Era bom ouvir Danielle interessada em seu trabalho. Não só isso, mas também querendo demonstrar esse interesse.
Houve um silêncio profundo entre as duas, que felizmente terminou com Danielle dizendo algo que não era do tipo dela.
- Cuide-se, Chloe. Com o trabalho... com nosso pai... com tudo.
- Vou me cuidar – Chloe disse, percebendo que o comentário da irmã a surpreendera.
Danielle encerrou a ligação, e Chloe olhou em volta em seu apartamento. Era difícil ver o lugar inteiro por conta de todas as tralhas, mas ela já sentia aquele lugar como sendo sua casa.
Nada como uma conversa estranha com Danielle para fazer um lugar parecer sua casa, ela pensou.
Devagar, esticando as costas, Chloe saiu da poltrona e foi até a caixa mais próxima. Ela começou a tirar as coisas, pensando em como sua vida seria se ela não soubesse como reconciliar seus relacionamentos. Fosse com sua irmã, com seu pai ou com seu ex-noivo, ela não tinha o melhor histórico quando se tratava de manter as pessoas por perto.
Ao pensar em seu ex-noivo, Chloe deparou-se com vários fotos emolduradas no fundo da primeira caixa. Havia três fotos, dela e de Steven. Duas eram muito antigas, quando eles só queriam saber de namorar. Mas a terceira era uma foto de depois de que ele havia a pedido em casamento... depois de que ela havia dito sim quase chorando.
Ela juntou as fotos fora da caixa e colocou-as na bancada da cozinha. Olhou em volta e encontrou a lixeira no canto da sala, ao lado do colchão. Chloe pegou as fotos e jogou-as na lixeira. O som do vidro quebrando em pedaços foi um pouco agradável demais.
Fácil assim, ela pensou. Mal posso esperar para deixar isso para trás. Mas por que você não pode deixar essa história sem noção com seu pai para trás assim fácil também?
Ela não tinha resposta para aquela pergunta. E o que mais a assustou foi que ela sentia que a resposta poderia estar em uma conversa com ele.
Com esse pensamento, o apartamento pareceu mais vazio do que antes, e Chloe sentiu-se muito sozinha. Esse mero pensamento a fez ir até a geladeira e abrir a caixa de cerveja que havia comprado mais cedo. Ela abriu uma garrafa, um pouco assustada com quão bom havia sido o primeiro gole.
Fez o que pode para se ocupar naquela tarde e até à noite, não tirando as coisas da caixa, mas sim vagarosamente passando uma por uma e tentando decidir se precisava de cada item. O troféu que havia ganho no debate no ensino médio foi para a lixeira. O CD de Fiona Apple que escutara quando perdera sua virgindade no segundo ano do ensino médio, ela guardou.
Todas as fotos de seu pai foram para o lixo. Doeu um pouco no começo, mas na quarta garrafa de cerveja, a tarefa tornou-se mais fácil.
Passou por duas caixas... e teria visto pelo menos mais uma se não tivesse ido até a geladeira e descoberto que, de alguma maneira, havia tomado a caixa inteira de seis cervejas. Olhou para o relógio acima do forno e suspirou ao ver a hora.
Eram quinze para uma da manhã. Muito tarde para dar tempo de descansar bem antes do meu primeiro dia, pensou.
Mas o mais preocupante era o fato de que ela estava mais triste com a caixa de cerveja vazia do que uma possível manhã “grogue” em seu primeiro dia no FBI. Chloe caiu na cama após escovar seus dentes, e o quarto girou um pouco. Então, percebeu que havia passado a noite inteira tentando fazer a si mesma não dar a mínima para a tentativa de apagar as memórias de seu pai.
Chloe não sabia ao certo o que esperar quando chegou à sede do FBI na manhã seguinte. Mas o que ela com certeza não esperava era ser recebida por um agente mais velho na entrada. Ela viu quando ele notou sua presença, e não teve certeza do que fazer quando percebeu que ele estava vindo diretamente em sua direção. Por um momento, ela pensou que fosse o Agente Greene, o homem que havia sido seu instrutor e parceiro em seu “quase caso”, que a levara a descobrir a verdade sobre seu pai.
