Eu fui até a lagoa e sorri, enquanto olhava para o grande porção de água. Tinha visto veados, coelhos e pequenos ursos bebendo tarde da noite ou de manhã cedo. Toda a propriedade era cercada por bosques. A área era exuberante, graças ao clima chuvoso do norte da Inglaterra.
Abrindo o pequeno portão da cerca do jardim, saí em busca de um pouco de manjericão para colocar no meu sanduíche de tomate para o almoço. Havia tantas ervas e plantas, e eu só conheço um terço delas… acho. Alecrim e hortelã eram as mais óbvias. O resto eu aprenderia com o tempo, se não perdesse tudo para o mato.
Encontrei o que procurava no canto mais próximo do cemitério. Meu olhar desviou para o túmulo recente. Minha visão turvou quando li o nome da minha avó. Um ping começou na minha cabeça. Essa era a única maneira que eu poderia descrever aquilo.
Havia algo batendo nas paredes do meu crânio, quase como se fosse uma abelha presa em uma panela. Nunca senti algo assim antes. O estresse do mês passado deve estar me afetando.
Respirei fundo e pensei em minha avó. Isidora Shakleton era inesquecível e uma parte importante daquela cidade. A maioria dos residentes de Cottlehill Wilds compareceu ao funeral dela.
O ping desapareceu quando me virei e voltei para a casa. O interior era tão aconchegante quanto parecia do lado de fora. A porta dos fundos dava direto na cozinha, onde deixei o manjericão antes de passar pela pequena sala de estar e subir as escadas para o meu quarto.
A colcha de retalhos que minha avó fez ainda estava em sua cama. Minhas roupas e alguns dos meus pertences favoritos foram enviados para mim. O resto foi deixado para as crianças.
Eu realmente preciso de um novo edredom… e lençóis. Fiz planos para ir até a cidade para que pudesse comprar uma bela colcha e talvez um colchão novo. Eu juro que havia mais calombo na coisa do que na minha bunda e coxas. O que queria dizer muito.
Tendo a minha idade, seria chocante se a pessoa não carregasse uns quinze ou dez quilos a mais. Eu com certeza tinha meus pneuzinhos… além das dores nas juntas. Pensei, enquanto me abaixava para pegar a toalha que Skylar deixou jogada no piso de madeira.
Essa era uma coisa que eu não sentiria falta. As crianças, assim como meu falecido marido, nunca colocavam nada no lugar. Céus, como isso me dava nos nervos. Passei minha vida inteira cuidando de outras pessoas… tanto no trabalho quanto em casa. Juro que cuidar de pessoas estava no meu DNA.
Depois de terminar meu bacharelado em enfermagem, trabalhei em tempo integral na UTI de um hospital local por vinte anos e depois cuidei de Tim no final de sua vida. Talvez fosse isso o que havia de tão convidativo na casa da minha avó, não havia ninguém aqui para eu cuidar.
Depois de lavar a pasta de dente que deixaram grudada na pia, me virei e gritei. — Que porra é essa? — Minha boca se escancarou quando notei as toalhas de volta no chão. De onde diabos elas surgiram? Eu apenas as peguei e coloquei no cesto de roupa suja.
Fui para os outros quartos e tirei os lençóis das camas antes de endireitar as capas sobre os colchões. Quando terminei com o quarto em que Greyson estava hospedado, tropecei nos lençóis que não estavam mais na pequena pilha organizada que tinha deixado.
Fazendo uma pausa, coloquei minhas mãos em meus quadris e olhei ao redor. Alguém estava brincando comigo? Não encontrei nada fora do comum, então peguei a pilha e coloquei na cesta, em seguida carreguei minha carga escada abaixo.
Quando entrei no cômodo minúsculo nos fundos da cozinha, onde ficavam a máquina de lavar e a secadora, parei repentinamente quando notei o sabão tombado para o lado. — Tudo bem, vó, se você está assombrando o lugar para me assustar, não há necessidade. Não vou fazer muitas mudanças por aqui.
