantes. A maioria dos Circulantes é apenas de Crônicos com as pernas ruins, eles se alimentam sozinhos, mas há os três que não têm qualquer movimento do pescoço para baixo, e não muito do pescoço para cima. Esses se chamam Vegetais. Os crioulos os trazem para o refeitório depois que todo mundo já está sentado, empurram as cadeiras de rodas encostando-as numa parede, e lhes trazem bandejas idênticas de comida com um aspecto de lama, com pequenos cartões brancos, indicativos da dieta, presos nas bandejas. Mecanicamente suave – é o que se lê nos cartões da dieta para esses três desdentados: ovos, presunto, torrada, bacon, tudo mastigado 32 vezes cada uma pela máquina de aço inoxidável da cozinha. Eu a vejo franzir os lábios cortados, como o tubo de um aspirador, e cuspir um coágulo de presunto mastigado, num prato, com um som de curral.
Os crioulos enchem as rosadas bocas sugadoras dos Vegetais um pouquinho depressa demais para dar tempo de engolir, e a "mecanicamente suave" escorre descendo pelos queixinhos arredondados até os pijamas verdes. Os crioulos xingam os Vegetais e aumentam-lhes a abertura das bocas com um movimento giratório da colher, como se estivessem descaroçando uma maçã podre: "Esse peido velho do Blastic está caindo aos pedaços na minha frente. Já não posso mais dizer se estou dando a ele papa de bacon ou pedaços da porca da língua dele"…
Às sete e meia voltamos para a enfermaria. A Chefona olha para fora através do seu vidro especial, sempre limpo a tal ponto que não se pode dizer que está ali, e balança a cabeça em sinal de aprovação do que está vendo, estende o braço e arranca uma folha do calendário, um dia mais para perto do objetivo. Aperta um botão para que as coisas comecem. Ouço o ressoar de uma grande folha de zinco sendo sacudida em algum lugar. Todo mundo se coloca em ordem. Agudos: sentem-se do seu lado da enfermaria e esperem que as cartas e os jogos de Monopólio sejam trazidos. Crônicos: sentem-se do seu lado e esperem pelos quebra-cabeças da caixa da Cruz Vermelha. Ellis: vá para o seu lugar na parede, mãos para o alto para receber os pregos e o mijo escorrendo pela perna. Pete: balance a cabeça como um fantoche. Scanlon: trabalhe com as mãos nodosas na mesa a sua frente, construindo uma bomba de faz-de-conta para explodir um mundo de paz. Harding: comece a falar, agitando suas mãos de pombo no ar, depois as prenda debaixo dos braços, porque homens adultos não devem agitar suas bonitas mãos desse jeito. Sefelt: comece a choramingar porque seus dentes doem e o seu cabelo está caindo. Todo mundo: inspire… expire… em perfeita ordem; corações batendo todos no compasso determinado pelos cartões OD. Som de cilindros emparelhados.
Como um mundo de histórias em quadrinhos, onde os personagens são achatados e delineados em preto, movendo-se aos trancos através de uma espécie de história idiota qualquer, que poderia ser realmente engraçada se não fosse pelo fato de os personagens caricaturescos serem de verdade…
Às sete e quarenta e cinco, os crioulos vêm descendo pela fileira de Crônicos, esvaziando as sondas dos que ficam suficientemente quietos para usá-las. As sondas são camisas-de-vênus de segunda mão, as pontas cortadas e presas com fita de borracha a tubos que descem pelas pernas até um saco plástico que traz escrito "PARA JOGAR NO LIXO. NAO DEVE SER UTILIZADO OUTRA VEZ", os quais tenho a tarefa de lavar ao fim de cada dia. Os crioulos fixam a camisa-de-vênus prendendo-a com fita adesiva nos pêlos; os velhos Crônicos de sonda são pelados, como bebês, por causa da remoção da fita…
Às oito horas as paredes zunem e zunem em plena atividade. O alto-falante no teto diz "medicamentos", usando a voz da Chefona. Olhamos para o compartimento de vidro onde ela costuma ficar sentada, mas ela não está em lugar algum perto do microfone; de fato, ela está a 10 passos de distância do microfone, ensinando a uma das enfermeirinhas como se prepara uma bandeja de remédios bem arrumada, com os comprimidos dispostos ordenadamente. Os Agudos formam fila diante da porta de vidro, A, B, C, D, e depois os Crônicos e os Circulantes (os Vegetais recebem os deles depois, misturados numa colher de suco de maçã). Os caras vão avançando, e recebem uma cápsula num copinho de papel – jogam a cápsula no fundo da garganta, o copinho é enchido de água pela enfermeirinha e eles engolem a cápsula. Em raras ocasiões um idiota qualquer era capaz de perguntar o que era que lhe estavam pedindo para engolir.
– Espere só um pouquinho, boneca; que é que são essas duas cápsulas aqui com a minha vitamina?
Eu o conheço. É um Agudo grande e curioso, já começando a ganhar a reputação de criador de casos.
– É apenas um remédio, Sr. Taber, para o senhor. Agora engula.
– Mas eu quero saber que espécie de remédio. Cristo, posso ver que são comprimidos…
– Ora, apenas engula tudo de uma vez, vamos, Sr. Taber… por mim, sim? – Ela lança um olhar rápido na direção da Chefona, para ver como a sua técnica de namorico está sendo recebida, então torno a olhar para o Agudo. Ele ainda não está disposto a engolir uma coisa que não sabe o que é, nem mesmo só por ela.
– Senhorita, não gosto de criar casos, mas também não gosto de engolir uma coisa sem saber o que é. Como é que vou saber se este aqui não é um desses comprimidos esquisitos, que me vão fazer ser o que eu não sou?
– Não fique aborrecido, Sr. Taber…
– Aborrecido? Tudo que eu quero é saber, pelo amor de Deus…
Mas a Chefona se aproximou sem ser notada, fechou a mão sobre o braço dele, paralisando-o por completo até o ombro.
– Está tudo bem, Srta. Flinn – diz ela. – Se o Sr. Taber prefere agir como criança, ele precisa ser tratado como tal. Nós já tentamos ser gentis e ter consideração com ele. É óbvio que esta não é a resposta. Hostilidade, hostilidade, este é o agradecimento que recebemos. O senhor pode ir, Sr. Taber, se não quer tomar a medicação por via oral.
– Tudo que eu queria era saber, pelo amor de…
– O senhor pode ir.
Ele se afasta, resmungando, quando ela lhe solta o braço, e passa o dia rondando em volta da latrina, matutando a respeito dos tais comprimidos. Uma vez eu me livrei, segurando uma daquelas mesmas cápsulas vermelhas debaixo da língua, fiz de conta que tinha engolido, e a abri depois esmagando-a, no armário das vassouras. Por uma fração de segundo, antes que toda ela se transformasse em poeira branca, vi que era um aparelho eletrônico em miniatura, como os que eu ajudei a Equipe de Radar a desenvolver no Exército, fios suportes e transistores, aquele ali feito de maneira a se dissolver em contato com o ar…
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