- Eu entrei no prédio e depois fui para o segundo andar, no nosso apartamento. Quando eu coloquei a chave na porta para abrir, escutei o pai lá dentro. Então entrei. Fechei a porta para ir até a sala, mas vi o corpo da mãe. No fim da escada. O braço direito dela estava preso embaixo do corpo. O nariz parecia destruído e tinha sangue por tudo. A maioria do rosto estava coberto de sangue. No tapete inteiro, no final da escada. Acho que meu pai pode ter tentado mexer no corpo...
Chloe parou ali. Ela estava achando difícil focar apenas nos cadarços velhos. Ela conhecia a cena que estava descrevendo muito bem para ignorá-la.
- Danielle está em pé ali, do lado dela. Tem sangue nas mãos e nas roupas. O pai está falando muito alto no telefone, falando para alguém vir rápido, houve um acidente. Quando ele sai, ele olha para mim e começa a chorar. Ele jogou o telefone pela sala, bateu contra a parede. Ele veio até nós e se abaixou. Pediu desculpas... disse que a ambulância estava a caminho. Depois olhou para Danielle e nós quase não entendemos o que ele disse sob as lágrimas. Ele disse que Danielle precisava subir e trocar de roupa.
Ela foi e eu a segui. Perguntei para ela o que tinha acontecido, mas ela não falava comigo. Ela nem chorava. De repente, começamos a ouvir sirenes. Ficamos ali com o pai, esperando que ele nos dissesse o que ia acontecer depois. Mas ele nunca disse. A ambulância chegou, depois a polícia. Um policial amigo nos levou para fora, na varanda, e ficou ali com a gente até meu pai sair algemado. Até eles tirarem o corpo da mãe...
De repente, a imagem dos cadarços havia desaparecido. Ela estava de volta na varanda, esperando pela avó. O policial gordo estava com ela, e mesmo que não o conhecesse, ele a fazia sentir-se segura.
- Você está bem? – Skinner perguntou.
- Sim – ela disse, com um sorriso nervoso. – A parte do meu pai jogando o telefone... Eu tinha esquecido completamente disso.
- E lembrar disso fez você se sentir como?
Era uma pergunta difícil de responder. Seu pai sempre teve um temperamento forte, mas vê-lo fazendo aquilo depois o que aconteceu com sua mãe quase o fazia parecer fraco e vulnerável.
- Me fez ficar triste por ele.
- Você chegou a culpá-lo pela morte da sua mãe desde que isso aconteceu? – Skinner perguntou.
- Honestamente, depende do dia. Depende do meu humor.
Skinner assentiu e saiu de sua postura estátua. Ele levantou e olhou para baixo, para Chloe, com um sorriso tranquilizador.
- Acho que está bom por hoje. Por favor, me ligue se você tiver algum tipo de reação a alguma cena de crime de novo. E eu gostaria de te ver novamente logo. Podemos marcar uma consulta?
Chloe pensou naquilo e assentiu.
- Podemos, mas meu casamento está chegando, e temos reuniões com decoradora, buffet... é um saco. Posso ligar quando tiver um dia disponível?
- Claro. E até lá... fique perto do Agente Greene. Ele é um cara do bem. E foi muito direto comigo. Por favor, saiba que, nesse ponto da sua carreira, precisar conversar com alguém como eu não é nada ruim. Não tem nada a ver com seu talento.
Chloe assentiu. Ela sabia disso, mas era bom escutar Skinner dizer. Ela levantou-se e o agradeceu. Ao sair pela porta e entrar na sala de espera, viu seu pai jogando o telefone. Mas depois, ele fez um comentário—algo que ela não tinha esquecido, mas que passara despercebido até hoje.
Ele olhara para Danielle e, com um pouco de urgência na voz, dissera: Danielle, meu amor... troque de roupa. Não temos muito tempo até eles chegarem.
Aquele comentário ficou na mente de Chloe durante boa parte da tarde, atormentando-a e fazendo-a bater em uma porta na qual ela tinha evitado bater pelos últimos dezessete anos.
