“Você vai destruir suas costas se continuar dormindo nquele sofá dobrável”, Emily concordou. Então, teve uma inspiração. “Mude-se para cá”.
Daniel hesitou por um momento. “Não está falando sério. Está tão ocupada que não tem como acomodar nós dois”.
“Quero que vocês se mudem”, Emily insistiu. “Quero que Chantelle tenha espaço e o seu próprio quarto”.
“Não precisa fazer isso”, Daniel disse, ainda resistente.
“E você não precisa ficar sozinho. Estou aqui para você. Faz muito mais sentido do que ver vocês dois apertados na antiga garagem”. Ela o abraçou mais.
“Mas não pode se dar ao luxo de desistir de um dos quartos de hóspedes, pode?”
Emily sorriu. “Lembra-se de quando falamos sobre transformar a antiga garagem em um chalé, separado da pousada? Bem, agora não seria o momento perfeito? Chantelle pode ficar com o quarto ao lado da suíte, perto de nós. Pode ter sua própria chave, por segurança. Então, você pode reformar a antiga garagem a tempo para o feriado de Ação de Graças. Tenho certeza que atrairá muitos hóspedes”.
Daniel olhou para Emily com uma expressão séria. Ela não sabia de onde vinha a resistência dele. A ideia de morar com ela era tão terrível que preferia ficar naquela antiga garagem apertada?
Mas, por fim, ele assentiu. “Você está certa. A antiga garagem não é o melhor para uma criança”.
“Você vai se mudar para a minha casa?” Emily disse, levantando as sobrancelhas, animada.
Daniel sorriu. “Sim”.
Emily jogou os braços ao redor do namorado e sentiu que ele apertou ainda mais o abraço.
“Mas juro encontrar uma maneira de ganhar dinheiro, para poder nos sustentar”, Daniel disse.
“Pensaremos nisso em outra hora”, Emily disse. Estava feliz demais para pensar em detalhes. Tudo o que importava naquele momento era que Daniel iria morar com ela, e que tinham uma criança para amar e cuidar. Eles seriam uma família e Emily não podia estar mais feliz.
Então, sentiu seu hálito morno enquanto ele sussurrava em seu ouvido. “Obrigado. Do fundo do meu coração. Obrigado”.
*
“Então, você gostaria que este fosse seu quarto?” Emily perguntou.
Estava de pé com Chantelle na porta de um dos quartos mais adoráveis de toda a pousada. Daniel estava logo atrás delas.
Emily observou Chantelle se encantar com o quarto. A menina largou a mão de Emily e caminhou lentamente pelo cômodo, cuidadosa, como se não quisesse quebrar ou tirar nada do lugar. Foi até a grande cama com seus lençois limpos, carmim, e tocou-os com os dedos, levemente. Então, foi até a janela e olhou pelos jardins até o mar, cintilante, acima dos topos das árvores. Emily e Daniel observavam com a respiração suspensa enquanto a garotinha caminhava em silêncio pelo quarto, pegando suavemente o abajur e então devolvendo-o, e em seguida espiando dentro dos guarda-roupas vazios.
“O que acha?” Emily perguntou. “Podemos pintar as paredes se não gosta delas brancas. Mudar as cortinas. Pendurar algumas fotos suas”.
Chantelle se virou. “Adorei, do jeito que está. Posso mesmo ter um quarto?”
Emily sentiu Daniel ficar tenso atrás dela. Soube imediatamente o que estava pensando: que Chantelle, aos seis anos, nunca teve seu próprio quarto; que a vida que teve até agora tinha sido cheia de dificuldades e marcada pela negligência.
“Claro que pode”, Emily disse, sorrindo. “Porque não traz suas coisas para cá? Então, vai começar a sentir que realmente é seu quarto”.
Chantelle concordou e foram todos juntos pegar as coisas dela, na antiga garagem. Mas ao chegarem lá, Emily ficou chocada ao descobrir que a menina havia trazido apenas uma mera mochila.
“Onde estão as coisas dela?” perguntou a Daniel discretamente, enquanto voltavam para a casa.
“É tudo o que havia lá”, Daniel replicou. “Ela não tinha quase nada na casa do tio de Sheila. Perguntei e me disse que havia deixado tudo para trás quando foram despejadas”.
