Emily olhou para a última porta do corredor, para o quarto que havia pertencido a ela e a Charlotte. De todos, esse havia sido o mais difícil de restaurar, porque sentiu como se estivesse apagando sua irmã. Mas todas as coisas de Charlotte estavam muito bem guardadas num cantinho especial do sótão, e Serena, uma artista local e amiga de Emily, havia criado obras de arte incríveis com as roupas de sua irmã mais nova. Ainda assim, sentia um nó no estômago ao saber que havia um estranho dormindo do outro lado daquela porta, um estranho para quem ela agora precisava servir o café da manhã. Emily nunca tinha sequer imaginado transformar a casa numa pousada, nunca havia sonhado sobre como poderia ser, como ela poderia se sentir, como aquilo poderia parecer. De repente, sentiu-se miseravelmente despreparada, como uma criança fingindo ser adulta.
Caminhando da maneira mais silenciosa possível, Emily atravessou o corredor, na direção da escada. Seus pés sentiam a textura macia do novo carpete creme. Não pôde deixar de olhar para ele em adoração. A transformação da casa havia sido uma verdadeira maravilha. Ainda havia trabalho a ser feito — sobretudo no terceiro andar, que estava uma bagunça total, com cômodos nos quais sequer tinha entrado; sem mencionar os prédios anexos, que continham uma piscina abandonada, assim como um monte de caixas para organizar. Mas o que havia conseguido até agora, com uma ajudinha dos simpáticos moradores de Sunset Harbor, ainda a impressionava. Para ela, a casa havia se tornado uma amiga, que ainda tinha segredos a revelar. Na verdade, havia uma chave específica que era um mistério para ela. Não importava o quanto tentasse, não conseguia encontrar qual porta ela destravava. Havia conferido tudo, de gavetas a portas de guarda-roupas, sem sucesso.
Emily desceu a longa escadaria, seus balaustres agora polidos e brilhantes, o carpete fofo resplandescente, o corrimão de bronze com cores perfeitas. Mas enquanto admirava tudo, notou que havia uma mancha no carpete – uma pegada. Claramente, era do sapato de um homem.
Emily parou no último degrau. Daniel precisa ser mais cuidadoso, pensou.
Mas então percebeu que a pegada ia em direção à porta da frente. O que significa que vinha do andar de cima. Mas se Daniel ainda estava na cama, a única maneira daquela pegada ter chegado até ali era pelos pés de seu hóspede, o Sr. Kapowski.
Correu até a porta da frente e a abriu com força. No dia anterior, o Sr. Kapowski havia dirigido seu carro particular pelo caminho recém-construído e estacionado na garagem. Mas agora o veículo não estava lá.
Emily não podia acreditar.
Ele havia ido embora.
Em pânico, Emily voltou correndo para dentro da casa.
“Daniel!” gritou, na base da escada. “O Sr. Kapowski foi embora! Ele partiu porque eu não acordei a tempo de preparar o café da manhã!”
Daniel apareceu no topo da escada, usando apenas a calça de seu pijama, os ombros largos e peito musculoso à mostra. Seu cabelo estava uma bagunça, dando a ele a aparência de um garoto atrasado para a escola.
“Provavelmente, ele só foi ao Joe”, disse, descendo os degraus trotando, em direção a ela. “Você não parava de falar sobre como os waffles de lá estavam incríveis, se é que se lembra”.
“Mas eu é quem deveria estar preparando o café da manhã dele!” Emily falou. “É uma pousada B&B, Bed and Breakfast, não tem só um B!”
Daniel chegou até ela e pegou-a pela cintura, mantendo-a junto a si suavemente. “Talvez ele não tenha entendido direito o que o segundo B significava. Pensou que era B de Banho. Ou, de Bananas”, brincou. Então, beijou o pescoço dela, mas Emily o afastou, soltando-se do abraço.
“Daniel, pare de brincar!” ela exclamou. “Isso é sério. É meu primeiro hóspede e não acordei a tempo de preparar o café da manhã”.
Daniel meneou a cabeça e revirou os olhos, zombando dela com ternura.
