Daniel saiu da rua principal e seguiu pela estrada menor em direção à escola de Chantelle. Sua consulta com a médica se prolongara e não havia tempo para ir para casa antes de pegá-la.
“Você tem ouvido falar em Raven Kingsley?” perguntou ele enquanto dirigia. “Quando é a próxima reunião municipal para decidir se sua pousada pode ser construída?”
“Eu ainda não sei,” disse Emily. “Estou aguardando. Eles postarão um boletim quando o conselho de zoneamento municipal se reunir. Tenho certeza de que vai demorar um pouco.”
“Você não está preocupada?” perguntou Daniel.
“É claro. Concorrência, especialmente de alguém como Raven, é sempre algo assustador. Tudo tem sido fácil até agora. O mercado era nosso.”
“Tudo tem sido fácil?” brincou Daniel, referindo-se aos anos e meses de trabalho que eles tiveram para fazer da pousada um sucesso.
“Você sabe o que quero dizer,” disse Emily. “Nós nunca tivemos que nos preocupar com falência antes.”
“E precisamos agora?” perguntou Daniel, sua expressão jocosa de antes desaparecendo completamente.
Emily mordeu o lábio. “Talvez um pouco,” disse a ele. “Se as coisas não melhorarem logo. Mas não se preocupe, vou pensar em algo. Um baile de Natal. Com Roman cantando. Por cem dólares o ingresso!”
Ela só estava brincando. Usar o status de celebridade de Roman para seu próprio benefício era algo que ela jamais faria. Mas um baile de Natal para a cidade pode ser uma boa ideia.
Daniel ainda parecia preocupado.
“Hum,” Emily disse a ele, com firmeza. “Deixe comigo. Não se preocupe. Nada, nem mesmo a nova pousada de Raven Kingsley, vai nos prejudicar. Eu prometo. Estamos muito determinados para falhar agora.”
Ela falou com confiança, mas no fundo também tinha dúvidas. E se este fosse o inverno ao qual não pudessem resistir? E se sua vida perfeita estivesse prestes a desmoronar?
*
Daniel entrou na área da escola. As aulas daquele dia já haviam sido encerradas e todas as crianças brincavam no grande playground, supervisionadas por seus professores. Emily avistou Chantelle, brincando com Bailey e Laverne. Era um grande alívio ver as meninas voltarem a ser amigas.
Ela saiu da caminhonete e acenou para a professora de Chantelle nos degraus do lado de fora da escola. Ela também acenou para Tilly, a recepcionista da escola com a qual Emily recentemente fez amizade. Tilly estava tomando seu café da tarde nos degraus com o resto do corpo docente. Ela acenou calorosamente para Emily.
Chantelle deve ter notado seus pais, porque ela veio atropelando todo mundo.
“Adivinha só!” exclamou ela. “Estamos fazendo um Conto de Natal inspirado no Dr. Seuss para a nossa apresentação deste ano!”
“O que seria isso?” perguntou Emily.
“É um Conto de Natal de Charles Dickens, mas todo em rimas, como em Dr. Seuss,” disse Chantelle. “E eu serei O Fantasma do Natal Passado!”
Emily sabia que esse era um dos papeis principais da peça. Depois de Ebenezer Scrooge, o fantasma certamente teria a maioria das falas.
“Muito bem, querida!” disse ela, abraçando Chantelle com força.
Depois de soltá-la, Daniel levantou-a no ar.
“Que papel legal!” exclamou ele. “Estou muito orgulhoso de você!”
Ele a colocou no chão, e Chantelle pegou algo de sua bolsa.
“Estas são as minhas falas,” disse ela, segurando um livrinho grosso com uma ilustração reconhecível ao estilo Seuss na capa. “A peça será na sexta-feira, 18 de dezembro.”
Emily olhou para Daniel, com as sobrancelhas levantadas. A bebê Charlotte já terá nascido! De repente, tudo parecia incrivelmente real. E muito, muito emocionante.
“Não é muito tempo para aprender todas as suas falas?” perguntou Daniel a Chantelle. “Três semanas?”
“Eu sei,” ela disse, parecendo de repente muito séria. “Mas eu consigo.”
