E, então, a memória a atingiu como uma onda quebrando por todo seu corpo. Susan havia ligado para contar a Keri que sua própria filha, Evie, que fora raptada há seis anos, estava prestes a ser a participante central em uma cerimônia grotesca.
Susan havia descoberto que na próxima noite em uma casa em algum lugar de Hollywood Hills, Evie seria leiloada para quem fizesse a maior oferta, o qual teria permissão de ter com ela sexualmente antes de matá-la em um tipo de sacrifício ritualístico.
Foi por isso que eu desmaiei.
"Dê-me o telefone," ela ordenou a Ray.
"Eu não tenho certeza de que você já está pronta para isso," ele disse, obviamente sentindo que agora ela pedia se lembrar de tudo.
"Dê-me o maldito telefone, Ray."
Ele a entregou sem mais palavras.
"Susan, você ainda está aí?" ela disse.
"O que aconteceu?" exigiu Susan, sua voz no limite do pânico. "Em um minuto você estava aí e então nada. E pude ouvir alguma coisa acontecendo, mas você não respondeu."
"Eu desmaiei," admitiu Keri. "Precisei de um momento para me recompor."
"Oh," disse Susan baixinho. "Sinto muito por ter feito isso a você."
"A culpa não é sua, Susan. Apenas fui pega de surpresa. É muito para se processar de uma vez só, especialmente quando eu não estou me sentindo cem por cento."
"Como você está indo?" perguntou Susan, a preocupação em sua voz era quase palpável.
Ela estava se referindo às lesões de Keri, adquiridas em uma luta de vida ou morte com um sequestrador de crianças há apenas dois dias. Ela havia sido liberada do hospital somente na manhã de ontem.
Os médicos determinaram que os hematomas em seu rosto, onde o sequestrador havia lhe dado dois socos, juntamente com um peito bem machucado e um joelho inchado, não eram suficientes para mantê-la por mais um dia.
O sequestrador, um fanático desequilibrado chamado Jason Petrossian, levou a pior. Ela ainda estava no hospital com escolta armada. A garota que ele raptara, Jessica Rainey de doze anos de idade, estava se recuperando em casa com a família.
"Eu vou ficar bem," disse Keri tranquilizando-a. "Apenas algumas batidas e contusões. Fico feliz que você tenha ligado, Susan. Não importa o quão ruins sejam as notícias, saber é melhor do que não saber. Agora eu posso tentar fazer algo a respeito."
"O que você pode fazer, Detetive Locke?" disse Susan, sua voz ficando mais alta enquanto as palavras tropeçavam para fora. "Como eu disse, sei que Evie é o Prêmio de Sangue no Vista. Mas eu não sei onde ele vai acontecer."
"Acalme-se, Susan," disse Keri firmemente enquanto se colocava sentada. Sua cabeça se sentia um pouco tonta e ela não protestou quando Ray colocou uma mão de suporte em suas costas enquanto ele se sentava ao lado dela no sofá. "Vamos descobrir como encontrá-la. Mas, primeiro, eu preciso que você me diga tudo que você sabe sobre toda essa coisa do Vista. Não se preocupe em repetir. Eu quero cada detalhe que eu puder lembrar."
"Você tem certeza?" perguntou Susan hesitante.
"Não se preocupe. Estou bem agora. Eu só precisava de um momento para absorver tudo isso. Mas eu sou uma detetive da Unidade de Pessoas Desaparecidas. Isso é o que eu faço. Apenas porque eu estou procurando por minha própria filha, não muda o trabalho. Então, me conte tudo."
Ela apertou o botão do viva-voz para que Ray também pudesse ouvir.
"OK," disse Susan. "Como eu lhe disse antes, há um clube de ricos frequentadores de prostíbulos que promovem festas de sexo repentinas no Hollywood Hills. Eles as chamam de Hill House Parties. A casa é preenchida de garotas, quase todas prostitutas menores de idade como eu era. Eles normalmente as fazem a cada dois ou três meses e, na maior parte do tempo, eles dão apenas um aviso com poucas horas de antecedência, normalmente por mensagem de texto. Estou fazendo sentido?"
"Absolutamente," disse Keri. "Eu me lembro de você me contar sobre isso. Então, me lembre do evento Vista."