Danielle acordou às oito em ponto, sentindo-se como se não tivesse dormido nada. Ela havia chegado do trabalho às 2:45 e caído na cama às 3:10. Geralmente, não tinha problemas para dormir até as onze—às vezes até mais—mas quando abriu os olhos às 08:01 da manhã, não conseguiu voltar a dormir. Na verdade, ela não estava dormindo bem desde que soubera que Chloe estava voltando para a cidade. Sentia que seu passado estava a seguindo, e não pararia até destruí-la completamente.
Cansada e irritada, Danielle tomou um banho e comeu seu café da manhã. Fez tudo isso escutando o álbum Too Dark Park, de Skinny Puppy. Ao colocar a louça do café na pia, percebeu que precisaria ir ao mercado naquele dia. Na maioria das vezes, isso não a incomodava. Mas havia dias em que ela sentia que sair em público era um erro... que as pessoas estavam a olhando, esperando por ela para foder com sua vida e apontar dedos.
Ela também tinha medo de sair e permitir que o autor das cartas a seguisse. Num dia desses, pensou, o autor poderia parar de brincar e simplesmente matá-la.
Talvez aquele fosse o dia.
Ela dirigiu até o mercado, totalmente consciente de que aquele seria um desses dias... daqueles onde ela teria medo de tudo. Um desses dias onde ela ficaria olhando sempre por cima dos ombros. Dirigiu rapidamente, passando até por um sinal vermelho, querendo chegar logo.
Desde que começara a receber os bilhetes perturbadores debaixo da porta, Danielle sentia-se ansiosa ao ficar em lugares públicos por muito tempo. Era muito fácil imaginar que a pessoa que estava escrevendo as cartas estava a seguindo. Mesmo no trabalho, ela imaginava que o autor poderia estar sentado no bar, recebendo drinks dela. Quando pegava comida chinesa, imaginou que ele poderia estar a seguindo, esperando para finalmente pegá-la quando ela voltasse para o carro. Será?
Mesmo depois de chegar em segurança até seu destino, correndo até o mercado e praticamente correndo com o carrinho pelos corredores, o medo estava presente. O autor das cartas poderia estar ali com ela, seguindo seus passos a alguma distância, talvez olhando de longe, ou através da prateleira de cereais.
Era um medo real, que passava por sua cabeça, um dia depois do que acontecera com Martin. A paranoia não lhe deixava, fazendo-a abaixar a cabeça e encolher os ombros. Se alguém quisesse ver seu rosto, precisaria de um motivo muito bom, a ponto de fazê-la parar e levantar a cabeça.
Ela odiava que fosse assim. Sempre enfrentara esse tipo de problemas, e era por isso que a maioria de seus relacionamentos raramente duravam mais do que um mês. Ela sabia que havia construído uma reputação de ser um pouco vadia durante sua primeira passagem por Pinecrest, mas não porque ela gostava de dormir por aí. Era porque, quando conseguia se sentir confortável o suficiente para dormir com um cara, começava a pensar o pior dele. Terminava o relacionamento, tirava um tempo para se recuperar, e começava tudo de novo.
Ela havia melhorado um pouco quando se mudara novamente para Pinecrest, alguns anos antes. Deixara Boston e sentira que estava dando um passo atrás... mas tudo bem. Pelo menos, estava voltando para algo familiar. O mais difícil era se acostumar ao cenário estagnado de namoros. No começo, estava tudo bem, mesmo que estragando todas as relações que começava. Por isso a briga com Martin não saía de sua cabeça.
Claro, havia o lado ruim de Pinecrest. Muitas pessoas lembravam-se dela e de Chloe. Eles lembravam das pobres garotinhas Fine, que acabaram morando com os avós depois que a mãe morreu e o pai foi preso.
- Danielle, é você?
Ela virou-se em direção à voz, assustada. Estava tão perdida em seus pensamentos que expusera o rosto completamente para pegar uma caixa de Froot Loops. Encontrou-se olhando para um rosto do passado—uma mulher que parecia terrivelmente familiar, mas da qual ela não conseguia se lembrar.
- Você não lembra de mim? – A mulher perguntou, sem saber se estava ofendida ou achando graça. Ela provavelmente tinha cerca de quarenta e cinco, talvez cinquenta anos. E não, Danielle não se lembrava dela.
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