“Não é grande coisa. Ele apenas deve estar tomando o café da manhã à beira-mar. Está de férias, lembra?”
“Mas meu terraço tem vista para o mar”, Emily balbuciou, sua voz cada vez mais fraca. Ela desabou no último degrau, sentindo-se pequena, como uma criança que tivesse sido posta de castigo, e então, segurou a cabeça com as mãos. “Sou uma péssima dona de pousada”.
Daniel abraçou-a pelos ombros. “Isso não é verdade. Você só está pegando o jeito. Tudo é estranho e novo. Mas está indo bem. Certo?”
Ele falou a última palavra num tom firme, quase paternal. Emily não pôde evitar se sentir consolada. Olhou-o nos olhos.
“Você gostaria, pelo menos, que eu lhe preparasse um ovo pochê?” perguntou.
“Isso seria delicioso”. Daniel sorriu. Segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou.
Foram juntos para a cozinha. O ruído da porta se abrindo acordou Mogsy, a cadela, e seu filhote, Chuva, que tiravam sua soneca na área de serviço, bem ao lado das portas do celeiro. Emily sabia que manter os cães fora da cozinha e de qualquer parte da casa usada pela pousada era uma necessidade absoluta, se não queria ser fechada por razões de saúde e segurança imediatamente, mas se sentia mal ao manter os cães presos em uma parte tão pequena da casa. Lembrou a si mesma que era uma situação temporária. Conseguiu que quatro dos cinco filhotes de Mogsy fossem adotados por seus amigos na cidade, mas Chuva, o fraquinho, era mais difícil de conquistar alguém, e ninguém parecia remotamente interessado em ficar com a mamãe, que estava, para dizer de maneira gentil, meio acabada.
Assim que os cães foram alimentados do lado de fora, Emily voltou para a cozinha. No meio tempo, Daniel havia ido até a horta pegar os ovos daquela manhã postos por Lola e Lolly, as galinhas, e preparado o café. Emily pegou uma caneca com gratidão e sentiu o cheiro do café, então, voltou para o grande fogão Arga — mais uma relíquia do seu pai que ela havia restaurado — e começou a praticar como fazer ovos pochê.
De todos os cômodos da casa, a cozinha era um dos seus favoritos. Quando Emily chegou na casa, viu que a cozinha tinha sido devastada pelo tempo e pelo abandono, e então uma tempestade a castigou, causando mais danos, e depois, a torradeira explodiu, provocando um incêndio. A fumaça provocou muito mais estrago que o fogo em si; apenas uma prateleira e alguns livros de receitas foram queimados, enquanto que a fumaça conseguiu permear cada fresta e espaço vazio, deixando listras negras e o odor de plástico queimado por onde passou.
Em apenas seis curtos meses, tudo que podia ter dado errado com a cozinha aconteceu. Mas após algumas cansativas noites em claro trabalhando duro, finalmente estava agora re-re-restaurada e havia ficado um charme, com sua geladeira retrô e pia branca Victorian Belfast original, e superfícies de trabalho em mármore preto.
“Olha só”, Emily disse, colocando sua quinta tentativa de fazer um ovo pochê no prato de Daniel, “não sou uma cozinheira tão terrível, afinal”.
“Está vendo?” Daniel disse, cortando a clara e fazendo a gema dourada escorrer por sua torrada. “Eu lhe disse. Precisa me ouvir mais vezes”.
Emily sorriu, gostando do humor gentil dele. Ben, seu ex, nunca a fazia rir como Daniel. Também nunca conseguiu confortá-la em seus momentos de pânico. Com Daniel, parecia que nada nunca era grande demais para ser resolvido. Seja uma tempestade ou um incêndio, ele sempre a fez sentir como se tudo estivesse bem, que era gerenciável. A tranquilidade era uma de suas características mais atraentes. Assim como o mar, ele tinha a habilidade de acalmá-la. Mas ainda assim, nunca tinha certeza dos seus sentimentos, se sentia o mesmo que ela. O relacionamento deles era como uma correnteza que não podiam controlar, mesmo que quisessem.
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