Mas quando olhou melhor para o rosto do homem, viu que tratava-se de alguém bem diferente. Ele parecia durão e feito de pedra, e sua boca era desenhada em uma linha apertada em sua mandíbula.
- Chloe Fine? – O agente perguntou.
- Sim?
- O diretor Johnson gostaria de falar com você antes das orientações.
Aquilo a animou e a assustou. O diretor Johnson havia aberto exceções para ela quando ela fora parceira de Greene. Talvez ele estava mudando de ideia? As ações dela no última caso teriam trazido problemas para ele? Teria ela chegado tão longe apenas para ter seus sonhos destruídos no primeiro dia?
- Para que? – Chloe perguntou.
O agente encolheu os ombros, sem se importar com a pergunta.
- Por aqui, por favor – ele disse.
Ele a levou até os elevadores e, por um momento, Chloe sentiu-se como se estivesse voltando no tempo. Ela pode se ver entrando nos mesmos elevadores um pouco mais de dois meses antes, com o mesmo nó de preocupação no estômago, sabendo que iria encontrar o Diretor Johnson. E como da última vez, aquele nó de preocupação tomou conta de seu corpo inteiro quando o elevador começou a subir.
O agente com cara de durão a levou para fora do elevador quando ele parou no segundo andar. Eles passaram por vários escritórios e salas antes que o agente parasse na porta da sala de Johnson. A secretária na mesa assentiu educadamente, e disse:
- Você pode entrar. Ele está esperando por você.
O agente também assentiu para Chloe – não de um jeito tão educado – e fez um gesto em direção à porta do escritório. Estava claro que ele não iria entrar.
Fazendo o possível para manter-se calma, Chloe caminhou até a porta do diretor Johnson. Por que estou com tanto medo? Ela pensou. Na última vez que foi chamada na sala dele, ganhei responsabilidades e tarefas que a maioria dos agentes novos como eu não ganham. Aquilo era verdade, mas não serviu para acalmá-la.
O Diretor Johson estava sentado em sua mesa, lendo atentamente algo em seu notebook quando Chloe entrou. Quando ele olhou para cima, toda sua atenção estava nela. Ele até fechou a tela do notebook.
- Agente Fine – ele disse. – Obrigado por vir. Vamos levar só um segundo. Não quero que você perca nada das orientações—que, vou me adiantar e te dizer—também são muito rápidas e tranquilas.
Ouvir Agente Fine era algo que a animava muito, mas Chloe tentou não demonstrar. Ela sentou-se na cadeira em frente à mesa do diretor e sorriu o mais normalmente possível.
- Sem problemas - ela disse. – Eu... bem... tem algo errado?
- Não, não, nada disso – ele disse. – Eu queria lhe apresentar uma opção sobre suas responsabilidades. Eu sei que você está começando uma carreira na Equipe de Evidências. Isso é algo que você sempre buscou?
- Sim, senhor. Tenho uma visão muito boa para encontrar detalhes.
- Sim, eu soube disso. O Agente Greene falou muito bem de você. E mesmo com alguns tropeços nas coisas que aconteceram meses atrás, tenho que admitir—também fiquei muito impressionado. Você carrega uma confiança em si mesma e uma certeza inabalável que não é comum em novos agentes. E é por causa disso e do feedback do Agente Greene e de outros instrutores da academia que eu gostaria que você repensasse no departamento que você quer seguir.
- Você tem algum departamento particular em mente? – Chloe perguntou.
- Você conhece o PaCV?
- O Programa de Apreensão de Crimes Violentos? Sim, eu conheço um pouco.
- O título já diz tudo, mas acho que esse programa também se encaixa no seu talento para encontrar provas. Além disso, sendo muito sincero, a Equipe de Evidências tem um grupo grande de agentes primeiro-anistas desta vez. Melhor do que se perder no meio de tantos, eu acho que você se daria bem no PaCV. Isso te interessaria?
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