Foi quase como se a casa suspirasse ao meu redor. Balançando a cabeça com a minha idiotice, coloquei uma carga na máquina de lavar e entrei na cozinha. A visão do banquinho de madeira gasto perto da ilha da cozinha me lembrou de todos os dias em que costumava sentar lá quando criança e ouvir minha avó me contar histórias sobre Feéricos e Bruxas.
Eu invejava sua criatividade, nunca poderia inventar contos tão elaborados quanto os dela. Ela tecia contos sobre portais, fadas, dragões e gnomos. Quando me tornei mãe e meus filhos começaram a pedir por histórias, escolhia as minhas favoritas, daquelas que ela me contou.
Skylar amava o conto de uma pixie que buscou asilo com uma bruxa para fugir de uma besta cruel que a estava caçando. A pixie mal conseguiu evitar a besta e disparou por alguns bosques quando se deparou com uma barreira. Ela bateu com as pequenas mãos na barreira, implorando por ajuda. A bruxa ajudou e deu à pixie um pouco de madeira para viver e a fada deu à bruxa flores frescas em troca.
O conto favorito de Emmie era sobre uma família de gnomos que estava escapando de alguns barghests, cães negros monstruosos e sobrenaturais. Já Greyson preferia o conto sobre os transmorfos de dragões que precisavam fugir do vil Rei que os criou com a intenção de devastar e matar.
Com minha mente perdida em memórias, preparei um sanduíche e estava me afastando da janela quando um movimento chamou minha atenção. Eu respirei fundo e imediatamente comecei a engasgar com minha comida. Amassando a comida na minha mão, corri para a porta dos fundos e disparei por ela.
Eu ainda estava tossindo quando desci correndo os degraus. Depois de mais algumas tosses, consegui limpar minha garganta. — Posso ajudar? — Ainda parecia que a comida estava empacada no cano errado.
A mulher parou com a mão em uma erva de jardim e olhou para mim. Ela parecia ter quase trinta anos, talvez trinta e poucos, e tinha um cabelo ruivo deslumbrante. Minhas mãos alisaram minha camiseta rosa quando eu olhei para seu top e barriga chapada.
Ela ergueu uma das mãos e sorriu. — Ah, oi. Você deve ser Fiona, a neta de Isidora. Eu sou Aislinn. Achei que você já estaria em um avião e voltando para casa agora. Eu vi o carro partir horas atrás.
Cruzei os braços sobre o peito, espalhando maionese no meu seio esquerdo. Eu estava toda desarrumada, mas não me importei no momento. Não tinha ideia de como eram as coisas com a minha avó, mas não queria que as pessoas vagassem pela minha propriedade sempre que quisessem.
— Esta é minha propriedade e decidi ficar. Ouça, não tenho certeza de que acordo você fez com minha avó, mas gostaria de um aviso antes que saísse por aí roubando minhas coisas.
Os olhos de Aislinn saltaram das órbitas e sua mão caiu para o lado do corpo. — Sinto muito. Como eu disse, imaginei que você tivesse ido embora. Eu só precisava de um pouco de cardo santo para uma poção, e Isidora sempre me permitiu colher os poucos ingredientes que preciso em troca de ajuda na manutenção daqui.
Isso trouxe um sorriso aos meus lábios. Minhas mãos relaxaram e pedaços de tomate caíram de dentro do pão. — Nesse caso, você é mais que bem-vinda. Honestamente, eu estava pensando em me livrar do jardim. Eu juro que tenho um “dedo preto”. Além disso, não tenho ideia do que seja tudo isso, ou para que serve.
Aislinn riu e cortou alguns galhos da planta que estava segurando. — Se você é parente de Isidora, você será capaz de manter as coisas vivas, mas ajudo com prazer. Esta se tornou minha terapia desde que meu marido me deixou, há um ano. Seu marido não veio morar com você?
Eu balancei minha cabeça de um lado para o outro quando um nó se formou na minha garganta. Sempre que falava sobre Tim, eu ficava à beira de desabar. Já havia passado tempo suficiente para que eu tivesse superado. Mas eu sabia melhor do que ninguém que não existia essa tal coisa de superar quando se tratava de algo assim. O luto era uma montanha-russa que te pega desprevenido, quando você menos espera, a dor surge. A perda de alguém que você ama nunca para de doer, não importa quanto tempo tenha passado.
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