“É melhor me preparar”, ela disse, sorrindo, e subiu as escadas correndo para se vestir.
Serena chegou pontualmente às 19h, trazendo seu perfume adocicado e charme artístico consigo.
“Alguém está vestida para matar”, ela disse, ao ver a roupa de Emily.
Emily corou. Nunca aceitou bem elogios. “Obrigada pela ajuda. Estamos muito gratos por termos uma noite a sós”.
“Sem problemas”, Serena disse. “Quero muito relaxar e ler alguns romances cafonas”.
Emily e Daniel foram até a porta, mas antes de terem a chance de sair, esbarraram em alguém. Era o amigo de Cynthia, Owen, o jovem e tímido pianista que esteve antes na pousada para afinar o antigo piano de seu pai, e a quem Emily havia convidado para vir tocar quando desejasse.
“Ah, humm, desculpe, vocês estão de saída, posso voltar outra hora”, Owen disse, balbuciando as palavras e brincando com a partitura que tinha nas mãos.
“De jeito nenhum”, Emily disse. “Entre e toque. Serena está aqui, então, você pode tocar o quanto quiser”.
Owen sorriu timidamente e agradeceu a Emily, e depois seguiu para a sala de estar.
Enquanto Emily e Daniel desciam trotando os degraus do terraço, a bela música tocada ao piano por Owen flutuava atrás deles.
*
A água lambia os muros do porto enquanto Daniel ajudava Emily a entrar no barco. O céu ainda estava azul, apesar do crepúsculo se aproximar.
“Aonde vamos?” Emily perguntou, depois de se acomodar.
“Queria explorar outra ilha”, Daniel disse.
Emily se lembrou da última vez que tinham feito isso, quando ela havia descoberto o farol e as pinturas que seu pai reuniu. Tinha certeza de que poderia haver alguma pista para o desaparecimento do seu pai nelas, mas assim como a maioria das pistas que ela havia seguido, aquela parecia dar numa rua sem saída: só o nome de uma pintora já falecida.
Daniel deu partida no motor e o barco começou a se afastar da doca. A água estava calma, e a maré, baixa. O barco cortava o mar com facilidade. Emily segurava firme, animadíssima por sentir o vento em seus cabelos, e grata por ter reforçado a maquiagem!
O céu já ficava rosado quando chegaram nas margens da ilha que Daniel queria explorar. Ele saltou do barco e ajudou Emily a descer, então, os dois caminharam de mãos dadas ao longo da praia. Ao longe, as luzes de Sunset Harbor cintilavam.
“É tão lindo”, Emily disse, sonhadora. Havia se apaixonado pelo lugar, por sua pousada e pela menininha dormindo profundamente nela.
“Acha que Serena ficará bem?” Daniel perguntou.
“Desde que Chantelle continue a dormir, não haverá nada com o que se preocupar”, Emily replicou.
Daniel ficou em silêncio. “Gostaria de te agradecer”, ele disse, um pouco tímido.
“Pelo quê?” Emily perguntou.
Por ser tão incrível com Chantelle. E por tudo. Fiz você passar por um triturador, sei disso. Não tinha certeza se me perdoaria”.
Emily engoliu em seco. Lembrar-se daquelas dolorosas semanas sem Daniel ainda a machucavam muito. Vê-lo reconhecer o que a fez passar era restaurador.
“Não acho que tinha escolha”, Emily disse. Ela podia ouvir sua voz vacilar. “Assim que te vi com ela... era tudo que sempre quis, Daniel. Eu te amo tanto que dói”.
Então, eles pararam de caminhar e Daniel se virou para fitá-la. Enxugou a lágrima no rosto dela com o polegar, e então tomou-o nas mãos.
“Eu também te amo, Emily”, completou.
Então, pressionou seus lábios nos dela. Emily se derreteu neles, sentindo mais uma vez aquela paixão crua que apenas Daniel podia acender dentro nela. Ela o envolveu em seus braços, sentindo seus músculos firmes sob a camisa enquanto passava as mãos por todo o seu corpo. Ouvir Daniel finalmente murmurar aquelas três palavras que ela esperava ansiosamente ouvir fez seu corpo ganhar vida de uma maneira nunca vista. A paixão havia sumido de seu relacionamento com Ben há anos, e apesar das noites maravilhosas que havia passado com Daniel, esta era a primeira vez em que ela sentia tanto desejo, tanta vontade.
