Depois que todos estavam prontos, saíram da casa na antiga garagem e foram até a pousada. Chantelle ia chutando o cascalho pelo caminho, rindo com o barulho que fazia com seus sapatos. Não largou a mão de Daniel, apesar de não haver nada confortável no gesto para nenhum dos dois. Daniel parecia tenso e sem graça, como se tentasse desesperadamente não fazer nada de errado ou quebrar a criatura frágil de que agora precisava cuidar. Chantelle, por outro lado, parecia desesperada, como se nunca mais quisesse soltar Daniel, como se fazer isso lhe causasse um enorme sofrimento.
Emily não tinha certeza de como agir. Hesitante, pegou a outra mão da garotinha e ficou feliz e aliviada ao ver que Chantelle não se afastou ou puxou a mão. Ao invés, afrouxou um pouco o aperto no braço do pai.
De mãos dadas, os três subiram os degraus do terraço até a porta da frente e Emily abriu para que entrassem.
Chantelle ficou parada no batente, como se não soubesse se pertencia a um lugar assim. Olhou para Daniel, em busca de encorajamento. Ele sorriu e assentiu. Hesitante, a menina entrou na casa e Emily sentiu o coração balançar com a emoção. Lutou para não chorar.
Imediatamente, Emily teve a sensação de que Chantelle estava impressionada pela casa. Olhou ao redor, para a grande e larga escadaria com seu balaústre polido e carpete creme, para a luminária e a mesa da recepção, uma antiguidade comprada na loja de Rico. Parecia impressionada até pelos quadros e fotografias do corredor. Parecia uma criança entrando na casa do Papai Noel pela primeira vez.
Emily a levou para a sala de estar e Chantelle perdeu o fôlego ao ver o piano.
“Pode tocar se quiser”, Emily encorajou-a.
Chantelle não precisou ouvir duas vezes. Foi direto até o piano antigo, que ficava perto do janelão da sala, e começou a apertar as teclas.
Emily sorriu para Daniel. “Eu me pergunto se temos uma futura musicista nas mãos”.
Daniel observava Chantelle quase com um olhar de curiosidade, como se não pudesse acreditar que ela existia. Emily se perguntava se ele tinha tido algum contato com crianças antes. Ela havia cuidado das sobrinhas de Ben em várias ocasiões, então, tinha algum conhecimento. Daniel, por outro lado, parecia completamente perdido.
Nesse momento, Chantelle parou de tocar. O som incongruente que ela tirou do piano alertou os cães de que havia gente em casa, e começaram a latir na área de serviço.
“Gosta de cachorro?” Emily perguntou a Chantelle, decidindo que tinha que tomar a dianteira.
Chantelle assentiu com gosto.
“Eu tenho dois”, Emily continuou. “Chuva é o filhote e Mogsy é sua mãe. Quer conhecê-los?”
O sorriso de Chantelle ficou maior.
Enquanto Emily a levava pelo corredor, sentiu a mão de Daniel sem seu braço.
“É uma boa ideia?” perguntou, num sussurro, enquanto iam até a cozinha. “Não vão assustá-la? Ou morder?”
“É claro que não”, Emily tranquilizou-o.
“Mas ouvimos falar de cães devorando crianças o tempo todo”, ele murmurou.
Emily revirou os olhos. “São Mogsy e Chuva, lembra? São os cães mais tolinhos e bobalhões do mundo”.
Chegaram na cozinha e Emily apontou a área de serviço para Chantelle. No instante em que abriu a porta, viu os cães pulando e latindo para eles. Daniel ficou muito tenso ao ver Chuva correr em círculos ao redor de Chantelle, enquanto Mogsy punha as patinhas no suéter dela e tentava lambê-la. Mas Chantelle estava se divertindo como nunca. Ela se dissolveu numa nuvem de risadas felizes.
Os olhos de Daniel se abriram de surpresa. Emily soube instintivamente que era a primeira vez que ele ouvia a filha expressar tanta felicidade.
“Acho que gostam de você”, Emily disse para a menina, sorrindo. “Podemos brincar com eles lá fora, se quiser”.
