Enquanto caminhava para voltar ao estacionamento, seu telefone tocou. Pegou-o imediatamente. Provavelmente seria Danielle ou seu pai. Se fosse seu pai, ela pensou que poderia atender e inventar alguma desculpa por estar ignorando as chamadas dele. Imaginou que ele aceitaria qualquer desculpa, já que havia reaparecido na vida dela de repente depois de quase vinte anos.
Mas o número que Chloe viu na tela não era de seu pai, nem de Danielle. Era um número do FBI. Ela arrepiou-se um pouco ao atender. Uma ligação no domingo provavelmente significaria uma segunda-feira estressante.
- Agente Fine falando –atendeu.
- Fine, é o Johnson. Onde você está agora?
Chloe precisou segurar uma risada antes de responder.
- Na cidade – respondeu da forma mais vaga possível.
- Preciso que você visite a cena de um crime em Falls Church. Parece ser algo exatamente em sua especialidade. Um bairro rico, uma socialite assassinada.
- Hoje?
- Sim, hoje. O corpo foi encontrado na sexta pela manhã. A polícia já fez o que pode e não achou nada.
- Só um corpo?
- Sim. Mas precisamos de uma agente nessa para ter certeza de que esse crime não está conectado a um caso parecido, naquela região, no ano passado.
- Senhor... você acha que Rhodes pode lidar com isso sozinha? Eu estou lidando com alguns problemas pessoais.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
- Alguém morreu? Algum parente está morto?
- Não, senhor.
Chloe sabia que Johnson sabia dos detalhes da história de seu pai. Perguntou-se se ele estaria pensando naquilo no outro lado da linha.
- Desculpe, Fine. Você passou três semanas em uma sala, juntando perfis. Eu quero você em campo. Eu quero você e Rhodes em Falls Church em três horas. Vocês duas vão dar conta disso.
Chloe abriu a boca para reclamar, mas parou. Ela não queria entrar a fundo em uma investigação de assassino com tudo o que estava acontecendo em sua vida. Mas ao mesmo tempo, sabia que envolver-se em um caso poderia ser exatamente o que precisava. Ela não apenas se distrairia de seu drama com seu pai, mas poderia recolocar sua mente em ação para descobrir o que fazer para entregá-lo.
- Tudo bem, senhor – ela disse. – Vou ligar para Rhodes já.
E assim, Chloe recebeu seu primeiro caso de verdade em três semanas. O momento não era o melhor, mas ela não podia reclamar. Afinal de contas, ela havia entrado no FBI para ajudar pessoas em necessidade—para fazer justiça em um sistema criminal no qual jamais confiara totalmente.
Pelos últimos acontecimentos envolvendo seu pai—inclusive suas ideias homicidas sobre ele—o timing daquele pensamento, ao entrar no carro e ligar para Rhodes, era quase perfeito.
Se Rhodes suspeitava que Chloe estava lidando com problemas pessoais, ela não fez questão de demonstrar isso no caminho até Falls Church. Na verdade, ela não havia dito nada sobre a mudança no comportamento de Chloe durante as três semanas em que elas tinham trabalhado juntas no projeto dos perfis—tentando criar o perfil de um homem que, supostamente, estava liderando uma série de assaltos armados a bancos de Nova York. Rhodes havia mantido qualquer pensamento para si mesma. Mesmo depois da parceria entre as duas ter mudado de patamar – após Chloe salvar a vida de Rhodes – ela não havia demonstrado sinais de que queria conhecer Chloe a nível pessoal.
E Chloe estava totalmente bem com aquilo.
Na verdade, a maior parte do caminho de Washington a Falls Church, em Virginia, aconteceu em silêncio. Johnson não havia dado muitas informações. Elas não sabiam quase nenhum detalhe do crime. Tudo o que ele havia dito era que um oficial local estaria no lugar para recebê-las quando elas chegassem.
O mais perto de uma conversa que as duas tiveram aconteceu quando elas saíram da rodovia para entrar em Falls Church.
- Você sabe bastante sobre essa cidade? – Rhodes perguntou.
