Sam encolheu os ombros, olhando em volta pelo local com uma expressão quase teatral.
- Sinceramente, acho que não tem muita coisa para você fazer. Está tudo começando a se ajeitar. Eu sei que pode parecer bobo, mas talvez você possa começar a olhar o catálogo de bebidas e ver quais marcas você vai querer servir. Veja também onde você vai querer colocar as caixas de som, coisas assim. Esse tipo de coisa acaba ficando para trás e depois aparece como urgência na última hora.
- Posso fazer isso – Danielle disse, um pouco decepcionada.
Havia dias em que ela ia até a reforma e sentia que Sam estava na verdade somente a entretendo—dando a ela tarefas bobas enquanto ele cuidava das coisas importantes. Ela se sentia diminuída às vezes, mas precisava lembrar a si mesma que Sam sabia o que estava fazendo. Ele já tinha aberto três bares que estavam indo muito bem, sendo que um deles tinha sido vendido para uma grande empresa nacional no ano anterior, por mais de dez milhões de dólares.
E agora ele tinha decidido ajudá-la em seu próprio empreendimento. Ele havia precisado convencê-la do negócio. Insistira que ela tinha o que era preciso para gerenciar um lugar como aquele, mas apenas depois que tudo já estivesse no lugar.
A maioria das garotas que namoram caras semirricos ganham joias e carros, ela pensou ao caminhar para a área onde seria o lounge. Eu... ganhei um bar. Nada mal, eu acho.
Danielle sentia-se um pouco deslocada sempre que pensava no que viria pela frente. Ela seria de fato responsável por um estabelecimento. Controlaria tudo e tomaria decisões. Havia uma responsabilidade grande nisso. Ela sentia que a oportunidade fora dada a ela apenas porque tinha começado a namorar um cara que sabia como abrir negócios. Por conta disso, estava ciente de que precisaria sacrificar muitas coisas e simplesmente deixar Sam fazer outras. Ela nunca questionava as noites em que ele chegava tarde, sempre dizendo que estava em reuniões com contratantes, negociando com eles. Ela havia participado de algumas daquelas reuniões, então sabia que ele falava a verdade—na maioria das vezes.
Ela também sentia que precisava mostrar sua gratidão sempre que possível. Isso significava não importunar quando ficava dias sem vê-lo. Significava não reclamar tanto quando ele queria algumas coisas na cama. Significava não se irritar por, apesar dele ter comprado um bar e confiado nela para dirigi-lo, nunca ter mencionado a palavra casamento. Danielle tinha certeza de que Sam não tinha intenção de se casar. E, por ora, ela estava de bem com a ideia, então não tinha motivos para reclamar.
Além disso... do que ela poderia reclamar? Finalmente, tinha conhecido um cara que a tratava com dignidade—quando estava por perto—e estava no caminho para facilmente chegar ao sucesso.
É porque a maioria das coisas que parecem boa demais para ser verdade, geralmente são, pensou.
Ao chegar à sala onde seria o lounge, Danielle pôs sua digital no celular. Ela fez anotações de onde as caixas de som poderiam ficar e anotou também que seria bom colocar uma janela na parede dos fundos. Era fazendo coisas assim que ela via o sonho se tornando realidade. De alguma maneira, aquilo tudo estava acontecendo para ela.
- Ei...
Ela virou-se e viu Sam parado na porta. Ele estava sorrindo e olhando para ela com uma expressão que geralmente significava que ele estava com vontade de algo a mais.
- Ei, você – Danielle respondeu.
- Eu sei que isso pode te decepcionar – ele disse. – Mas sério... nas próximas semanas, tudo o que vou precisar de você vão ser algumas assinaturas.
- Você está me fazendo trabalhar muito – ela brincou.
- Eu sinceramente esperava que o treinamento com a nova funcionária do bar demorasse mais. Não é minha culpa que nós acabamos contratando um gênio na arte de ser bartender. – Sam aproximou-se de Danielle e a segurou pela cintura. Ela olhou para cima, nos olhos dele, e como sempre, sentiu-se segura por um motivo estranho: aquilo a fazia sentir que ele estaria sempre olhando por ela.
