CAPÍTULO VINTE E TRÊS
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
CAPÍTULO VINTE E CINCO
CAPÍTULO VINTE E SEIS
CAPÍTULO VINTE E SETE
De todas as coisas que havia para odiar na Casa dos Não Reclamados, a roda de moagem era a que Sophia mais temia. Ela gemia enquanto empurrava com força um braço ligado ao poste gigante que desaparecia no chão, enquanto ao seu redor, as outras órfãs empurravam com impulso os deles. Empurrá-lo magoava-a e fazia transpirar, o seu cabelo ruivo a ficar embaraçado com o trabalho, o seu vestido cinzento e gasto ainda mais manchando com o suor. O seu vestido estava mais curto do que ela queria agora, subindo involuntariamente a cada passo e mostrando a tatuagem na sua barriga da perna com a forma de uma máscara, marcando-a como ela era: uma órfã, uma coisa possuída.
As outras miúdas ali tinham coisas ainda piores. Aos dezassete anos, Sophia era pelo menos uma das mais velhas e das maiores. A única pessoa mais velha no quarto era a Irmã O'Venn. A freira da Deusa Mascarada usava o hábito negro como o azeviche da sua ordem, juntamente com uma máscara de renda através da qual, todas as órfãs rapidamente perceberam, ela conseguia ver, até ao menor detalhe da falha. A irmã segurou a correia de couro com a qual costumava punir, flexionando-a entre as suas mãos enquanto ela zumbia num barulho de fundo, proferindo as palavras do Livro das Máscaras, homilias sobre a necessidade de aperfeiçoar almas abandonadas como elas
“Neste lugar, vocês aprendem a ser úteis” entoou ela. “Neste lugar, vocês aprendem a ser valiosas, como não vos ensinaram essas mulheres caídas em desgraça que vos deram à luz. A Deusa Mascarada diz-nos que devemos moldar o nosso lugar no mundo através dos nossos esforços, e hoje os vossos esforços rodam os pequenos moinhos manuais que moem o milho e... presta atenção, Sophia!”
Sophia encolheu-se ao sentir o impacto do cinto dela a estalar. Ela cerrou os dentes. Quantas vezes é que as irmãs já lhe tinham batido ao longo da sua vida? Por fazer a coisa errada, ou por não fazer o que é certo suficientemente rápido? Por ser suficientemente bonita ao ponto de isso constituir um pecado em si mesmo? Por ter a chama de uma ruiva que causa problemas?
E se elas soubessem sobre o seu talento. Ela estremeceu ao pensar nisso. Se assim fosse, elas tê-la-iam espancado até a morte.
“Estás a ignorar-me, sua idiota?” a freira exigiu. Ela batia-lhe sem parar. “Ajoelhem-se de frente para a parede, todas vocês!”
Essa era a pior parte: não importava se fazias tudo bem. As irmãs iriam bater em todas pelas falhas de uma miúda.
“Vocês precisam que vos recordem” disse a Irmã O'Venn, quando Sophia ouviu uma miúda gritar, “do que vocês são. De onde vocês estão.” Outra miúda gemeu quando a correia de couro atingiu a sua carne. “Vocês são as crianças que ninguém quis. Vocês são propriedade da Deusa Mascarada, a quem foi dado um lar através da sua graça.”
Ela percorreu o quarto em redor, e Sophia sabia que ela seria a última. A ideia era fazê-la sentir-se culpada pela dor das outras, e dar-lhes tempo para a odiarem por ela as ter colocado naquela situação, antes de lhe dar uma tareia.
A tareia pela qual ela estava ali ajoelhada à espera.
Quando ela poderia simplesmente se ir embora.
Esse pensamento veio a Sophia tão sem aviso que ela teve de verificar que não era um tipo de envio da sua irmã mais nova, ou que ela não o apanhara de uma das outras. Esse era o problema com um talento como o dela: vinha quando queria, e não quando chamado. No entanto, parecia que o pensamento era realmente dela e, mais do que isso, era verdade.
Era melhor arriscar a morte do que ficar ali mais um dia.