"O Vista é tipo a maior festa deles. Acontece apenas uma vez por ano e ninguém sabe quando. Eles gostam de dar um aviso um pouco maior nessa, porque ninguém quer perdê-la. Esse, provavelmente, é o motivo pelo qual minha amiga já ouviu falar dela, mesmo que ainda seja apenas amanhã à noite."
"E o Vista é diferente das outras House Hill Parties, certo?" incitou Keri, sabendo que Susan estava relutante em revisitar os detalhes, dando-a permissão para ela o fazer.
"Sim. Em todas as outras festas, os clientes pagam por qualquer garota que eles se interessem e fazem o que quiserem com ela. Os caras podem ficar com qualquer um que quiserem e uma garota pode ser usado à noite toda por qualquer um. Mas o Vista é diferente. Naquela noite, os organizadores escolhem uma garota─ela normalmente é especial de alguma forma─e a tornam o Prêmio de Sangue."
Ela parou de falar e Keri podia sentir que ela não queria continuar, não queria ferir a mulher que a resgatara e a ajudou a enxergar um futuro para si mesma.
"Está tudo bem, Susan," insistiu Keri. "Continue. Eu preciso saber de tudo."
Ela ouviu a garota dar um suspiro profundo no outro lado da linha antes de continuar.
"Então o evento começa por volta das nove da noite. Por um momento, é como qualquer outra festa Hill House comum. Mas, então, eles trazem a garota que fora escolhida como o Prêmio de Sangue. Como eu disse, normalmente há algo diferente a respeito dela. Talvez ela seja virgem. Talvez ela tenha acabado de ser raptada no dia, então ela tem estado nas notícias. Uma vez, foi uma ex-estrela infantil que foi pega pelas drogas e acabou nas ruas."
"E esse ano é Evie," instigou Keri.
"Sim, há uma garota chamada Lupita dos meus dias de prostituição em Venice com a qual eu mantenho contato. Ela ainda trabalha nas ruas e ela ouviu uns caras falando sobre como eles iriam usar a filha da policial esse ano. Eles estão usando o apelido 'mini porco' para descrevê-la."
"Muito criativo," resmungou Keri amargamente. "E você disse que eles a escolheram porque eu estou chegando muito perto?"
"Certo," confirmou Susan. "Os comandantes estavam cansados de mudá-la de lugar. Eles disseram que ela se tornou um risco com você constantemente caçando por ela. Eles querem apenas acabar com ela e jogar o corpo em algum lugar, para que você saiba que ela está morta e pare de procurar. Eu sinto muito, Detetive."
"Continue," disse Keri. Seu corpo estava dormente e sua voz soava como se estivesse vindo de algum lugar distante, fora de si.
"Então é basicamente um leilão. Todos grandes gastadores vão dar lances nela. Algumas vezes chega às centenas de milhares. Esses caras são competitivos. Mais ainda, há o fato de que, ao puni-la, é como se eles estivessem atingindo você. Tenho certeza de que isso aumentará o valor. E eu acho que eles estão todos excitados por como termina."
"Relembre-me dessa parte," perguntou Keri, fechando seus olhos para se preparar. Ela sentiu a hesitação de Susan, mas não pressionou, deixando a garota se juntar o que era necessário para contar. Ray se deslocou para um pouco mais próximo a ela no sofá e removeu o braços, enrolando-o em volta dos ombros dela.
"Quem quer que vença o leilão é levado para uma sala separada enquanto o Prêmio de Sangue é preparado. Ela é banhada e é posta em um vestido chique. Alguém a maquia no estilo de estrela de cinema. Então, ela é enviada para uma sala onde o cara tem a chance de ter com ela. A única regra é que ele não pode machucar o rosto dela."
Keri notou que a voz de Susan ficou mais dura, como se ela estivesse desligando a parte dela que sentia emoção para que pudesse passar por isso. Keri não a culpava. A garota continuou.
"Quero dizer, ele pode fazer coisas com ela agora, você sabe. Ele só não pode bater nela ou dar tapas acima do pescoço. Ela precisa estar bem apresentável para o grande evento depois. Eles não se importam se a máscara dela está borrada porque ela esteve chorando. Isso adiciona ao drama. Apenas sem hematomas."
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