Emily ficou sem palavras. Partia seu coração pensar sobre as coisas terríveis pelas quais Chantelle passou em sua curta vida. Mais do que qualquer outra coisa, queria garantir que a menininha agora teria a chance de florescer e deixar o passado para trás. Emily esperava que, com amor, paciência e estabilidade, Chantelle poderia se recuperar do terrível começo em sua vida.
No novo quarto de Chantelle, Emily pendurou as poucas roupas que ela tinha nos cabides. Só havia dois pares de jeans, cinco camisetas e três suéteres. Não tinha meias suficientes para uma semana inteira.
A menina ajudou a arrumar suas calcinhas nas gavetas da cômoda. “Estou muito feliz por ter pais agora”, Chantelle disse.
Emily se sentou na ponta da cama, disposta a encorajá-la a se abrir. “Fico feliz em ter uma menininha adorável como você para passearmos juntas”.
A criança corou. “Quer mesmo passear comigo?”
“É claro!” Emily disse, um pouco surpresa. “Mal posso esperar para levá-la até a praia, passear de barco, brincar de jogos e jogarmos bola juntas”.
“Minha mãe nunca quis brincar comigo”, Chantelle disse, com uma voz tímida.
Emily sentiu o coração apertar. “Sinto muito ouvir isso”, ela disse, tentando não deixar a dor em seu coração transparecer na voz. “Bem, poderá brincar de muitas coisas agora. O que gostaria de fazer?”
Chantelle apenas deu de ombros, e ocorreu a Emily que sua criação havia sido tão sufocante que nem podia pensar em coisas divertidas para fazer.
“Aonde o papai foi?” ela perguntou.
Emily olhou sobre o ombro e viu que Daniel havia desaparecido. Ela, também, ficou preocupada.
“Provavelmente só foi pegar mais café”, Emily replicou. “Ei, tenho uma ideia. Por que não vamos até o sótão trazer alguns ursinhos de pelúcia para seu quarto?”
Ela havia cuidadosamente empacotado e guardado todos os seus brinquedos antigos, e também os de Charlotte, retirados do quarto interditado após a morte da irmã. Chantelle estava numa idade próxima à delas quando o quarto foi fechado, então, muitos dos brinquedos seriam adequados para ela.
O rosto de Chantelle se iluminou. “Você tem ursos de pelúcia no sótão?”
Emily assentiu. “E bonecas. Estão todos fazendo um piquenique, mas tenho certeza de que vão gostar de mais uma convidada. Vamos, vou mostrar o caminho”.
Emily levou a garotinha até o terceiro andar e então pelo corredor. Puxou a escada do sótão. Chantelle olhou para cima timidamente.
“Quer que eu vá primeiro?” Emily perguntou. “Para garantir que não há aranhas?”
Chantelle sacudiu a cabeça. “Não tenho medo de aranha”. Parecia orgulhosa de si.
Elas subiram juntas e Emily mostrou-lhe a caixa de brinquedos. “Pode pegar o que quiser daqui”.
“O papai vai vir brincar?” Chantelle perguntou.
Emily também queria Daniel por perto. Não tinha certeza para onde ele tinha ido, ou por que havia sumido. “Vou perguntar a ele. Você ficará bem aqui por um momento, não é, já que não tem medo de aranhas?”
Chantelle assentiu e Emily deixou a menina brincando. Desceu pelo terceiro e segundo andares procurando Daniel, e depois foi até o térreo. Encontrou-o na cozinha, parado ao lado da cafeteira, sem se mexer.
“Você está bem?” Emily perguntou.
Daniel se virou, surpreso. “Desculpe. Desci para pegar café e fiquei assoberbado demais com tudo”. Ele olhou para Emily e franziu o cenho. “Não sei como fazer isso. Ser pai. É confuso demais para mim.”
Emily se aproximou e acariciou seu braço. “Vamos descobrir juntos”.
“Só ouvi-la falar acaba comigo. Queria ter estado lá para ela. Protegido-a de Sheila”.
Emily envolveu-o nos braços. “Não pode olhar para trás e se preocupar com o passado. Tudo o que podemos fazer agora é dar nosso melhor para ajudá-la. Vai ser ótimo, prometo. Você vai ser um pai maravilhoso”.
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