Claro, se ela ousasse a ir-se embora, a punição seria pior. Elas encontravam sempre uma maneira de a tornar pior. Sophia tinha visto miúdas que haviam roubado ou ripostado a morrer de fome durante dias, forçadas a ficar ajoelhadas, espancadas quando tentavam dormir.
Mas ela já não se importava. Algo dentro dela tinha passado uma linha. O medo não conseguia tocar em si, porque estava submerso no medo do que aconteceria em breve, de qualquer das maneiras.
Afinal, ela hoje fazia dezassete anos.
Ela já tinha idade suficiente para pagar a sua dívida de anos de “cuidado” nas mãos das freiras - para ser treinada e vendida como gado. Sophia sabia o que acontecia as órfãs que atingiam a maioridade. Comparado com isso, nenhuma tareia importava.
Ela andava a pensar nisto incessantemente há semanas, na verdade. A temer este dia, o dia do seu aniversário.
E agora tinha chegado.
Para seu próprio choque, Sophia agiu. Ela permaneceu calma, olhou em redor. A atenção da freira estava noutra miúda, chicoteando-a selvaticamente, pelo que rapidamente ela se escapou para a porta em silêncio. Provavelmente mesmo as outras miúdas não notaram, ou se o fizeram, ficaram muito assustadas para dizer alguma coisa.
Sophia entrou num dos corredores brancos e modestos do orfanato, movendo-se silenciosamente, afastando-se da sala de trabalho. Havia outras freiras lá fora, mas, desde que ela se movesse com propósito, tal poderia ser suficiente para evitar que elas a parassem.
O que é que ela tinha acabado de fazer?
Sophia continuou a caminhar pela Casa dos Não Reclamados aturdida, mal capaz de acreditar que ela estava realmente a fazer isto. Havia razões pelas quais eles não se incomodavam em trancar os portões da frente. A cidade além, logo depois dos seus portões, era um lugar austero - e ainda mais austero para aqueles que tinham começado a vida coma órfãos. Ashton tinha os ladrões e bandidos de todas as cidades - mas também continha os perseguidores que recapturavam os órfãos que fugiam e as pessoas livres que lhe cuspiriam para cima simplesmente pelo que ela era.
E depois, havia a sua irmã. Kate tinha apenas quinze anos. Sophia não queria arrastá-la para algo pior. Kate era dura, até mais dura do que Sophia, mas ainda assim era a sua pequena irmã.
Sophia deambulou até aos claustros e até ao pátio onde elas se misturaram com os rapazes do orfanato ao lado, tentando descobrir onde estaria a sua irmã. Ela não podia ir-se embora sem ela.
Ela estava quase lá quando ouviu uma miúda a gritar.
Sophia dirigiu-se para o som, meio suspeitando que a sua pequena irmã se tivesse metido noutra luta. Quando ela chegou ao pátio, no entanto, ela não encontrou Kate no centro de uma multidão de bruxas, mas outra miúda. Esta era ainda mais jovem, talvez com treze anos, e estava a ser empurrada e esbofeteada por três rapares que já deviam ter quase idade suficiente para serem vendidos para treinos ou para o exército.
“Parem com isso!” gritou Sophia, surpreendendo-se a si própria tanto quanto pareceu surpreender os rapazes que ali estavam. Normalmente, a regra era que se ignorasse o que quer que fosse que estivesse a acontecer no orfanato. Era que se ficasse quieto e se lembrasse do seu lugar. Agora, porém, ela aproximou-se.
“Deixem-na.”
Os rapazes pararam, mas apenas para olharem para ela.
O mais velho colocou os seus olhos sobre ela com um sorriso malicioso.
“Bem, bem, rapazes” disse ele, “parece que temos mais outra que não está onde deveria estar.”
Ele tinha feições contundentes e o tipo de olhar morto nos seus olhos que só se tinha por passar muitos anos na Casa dos Não Reclamados.
Ele deu um passo em frente e, antes que Sophia conseguisse reagir, ele agarrou-lhe o braço. Ela ia-lhe dar uma bofetada, mas ele foi demasiado rápido, e empurrou-a para o chão. Era em momentos como este que Sophia desejava ter as habilidades de luta da sua irmã mais nova, a sua capacidade de convocar uma brutalidade instantânea que Sophia, com toda a sua astúcia, simplesmente não era capaz.
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