“Owww, Chantelle, o que acha deste casaco?” Emily disse, levantando um sobretudo azul-marinho com grandes botões. Imaginou que era o tipo de casaco que Sara Crewe usava em A Princesinha.
Chantelle parecia impressionada. Segurou o casaco e então passou o tecido pela bochecha. O forro tinha uma linda montagem de flores em tons claros de rosa, verde e amarelo.
“Gostou do forro?” Emily perguntou.
Chantelle assentiu e Emily registrou mentalmente que seria bom comprar algumas roupas com estampa floral para ela.
A menina tirou o casaco do cabide e o vestiu. Assim como Emily havia imaginado, ela ficou absolutamente encantadora, como se tivesse saído de um livro de Dickens. Enquanto Chantelle se olhava no espelho, lágrimas começaram a brilhar em seus olhos.
“Não temos que comprar se você não gostou”, Emily disse, subitamente preocupada.
Chantelle balançou a cabeça. “Não é isso. Só não sabia que eu podia ficar bonita”.
Pela centésima vez desde que a menininha havia entrado em sua vida, Emily sentiu seu coração apertar. Chantelle havia passado a vida inteira sem ouvir de ninguém que era linda? Havia muito tempo perdido a recuperar para reconstruir a autoconfiança dela.
Emily e Chantelle passaram mais de uma hora na loja vintage, experimentando vestidos e blusas, lindas calças e suéteres de gola alta. Emily não podia dizer se ela estava apenas se deixando influenciar ou não, mas achou que a menina ficou incrível em todas as roupas, como uma modelo mirim. Era impressionante ver a transformação dela, não apenas fisicamente, mas também em sua postura, enquanto ficava mais à vontade, mais confiante e ousada em suas escolhas. Para uma criança pequena que nunca teve a chance de escolher como se vestir, ela tinha um bom gosto natural. Compraram cinco novos conjuntos.
“Melhor irmos até uma loja de departamentos agora”, Emily disse. “Para escolher roupas de baixo, meias e pijamas”.
Juntas, saíram da loja vintage, os braços de Emily carregados de sacolas, e foram na direção da loja de departamentos. Enquanto caminhavam, Emily viu Vanessa com sua bebê Katy no carrinho. Vanessa trabalhava na limpeza da pousada há semanas. Emily acenou pra ela do outro lado da rua.
“Chantelle, esta é minha amiga Vanessa”, Emily disse. “Ela trabalha na pousada, então, provavelmente a verá algumas vezes, de manhã”.
Vanessa pareceu um pouco surpresa. “Oi, Chantelle”, ela disse, de maneira um pouco artificial. Então, levantou os olhos para Emily. “É sua sobrinha?”
Emily sorriu e balançou a cabeça. “É a filha de Daniel”.
“Emily é minha nova mãe”, Chantelle disse, apertando o braço de Emily junto ao seu corpo e sorrindo.
Emily sentiu o coração derreter. Mas quando olhou para Vanessa, sua amiga parecia petrificada.
“A filha de Daniel, do Tenessee?” ela falou.
Emily assentiu, seu humor começando a azedar. Vanessa estava lá durante as semanas do abandono de Daniel, durante aquelas longas seis semanas em que Emily foi deixada num turbilhão, sem saber se ficava ou fazia as malas e voltava para Nova York, aceitava a oferta de emprego de Amy e a proposta de casamento de Ben, e fingia que toda aquela viagem para o Maine havia sido um sonho. Assim como Serena, Vanessa havia apoiado Emily, oferecido conforto e sua amizade, tentando reparar a desordem que Daniel deixara para trás. Ela claramente desaprovava Emily ter aceito Daniel e sua filha em sua vida sem nem hesitar.
“Chantelle, querida” Emily disse, “por que não vai até aquela loja comprar um pouco de doces? Tome”. Ela deu à menina algumas notas. “O papai prefere bombom de manteiga de amendoim coberto de chocolate”.
Assim que Chantelle se afastou, Emily se voltou para Vanessa. “Sei o que está pensando”, começou. “Acha que sou louca por deixar Daniel entrar em meu coração novamente sem brigar. Acha que estou sendo um capacho”.