Chantelle levantou para ela os imensos olhos azuis. Parecia tão feliz quanto uma criança no Natal.
“Verdade?” balbuciou. “Posso?”
Emily assentiu. “Claro”. Ela deu à menina alguns brinquedos de cachorro. “Vou observar vocês da janela”.
Abriu a porta dos fundos que levava ao quintal e os cães saíram correndo. Chantelle hesitou por um momento, insegura quanto a sair sozinha, em dar seu primeiro pequeno passo de independência. Mas, finalmente, encontrou sua autofiança, deu um passo para fora e jogou uma bola para os cães pegarem.
Quando Emily voltou para a cozinha, Daniel estava preparando uma garrafa de café fresco.
“Está tudo bem?” perguntou, gentil.
Daniel assentiu. “Não estou acostumado a isso. Minha maior preocupação é que ela se machuque. Queria envolvê-la em um escudo protetor macio como algodão”.
“É claro que sim”, Emily replicou. “Mas precisa deixá-la ter um pouco de independência”.
Daniel suspirou. “Como pode ficar tão à vontade com tudo isso?”
Emily deu de ombros. “Não acho que estou. Estou apenas improvisando. Ela está perfeitamente segura lá fora, desde que fiquemos de olho”.
Ela se encostou na pia da cozinha e olhou pela grande janela que dava para o quintal, onde Chantelle corria, os cães perseguindo-a, animados. Mas, enquanto observava, ficou subitmente surpresa pela semelhança de Chantelle com Charlotte, quando tinha a mesma idade. As semelhanças eram inquietantes, quase sobrenaturais. A visão fez com que outra das lembranças perdidas de Emily viesse à tona. Havia tido várias dessas lembranças espontâneas desde que se mudara para Sunset Harbor, e apesar da maneira abrupta como surgiam a deixar perplexa, ela valorizava cada uma. Eram como peças de um quebra-cabeça, ajudando-a a criar uma imagem de seu pai e da vida que tinham antes do desaparecimento dele.
Dessa vez, Emily lembrou quando teve uma febre terrível, talvez por causa de um resfriado. Só estavam os três novamente em casa, porque a mamãe não quis passar o feriadão em Sunset Harbor, então, seu pai estava dando tudo de si para cuidar dela. Lembrou-se de que um dos amigos do pai havia trazido seus cães, e que Charlotte podia brincar com eles, mas Emily estava doente demais e teve que ficar dentro da casa. Ela ficou tão chateada por não poder brincar com os cães que seu pai a havia levantado até a altura da janela – a janela da cozinha pela qual estava olhando agora – para assistir.
Emily se afastou da janela e perdeu o ar. Percebeu que estava chorando enquanto observava Chantelle se metamorfosear em Charlotte. Não pela primeira vez, teve uma forte sensação de que o espírito de Charlotte estava se comunicando com ela, de que estava de algum modo viva dentro de Chantelle e dando a Emily um sinal.
Nesse momento, Daniel aproximou-se e a envolveu nos braços. Ele era uma distração bem-vinda, então, ela reclinou a cabeça até descansar em seu peito.
“O que houve?” ele perguntou gentilmente, com uma voz que tentava acalmá-la.
Deve ter visto as lágrimas. Emily balançou a cabeça. Não queria falar com Daniel sobre o flashback, ou como sentia que o espírito de Charlotte parecia estar em Chantelle; não sabia como ele iria reagir.
“É só uma lembrança”, ela disse.
Daniel a abraçou mais forte, ninando-a de um lado para o outro. Como ele lidava com Emily nesses momentos estranhos parecia tão diferente da maneira como ele tratava Chantelle. Ele se sentia à vontade com Emily, e ela notava o quanto ficava mais confiante com ela, em comparação com sua filha. Havia se apoiado nele tantas vezes. Agora, era a vez dela ser alguém em quem ele podia se apoiar.
“Tudo isso é um pouco intenso demais, não é?” ela disse, por fim, virando para olhar para ele.
Daniel assentiu, com uma expressão angustiada. “Nem sei por onde começar. Preciso matriculá-la na escola, para começar. O segundo semestre começa na quarta-feira. Então, tenho que preparar um quarto para ela”.
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