- Um pouco. A maioria da população é de classe alta, eu acho. Mas esse bairro para onde estamos indo, pelo que eu me lembro do estudo de caso que fiz na academia, é uma das áreas mais ricas, principalmente por conta do que eles chamam de dinheiro velho.
- Ah, você diz que as pessoas são ricas lá porque mamãe e papai eram ricos e não tinham o que fazer com o dinheiro antes de morrer.
- Basicamente, sim.
Rhodes riu e olhou pela janela.
- Para mim, parece que eu e você nos tornamos as ‘agentes oficiais’ de casos assim. Mas enfim... o que você acha disso?
Chloe não havia pensado naquilo antes. Ela simplesmente encolheu os ombros e respondeu com sinceridade.
- Acho que todo mundo precisa ser especializado em algum nicho.
Rhodes não disse mais nada depois disso. Chloe estava fazendo o possível para demonstrar que não estava afim de conversa fiada naquele momento—tentando ser sempre direta, sem ser rude. Aparentemente, sua estratégia funcionou. Elas chegaram à cena do crime—uma bonita casa de dois andares em um bairro chique—sem dizer mais nenhuma palavra. A maioria dos terrenos tinham árvores ou varandas enormes. O bairro em si ficava um pouco distante dos outros, mais populosos, e cada casa tinha seu próprio espaço bem delimitado e longe das outras.
A simples presença de uma viatura na estrada já parecia algo estranho ali. Era como se aquela casa, agora, fosse um defeito naquele bairro perfeito.
Chloe e Rhodes estacionaram o carro e foram até a entrada da casa. A porta estava fechada, então Chloe bateu, sem querer simplesmente invadir, já que havia um policial esperando por elas. A porta foi atendida imediatamente. O agente que abriu a porta parecia ter trinta e poucos anos. Ele tinha a barba feita, era bonito e aparentemente surpreendeu-se ao encontrar duas mulheres no outro lado da porta.
- Somos as agentes Fine e Rhodes – Chloe disse. – Fomos enviadas para investigar o assassinato de Jessie Fairchild.
O oficial estendeu a mão e apresentou-se.
- Oficial Ed Nolan. Estou liderando o caso. Entrem.
Ele as levou para dentro, onde Chloe percebeu que a casa era maior por dentro do que parecia por fora. O hall tinha quase o tamanho da sala do apartamento de Chloe, e o teto estava a pelo menos três metros e meio de sua cabeça. O local parecia estar sem vida há um bom tempo, o que fez com Chloe sentisse um arrepio.
- Então, o que aconteceu aqui? – Chloe perguntou. – Tudo o que nos disseram é que precisamos lidar com a hipótese de uma conexão com um caso do ano passado.
- Qual caso? – Nolan perguntou.
- Três mortes por estrangulamento a cerca de sete quilômetros daqui – Rhodes disse. – Todas mulheres, todas entre quarenta e sessenta anos.
- Hum, acho que vamos poder eliminar essa conexão bem rápido.
- Por que? – Chloe perguntou.
- Bom, o corpo obviamente já foi removido, mas eu posso mostrar as fotos para vocês. A senhora Fairchild não foi morta por estrangulamento, ainda que ela também tenha sido estrangulada. O que a matou foi um corte na garganta... mas de um jeito estranho que eu nunca vi antes.
Ele as levou até a cozinha e pegou uma pasta de arquivos no balcão. Utilizou-a para apontar para as escadas e disse:
- A diarista encontrou o corpo no quarto principal, no andar de cima. Ela foi até lá enquanto a pia da lavanderia ficou enchendo. Obviamente ela ficou assustada ao encontrar o corpo, tanto que a pia acabou transbordando.
- Vamos olhar o quarto, então – Chloe disse.
Nolan assentiu e as levou. Enquanto caminhavam pela casa, Chloe percebeu que ou a diarista era excelente em seu trabalho, ou os Fairchild sabiam como manter uma casa limpa.
O corredor do andar de cima era tão impressionante quanto o de baixo. Uma estante de livros ficava no fim do hall, embutida na parede. Havia quatro cômodos no andar, sendo dois quartos, um banheiro secundário e um escritório.
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