Vanessa balançou a cabeça. “Não é isso, Emily. Sei que o ama. Qualquer um pode ver isso. Nunca duvidei que vocês dois ficariam juntos”.
“Então, qual é o problema?” Emily perguntou, sentindo-se ficar cada vez mais gelada.
“A menina”, Vanessa replicou. “Acha mesmo que está tudo bem em afastá-la de casa? De sua mãe?”
Emily cruzou os braços. “A mãe abriu mão da filha. É viciada em drogas e tem problemas mentais. Daniel tentou ajudá-la a se livrar do vício e começar um tratamento, mas não funcionou. Ela percebeu que Chantelle ficaria melhor conosco. Mas não vou excluir Sheila e fingir que ela não existe. Se quiser fazer parte da vida de Chantelle, pode fazer isso, assim que estiver livre das drogas. Não vou deixar uma viciada arruinar a vida dessa garotinha”.
Vanessa pareceu hesitar. “Só não sei se percebe aonde você se meteu”, ela falou. “Não vai ser fácil criar uma criança como Chantelle”.
“Estou ciente disso”, Emily disse, irritada, apesar de Chantelle ter sido encantadora até agora. “É claro que haverá desafios. Mas eu e Daniel estamos preparados para enfrentá-los juntos”.
“E os filhos de vocês? Seus e de Daniel? Vocês ainda poderão ter sua própria família enquanto estiver ocupada com os problemas de Chantelle? E quanto à pousada? É um lugar adequado para uma criança com dificuldades?”
“Chantelle não tem dificuldades”, Emily disparou, defensiva e subitamente protegendo a menina que começava a ver como filha. “Ela precisa de amor e cuidado. Daniel e eu somos as melhores pessoas para dar isso a ela”.
Vanessa suspirou profundamente. “Não duvido”, disse, resignada. “Só acho que você não pensou bem sobre isso. Tem visto como Katy me deixa exausta às vezes, e ela é sangue do meu sangue. Escolhi tê-la. Chantelle foi empurrada para você. Ela é quase um ultimato de Daniel. Você nunca pediu por isso. Só acho que precisa recuar um pouco e refletir se é isso que você quer”.
Ela apertou o braço de Emily. Nesse momento, Chantelle voltou com uma sacola de papel cheia de doces e barras de chocolate.
“Uau”, Emily disse, “olha quantos doces”.
Mas sua voz não estava tão alegre e descontraída como antes. As palavras de Vanessa a perturbaram, haviam sido como uma faca afiada cortando sua felicidade e deixado uma pedra de dúvida dentro dela. Seria realmente capaz de cuidar de Chantelle?
Na volta para casa, Chantelle estava exausta. Conseguiu ficar acordada durante o jantar que Daniel havia preparado, mas bocejou o tempo todo.
“Talvez ela devesse ir para a cama mais cedo?” Emily disse. “Acordou super cedo. E as aulas começam amanhã, então, precisa estar descansada”.
Daniel concordou e elas subiram até o quarto de Chantelle, colocaram-na na cama e então leram uma história até que menina adormeceu.
Quando saíram do quarto, fechando a porta em silêncio, Emily refletiu sobre os últimos dias cuidando de uma criança. Havia sido mais divertido do que esperava. Mas as palavras de Vanessa ainda ecoavam em sua mente, fazendo-a duvidar de si mesma.
Eles desceram as escadas em silêncio, sem querer que o ranger do assoalho acordasse a pequena.
“Adoraria pegar o barco para ver o pôr do sol”, Daniel disse. “O que me diz? Um encontro?”
Emily franziu o cenho. “Não podemos deixar Chantelle sozinha”.
Daniel começou a rir. “Que bom que Serena está vindo pra cá”.
Emily parecia ainda mais confusa. “Hã?”
Daniel apenas sorriu. “Bem, enquanto as duas estavam fora, tomei a liberdade de arrumar uma babá. Ela chegará às sete”.
A expressão preocupada de Emily se transformou num sorriso. “Sério?” Não podia conter sua animação. Fazia tanto tempo desde seu último encontro com Daniel que não percebia o quanto desejava por isso. Ela o abraçou e o beijou demoradamente.
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