Era o tipo de resposta que Rahvin compreendia. Não que confiasse nela, claro, ou em qualquer um dos demais, mas de ambição ele entendia. Os Escolhidos haviam tramado galgar posições entre si desde o dia em que Lews Therin os aprisionara ao selar a prisão do Grande Senhor, e haviam recomeçado assim que foram libertados. Rahvin só precisava ter certeza de que o plano de Lanfear não comprometia os dele.
— Prossiga — disse a ela.
— Primeiro, existe outra pessoa tentando controlá-lo. Talvez para matar. Suspeito de Moghedien ou Demandred. Moghedien sempre tentou agir às escondidas, e Demandred sempre odiou Lews Therin. — Sammael sorriu, ou talvez tenha sido uma careta, mas seu ódio empalidecia diante do ódio de Demandred, ainda que fosse por uma causa maior.
— Como pode saber que não é um dos que estão aqui? — indagou Graendal, casualmente.
O sorriso de Lanfear expôs tantos dentes quanto o da outra mulher, e a mesma frieza.
— Porque vocês três preferem construir os próprios nichos e garantir seu poder, enquanto o resto vive se enfrentando. E por outros motivos. Eu disse que vigio Rand al’Thor de perto.
O que ela dissera sobre os três era verdade. O próprio Rahvin preferia a diplomacia e a manipulação ao conflito aberto, embora não se esquivasse da luta, caso fosse necessária. Sammael sempre escolhera exércitos e conquistas, e jamais chegaria perto de Lews Therin, mesmo renascido como um pastor, até ter certeza da vitória. Graendal também almejava conquistas, apesar de seus métodos não envolverem soldados. Como se preocupava demais com seus brinquedos, se movia devagar e com cautela. Agia abertamente, até porque os Escolhidos apreciavam isso, mas nunca dava um passo maior do que a perna.
— Vocês sabem que posso ficar de olho nele sem ser vista — continuou Lanfear —, mas os três precisam ficar longe, ou correm o risco de ser detectados. Precisamos atraí-lo de volta…
Graendal inclinou-se para a frente, interessada, e Sammael começou a balançar a cabeça em concordância à medida que Lanfear prosseguia. Rahvin escondeu sua opinião. Talvez o plano funcionasse. Se não… Se não, ele via várias maneiras de moldar os acontecimentos em seu proveito. Sim, aquilo poderia funcionar muito bem.
A Roda do Tempo gira, e Eras vêm e vão, deixando memórias que se transformam em lendas. As lendas desvanecem em mitos, e até o mito já está há muito esquecido quando a Era que lhes deu origem retorna. Em uma Era, chamada por alguns de a Terceira Era, uma Era ainda por vir, uma Era há muito passada, um vento se ergueu na grande selva chamada de Floresta de Braem. O vento não era o início. O girar da Roda do Tempo não tem inícios nem fins. Mas era um início.
Seco, ele soprava a sul e a oeste sob um sol de ouro fundido. Fazia longas semanas que a terra não via chuva, e o calor do fim do verão aumentava a cada dia. Folhas marrons precoces pontuavam algumas árvores, e pedras nuas assavam onde outrora pequenos riachos haviam corrido. Em um descampado de onde a grama sumira e apenas arbustos fracos e ressecados prendiam suas raízes ao solo, o vento começou a desenterrar pedras há muito escondidas. Estavam surradas e desgastadas, e nenhum olho humano as teria reconhecido como as ruínas de uma cidade lembrada em histórias, mas já esquecida fora delas.
Havia aldeias dispersas no caminho antes de o vento cruzar a fronteira de Andor, bem como campos onde fazendeiros aflitos enfrentavam penosamente os sulcos áridos. Fazia tempo que a floresta fora reduzida a matagais quando o vento varreu a poeira ao longo da única rua de uma aldeia chamada Fontes de Kore. Naquele verão, as nascentes começavam a minguar. Alguns cães estavam deitados, ofegantes, no calor, e dois garotos corriam sem camisa, golpeando uma bexiga empalhada com pedaços de pau, fazendo-a rolar pelo chão. Nada mais se movia, exceto o vento, a poeira e a placa que rangia acima da porta da estalagem de tijolos vermelhos e telhado de palha, como todas as outras construções ao longo da rua. Com seus dois andares, era a maior e mais alta estrutura de Fontes de Kore, uma cidadezinha ordeira e arrumada. Os cavalos encilhados amarrados à frente da estalagem mal abanavam as caudas. No entalhe da placa na porta, lia-se “A Justiça da Boa Rainha”.