Ela se afastou dele. Seus olhos brilhavam de desejo. Ela nunca o havia beijado daquela maneira antes.
“Quero você, Emily”, Daniel disse, sem fôlego. “Agora e para sempre”.
Emily se aproximou então, puxando Daniel para si novamente pelos ganchos do cinto de seu jeans. Ela o queria perto dela, junto a si. Queria sentir cada centímetro dele. Naquela ilha abandonada, com o sol se pondo, Emily não podia pensar em outra coisa que quisesse mais do que Daniel. Inteiro.
*
As estrelas cintilavam acima deles. As ondas quebravam suavemente. Emily estava deitada nos braços de Daniel, sua cabeça descansando sobre seu peito nu e morno. Podia ouvir as batidas do coração dele, seu ritmo ainda acelerado depois de fazer amor. Sua pele ainda estava quente ao toque sob os dedos dela.
Ela se apoiou no cotovelo. “Ficamos fora por muito tempo”, ela falou. “Acho que deveríamos voltar”.
Daniel respirou fundo, como se relutasse em deixar aquele lugar. Emily sabia como ele se sentia. Também gostaria de permanecer naquele momento mágico para sempre. Mas lembrou que havia mais momentos mágicos para compartilhar em casa, na pousada. Agora que eram parte de uma família, havia um milhão de momentos de diversão e felicidade para aproveitar.
Emily se deitou na areia e observou Daniel se vestir, sentindo-se imensamente feliz. As estrelas finalmente haviam se alinhado para ela, afinal.
Também se vestiu e arrumou o cabelo, querendo dar a entender que sua aparência descabelada se devia ao passeio de barco até a ilha, ao invés do que ela e Daniel haviam feito ao chegar lá.
Daniel subiu no barco e ajudou Emily a entrar ao seu lado.
“Depois de levar Chantelle para a escola, podemos ir para a loja de antiguidades no final da rua”, ele disse. “Nunca estive lá e ouvi dizer que têm joias excelentes, alguns aneis lindos”.
O coração de Emily acelerou. Daniel podia estar dando a entender que a pediria em casamento? Na ilha em que ele havia dito que estaria com ela para sempre; agora estava falando sobre aneis. Emily ainda nem havia pensado em casar com Daniel. Havia acontecido tanta coisa em seu namoro que ela simplesmente preferiu afastar tais pensamentos.
Mas agora, sentada no barco cruzando o oceano e indo em direção à cidade que ela amava, percebeu o quanto estava feliz com a perspectiva de passar a vida ao lado de Daniel.
Pela primeira vez, a ideia de Daniel pedindo-a em casamento se alojou em sua mente como uma semente criando raízes.
“Pronta para seu primeiro dia de aula?” Emily perguntou a Chantelle enquanto se inclinava sobre a mesa de café da manhã reunindo os pratos vazios, cheios de migalhas.
Chantelle levantou os olhos e assentiu. Sua expressão era de séria contemplação. Emily nunca tinha visto uma expressão tão adulta num rosto tão jovem. É claro que uma nova escola era desafiante para Chantelle, Emily sabia disso. Mas ver a menina tão solene a respeito machucava seu coração. Queria ajudar Chantelle a ficar mais confortável e relaxada, ajudá-la a aprender a se divertir, como uma criança de seis anos normal.
Então, Daniel entrou na cozinha. Estava usando sua camiza xadrez por dentro da calça jeans, e havia penteado o cabelo para trás e feito a barba. Emily se encheu de orgulho ao vê-lo, sabendo o quanto tinha se esforçado só para dar uma boa impressão no portão da escola.
Daniel foi até Emily e a beijou.
“Alguém está muito elegante hoje”, Emily brincou, com um sorriso.
Daniel olhou para Chantelle. “Pronta para seu grande dia?” ele perguntou.
Chantelle parecia um pouco mais relaxada na presença de Daniel hoje, Emily notou. Talvez estivesse aprendendo a confiar nele, afinal. Depois de ser arrancada do Tennessee, começava a se adaptar e podia vê-lo como alguém com quem podia contar, alguém que não iria decepcioná-la.
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