“Porque piratas são legais!”, disse Lowell, que desde então havia guardado o celular.
Lawson riu. "Eu não posso discordar. Mas não, esse não é o ponto. Estamos falando de piratas porque a Guerra Tripolitana representa algo raramente visto nos anais da história.” Ele se endireitou, examinando a sala e fazendo contato visual com vários alunos. Pelo menos agora Lawson podia ver a luz em seus olhos, um vislumbre de que a maioria dos estudantes estavam vivos esta manhã, mesmo se não estivessem atentos. “Por séculos, literalmente, nenhuma das potências europeias queria resistir às nações da Barbária. Era mais fácil apenas pagá-los. Foi preciso que a América, que na época era uma piada para a maior parte do mundo desenvolvido, fizesse a mudança. Foi preciso um ato de desespero de uma nação que foi irremediavelmente desarmada para provocar uma mudança na dinâmica de poder da rota comercial mais valiosa do mundo na época. E aí está a lição.
"Não mexa com a América?" Alguém lançou.
Lawson sorriu. "Bem, sim." Ele enfiou um dedo no ar para explicar sua visão. “Mas, além disso, o desespero e uma total falta de escolhas viáveis levaram, historicamente, a alguns dos maiores triunfos que o mundo já viu. A história nos ensinou, repetidas vezes, que não existe um regime grande demais para tombar, não há nenhum país pequeno demais ou fraco demais para fazer uma diferença real. Ele piscou. "Pense nisso da próxima vez em que você estiver se sentindo como um pouco mais do que uma partícula neste mundo."
No final da aula, havia uma diferença marcante entre os alunos que se arrastavam cansados, mas que haviam entrado, e o grupo que conversava e ria fora da sala de aula. Uma garota de cabelos cor-de-rosa parou ao lado de sua mesa para sair sorrindo e comentar: “Ótima conversa, professor. Qual é mesmo o nome daquele tenente americano que você mencionou?
"Ah, Stephen Decatur."
"Obrigada." Ela anotou e correu corredor afora.
"Professor?"
Lawson olhou para cima. Era o garoto do segundo ano na primeira fila. “Sim, Sr. Garner? O que posso fazer por você?"
“Imaginando se posso pedir um favor. Estou me candidatando a um estágio no Museu de História Natural, e devo usar uma carta de recomendação.”
“Claro, tranquilamente. Mas você não é um especialista em antropologia?”
"Sim. Mas achei que uma carta sua poderia ter um pouco mais de peso, sabe? E, bem... O garoto olhou para os sapatos. "Esta é uma das minhas aulas favoritas."
"Sua aula favorita até agora." Lawson sorriu. "Eu ficaria feliz em fazer isso. Trarei para você amanhã. Ah, na verdade, eu tenho um compromisso importante hoje à noite que não posso perder. Que tal na sexta-feira?”
“Sem pressa. Sexta-feira está ótimo. Obrigado professor. Até mais!” Garner correu corredor afora, deixando Lawson sozinho.
Ele olhou ao redor do auditório vazio. Essa era a sua hora favorita do dia, entre as aulas, a satisfação da anterior se misturava com a antecipação da próxima.
Seu telefone tocou. Era uma mensagem de texto de Maya. Em casa até às 5:30?
Sim, ele respondeu. Não perderia isso. O "engajamento importante" daquela noite era a noite de jogos na casa dos Lawson. Ele amava dedicar seu tempo extra às suas duas meninas.
Legal, sua filha mandou uma mensagem de volta. Eu tenho novidades.
Que novidades?
Mais tarde, ela respondeu. Ele franziu a testa para a mensagem vaga. De repente, o dia passou a parecer muito longo.
*
Lawson arrumou sua bolsa carteiro, vestiu seu casaco de inverno e correu para o estacionamento enquanto seu dia de aula chegava ao fim. O mês de fevereiro em Nova York era tipicamente frio e, ultimamente, estava ainda pior. O mais leve dos ventos era absolutamente gélido. Ele ligou o carro e deixou o motor aquecer por alguns minutos, colocando as mãos sobre a boca e soprando a respiração quente sobre os dedos congelados. Este era seu segundo inverno em Nova York, e não parecia que ele estava se acostumando com o clima mais frio. Na Virgínia, ele achava que cinco graus em fevereiro era frio. Pelo menos não está nevando, ele pensou. Ainda bem.