Piscando para afastar a poeira, Min mantinha o olho colado à fresta da grossa parede do celeiro. Só conseguia enxergar um dos ombros do guarda à porta, mas toda a sua atenção estava voltada para a estalagem mais adiante. Min gostaria que o nome do local não fosse tão ameaçadoramente adequado. O juiz da aldeia, o lorde local, parecia ter chegado algum tempo antes, mas ela não conseguira vê-lo. Com certeza ele agora estava ouvindo as acusações do fazendeiro; Admer Nen, assim como seus irmãos, primos e as esposas de todos eles, pareciam a favor do enforcamento imediato, até que um dos empregados do lorde aparecera. Min se perguntava qual seria a pena daquela vila para alguém que incendiara o celeiro de um homem, e com as vacas leiteiras dentro. Fora sem querer, claro, mas ela não acreditava que isso contaria muito, já que tudo começara com uma invasão.
Na confusão, Logain acabara escapando e abandonando-as — típico dele, que o queime! —, e ela não sabia se deveria ficar feliz com aquilo ou não. Ele derrubara Nen quando o grupo fora descoberto, pouco antes do amanhecer, fazendo a lamparina do homem voar pelos ares e cair no meio da palha. Se havia um culpado, era Logain. E às vezes ele tinha dificuldade em ficar de boca fechada. Talvez fosse mesmo melhor ele ter partido.
Girando para se recostar contra a parede, Min limpou o suor da testa, que logo tornou a ficar molhada. O interior do celeiro era sufocante, mas suas duas companheiras nem pareciam se dar conta disso. Siuan estava deitada de costas e usava um vestido de cavalgada de lã escura, parecido com o de Min. Tinha o olhar fixo no teto do celeiro e, com uma palhinha, cutucava o queixo despreocupadamente. Com a pele acobreada, tão alta quanto a maioria dos homens, a longilínea Leane estava sentada de pernas cruzadas enquanto trabalhava com agulha e linha em seu vestidinho bege. Após terem sido revistadas em busca de espadas, machados ou quaisquer objetos que as ajudassem a escapar, tiveram permissão para ficar com os alforjes.
— Qual é a pena por incendiar um celeiro em Andor? — perguntou Min.
— Se tivermos sorte — respondeu Siuan, sem se mexer —, ficaremos amarradas na praça da aldeia. Com menos sorte, seremos açoitadas.
— Pela Luz! — ofegou Min. — Como pode chamar isso de sorte?
Siuan rolou para ficar de lado e se apoiou no cotovelo. Era uma mulher forte e muito bonita que aparentava ser pouco mais velha que Min. No entanto, seus penetrantes olhos azuis tinham uma presença tão marcante que não combinavam com uma jovenzinha aguardando julgamento em um celeiro. Às vezes, Siuan era tão descuidada com as palavras quanto Logain, ou pior.
— Depois que nos desamarrarem — disse ela com tom de quem não suporta asneiras e tolices —, o problema vai ter acabado, e estaremos livres. Vamos ter desperdiçado menos tempo do que com qualquer outra pena que me venha à cabeça. Consideravelmente menos, digamos, do que com um enforcamento, apesar de eu achar, pelo que conheço das leis de Andor, que não vai chegar a tanto.
Min soltou uma risada curta e ofegante. Era rir ou chorar.
— Tempo? Do jeito que a coisa vai, o que não nos falta é tempo. Eu poderia jurar que já passamos por todas as aldeias entre aqui e Tar Valon e não encontramos nada. Nem um sinal, nem um murmúrio. Acho que nem existe reunião alguma. Além disso, agora estamos a pé. Pelo que ouvi, Logain levou os cavalos. A pé e trancadas em um celeiro, esperando sabe a Luz o quê!
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