- Vamos almoçar mais tarde – Sam disse. – Algo simples. Pizza e cerveja.
- Pode ser.
- E amanhã... o que você acha de irmos a algum lugar. Uma praia... South Carolina ou algo assim.
- Sério? Parece algo espontâneo e exagerado com todo esse trabalho que temos por aqui. Em outras palavras.. foi você mesmo que disse isso?
- Eu sei. Mas eu ando tão focado nesse projeto... Percebi que ando dando pouca atenção para você. Então quero me desculpar.
- Sam, você está me dando meu próprio negócio. É mais do que suficiente.
- Tudo bem. Vou ser egoísta nisso então. Quero fugir de tudo isso aqui e ficar pelado e sozinho com você perto do mar. Melhor?
- Na verdade, sim.
- Que bom. Então vá até o bar, veja como anda a novata. Vou te buscar para o almoço perto do meio dia.
Danielle deu um beijo em Sam e, mesmo vendo que ele estava com pressa, tudo o que ele acabara de dizer mexeu com ela. Ela sabia que, para ele, era difícil ser emotivo e sincero. Raramente Danielle via aquele lado do namorado e por isso, quando ele demonstrava algo, ela preferia não questionar.
Ela caminhou pelos espaços quase todos abertos do prédio antigo que logo seria seu bar-restaurante-lounge. Era difícil ver o local como sendo dela, apesar de ser, de fato.
Quando saiu, Danielle viu que o sol estava mais forte do que quando entrara. Ela sorriu, tentando entender tudo o que sua vida havia se tornado. Pensou novamente em Chloe e decidiu ligar para a irmã nos próximos dias. Todo o resto de sua vida estava indo bem, então seria bom tentar ajustar sua relação tensa entre as duas.
Ela entrou no carro e seguiu para o outro bar de Sam—o bar que havia a contratado para trabalhar lá, seis meses antes. Estava tão distraída com a ideia de viajar com ele no final de semana que não percebeu o carro parado no lado da rua aproximando-se atrás dela.
Se tivesse percebido, poderia ter reconhecido o motorista, mesmo estando há muito tempo sem vê-lo.
Ainda assim, uma filha nunca esqueceria o rosto de um pai.
Quando Chloe e Moulton chegaram no escritório de Garcia, o Diretor Johnson já estava lá, esperando por eles. Parecia que ele e Garcia estavam olhando os arquivos do caso. Garcia tinha alguns abertos na tela de seu computador, enquanto Johnson tinha uma pequena pilha de impressões nas mãos.
- Obrigado por virem tão rápido – Johnson disse. – Temos um caso em Virginia—numa cidade pequena do outro lado de Fredericksburg, num bairro rico. E eu devo começar dizendo que a família da vítima tem amigos políticos muito poderosos. Por isso fomos chamados. Bom, por isso e pela natureza grotesca da morte.
Ao sentar-se à pequena mesa nos fundos do escritório de Garcia, Chloe fez o possível para não parecer óbvio que estava tentando criar uma distância entre ela e Moulton. Ela sabia que provavelmente estava radiante, sem conseguir esconder a alegria pelo que havia acontecido na noite anterior. Não sabia como Johnson reagiria a qualquer tipo de relação entre os dois, e não gostaria de fazer o teste.
- Qual é o caso? – Chloe perguntou.
- Quatro dias atrás, um marido chegou em casa do trabalho e encontrou a esposa morta – Garcia disse. – Mas é mais do que isso. Ela não foi simplesmente morta, mas sim brutalmente. Tinha muitas facadas, dezesseis pelas contas do legista. A cena do crime estava uma bagunça, sangue por tudo. Diferente de tudo que a polícia local já viu.
Ele entregou uma pasta para Chloe com um olhar de preocupação. Chloe segurou-a e abriu devagar. Viu uma foto do crime e, então, fechou a pasta rapidamente. Pela rápida olhada na foto, a cena parecia mais um matadouro do que um assassinato.
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