O trajeto do campus da Columbia para casa era de apenas 11 quilômetros, mas o tráfego nessa hora do dia era pesado e os passageiros em geral, estavam irritados. Reid driblava isso com áudio livros, recentemente recomendados por sua filha mais velha. No momento, ele estava ouvindo O nome da rosa, de Umberto Eco, embora hoje ele mal tenha conseguido ouvir aquelas palavras. Ele estava pensando na mensagem enigmática de Maya.
A casa dos Lawson era um bangalô de dois andares, feito de tijolos marrons em Riverdale, no extremo norte do Bronx. Ele amava o bairro bucólico e suburbano, a proximidade da cidade e da universidade, as ruas sinuosas que davam lugar a largas avenidas para o sul. As garotas adoravam também, e se Maya fosse aceita na Columbia, ou até mesmo na escola de segurança da NYU, ela não teria que sair de casa.
Reid imediatamente soube que algo estava diferente quando ele entrou na casa. Ele podia sentir o cheiro no ar, e ele ouviu as vozes abafadas vindas da cozinha no final do corredor. Ele largou a bolsa e tirou silenciosamente seu casaco esportivo antes de sair cuidadosamente do saguão.
“O que está acontecendo aqui?" Ele perguntou como se fosse um cumprimento.
“Oi, papai!” Sara, sua filha de quatorze anos, saltou na ponta dos pés enquanto observava Maya, sua irmã mais velha, realizar algum ritual suspeito sobre uma assadeira Pyrex. "Estamos fazendo o jantar!"
"Eu estou fazendo o jantar", Maya murmurou, sem olhar para cima. "Ela só observa."
Reid piscou surpreso. "OK. Eu tenho algumas perguntas. Ele olhou por cima do ombro de Maya enquanto ela passava algo brilhante e arroxeado em uma fileira de costeletas de porco. "Começando com... Hã?"
Maya ainda não olhou para cima. “Não me olhe daquele jeito,” ela disse. “Já que eles vão manter a obrigatoriedade do curso de gestão do lar e da comunidade, eu farei disso algo útil." Finalmente, ela olhou para ele e sorriu timidamente. "E não fique mal-acostumado."
Reid levantou as mãos defensivamente. "Certamente."
Maya tinha dezesseis anos e era perigosamente esperta. Ela claramente herdou o intelecto da mãe; ela estava no último ano letivo por ter pulado a oitava série. Ela tinha o cabelo escuro, o sorriso pensativo e o talento dramático de Reid. Sara, por outro lado, tinha o visual inteiramente como o de Kate. Quando ela se tornou uma adolescente, às vezes, era doloroso para Reid olhar para o rosto dela, embora ele nunca demonstrasse isso. Ela também tinha o temperamento explosivo de Kate. Na maioria das vezes, Sara era um amor de pessoa, mas de vez em quando ela explodia, e as consequências poderiam ser devastadoras.
Reid assistiu com espanto quando as meninas colocaram a mesa e serviram o jantar. "Está incrível, Maya," ele comentou.
"Ah, espere. Mais uma coisa. Ela pegou algo da geladeira - uma garrafa marrom. "A belga é a sua favorita, certo?"
Reid estreitou os olhos. "Como você…?"
"Não se preocupe, a tia Linda comprou ela para mim." Ela retirou a tampa e despejou a cerveja em um copo. "Isso. Agora podemos comer.”
Reid ficou extremamente grato por ter a irmã de Kate, Linda, a poucos minutos de distância. Ganhar o cargo de professor associado e criar duas meninas adolescentes teria sido uma tarefa impossível sem ela. Foi uma das principais motivações para a mudança para Nova York, assim as garotas teriam uma influência feminina positiva por perto. (Embora tivesse que admitir, que não gostou de saber que a Linda comprou cerveja para a sua filha adolescente, mesmo sendo para ele beber.)
"Maya, que maravilha,” ele disse depois da primeira mordida.
"Obrigada. É um molho chipotle.
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