“Claro que você consegue,” disse Emily.
Todos entraram na caminhonete e Daniel ligou a ignição. O motor ganhou vida com um ruído estridente.
“Quando eu chegar em casa, posso começar a decorar a pousada para o Natal?” perguntou Chantelle do banco de trás.
Emily riu e olhou por cima do ombro para ela. “Ainda nem saímos do clima de Ação de Graças.”
“Eu sei,” respondeu Chantelle. “Mas eu adoro o Natal. Mal posso esperar para trocar minhas bandeirinhas de folhas de outono pelas de floco de neve.”
Daniel começou a rir. Olhou para Chantelle pelo espelho retrovisor.
“Você pode decorar a pousada como quiser,” disse ele.
Emily sorriu por dentro. Ela amava a criatividade de Chantelle e adorava o modo como sua casa era transformada pelas mãos da criança para todas as festas, todas as estações. Ela não trocaria por nada no mundo – nem as aranhas de plástico do Halloween que ela encontrava atrás dos móveis, nem as bandeirolas americanas entre as tábuas do piso, depois do dia 4 de Julho. Sua vida era perfeita. Dedos cruzados, continuaria assim.
*
Alguns minutos depois, chegaram em casa e Daniel estacionou do lado de fora da pousada. O vasto caminho estava completamente vazio agora. Sem carros de hóspedes preenchendo o espaço exterior, o percurso parecia subitamente longo.
Subiram os degraus da varanda e entraram pela grande porta da pousada. Quando entraram, Emily descobriu, para sua surpresa, que as decorações do outono já haviam desaparecido. Ela só tinha saído de casa por algumas horas, mas alguém havia transformado a pousada de volta em uma tela em branco. Quem poderia ter feito isso?
Ela pensou em Lois e Marnie usando parte do seu tempo extra durante seu longo turno para arrumar, ou talvez Vanessa tivesse feito isso durante a limpeza. Mas então ouviu vozes vindo da sala de estar e instantaneamente percebeu quem instigara a arrumação.
Emily entrou na sala de estar e lá estava a culpada: Amy. Amy era tão organizada que não surpreenderia que ela tivesse imediatamente retirado toda a decoração de Ação de Graças.
E não estava sozinha. Sentada no sofá ao seu lado, junto à lareira acesa, com a cabeça de Mogsy descansando no colo, bebendo o que parecia ser chocolate com marshmallows, estava Patricia. A mãe de Emily não só tinha gostado de marshmallows desde a sua primeira experiência com smores, como tinha aprendido a apreciar o amor de um cão fedorento largando pelos. E, o mais importante, ela ficou durante todo o fim de semana de Ação de Graças. Era um milagre, na opinião de Emily, que ela e a mãe tivessem passado três dias inteiros juntas sem se matarem. As coisas realmente pareciam estar mudando para melhor. De fato, Emily estava um pouco melancólica por sua mãe ter de ir embora hoje.
“Amy!” exclamou Chantelle quando viu a amiga de Emily sentada no sofá. “Podemos decorar a pousada para o Natal. Você conseguiu as coisas?”
Emily franziu a testa e olhou para Daniel, perplexa. Pela sua expressão, ela poderia dizer que ele estava tão animado quanto ela.
“Claro que sim,” respondeu Amy com um sorriso.
Ela pegou uma sacola grande ao lado do sofá, onde estava fora de vista. Emily podia ver tecidos prateados brilhantes, flocos de neve reluzentes e pingentes de plástico cobrindo o topo da bolsa estofada.
“O que é tudo isso?” exclamou ela. “Vocês estiveram aprontando! Vocês duas!”
Ela fez cócegas na barriga de Chantelle e a menininha gritou. Então ela escapou dos dedos de Emily e correu para Amy, pegando a bolsa e olhando para o que tinha dentro.
“Isso é tão legal,” disse ela a Amy. “Podemos começar agora?”
Amy olhou para Emily como se esperasse aprovação.
“Não olhe para mim,” riu Emily, mantendo as mãos em posição de trégua. “Vocês duas claramente já planejaram tudo!”
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