"A doer."
Quando chegaram à saída, a porta abriu-se e dois soldados do Império estavam ali.
"Sartes!"
Antes de ela conseguir reagir, um soldado agarrou no seu irmão e outro agarrou-a a ela. Não adiantava resistir. O outro soldado balançou-a para cima do seu ombro como se ela fosse um saco de grão, levando-a dali. Temendo ter sido presa, ela batia-lhe nas costas, sem sucesso.
Já fora do Stade, ele atirou-a para o chão. Sartes aterrou ao lado dela. Alguns mirones formaram um semicírculo ao seu redor, de boca aberta, como se famintos pelo derramamento do seu sangue.
"Se entrarem novamente no Stade, serão enforcados", o soldado rosnou.
Os soldados, para sua surpresa, viraram-se sem dizer mais uma palavra e desapareceram de volta para a multidão.
"Ceres!", gritou uma voz profunda por cima do barulho da multidão.
Ceres olhou ficando aliviada ao ver Nesos e Rexus indo na direção de eles. Quando Rexus lançou os seus braços ao redor dela, ela engasgou-se. Ele chegou-se para trás, preocupado.
"Eu vou ficar bem", disse ela.
As multidões saíram do Stade e Ceres e os outros misturaram-se e correram de volta para as ruas, não querendo mais nenhum encontro. Caminhando em direção à Praça do Chafariz, Ceres repetiu na sua mente tudo o que tinha acontecido, ainda a cambalear. Ela notou que os seus irmãos olhavam para os lados e questionou-se sobre o que eles estavam a pensar. Teriam eles testemunhado os seus poderes? Provavelmente não. O omnigato tinha estado muito próximo. No entanto, ao mesmo tempo eles olhavam para ela com um novo sentido de respeito. Mais do que tudo ela queria dizer-lhes o que tinha acontecido. No entanto, ela sabia que não podia. Ela própria não tinha a certeza.
Havia tanta coisa por dizer entre eles, mas agora, no meio daquela imensa multidão, não era o momento de o fazer. Primeiro, eles precisavam de chegar a casa em segurança.
As ruas ficavam muito menos povoadas à medida que eles se afastavam do Stade. Caminhando ao seu lado, Rexus pegou numa das suas mãos e interlaçou os seus dedos nos dela.
"Estou orgulhoso de ti", disse-lhe ele. "Salvaste a vida do teu irmão. Não tenho a certeza de quantas irmãs o fariam."
Ele sorriu, com os olhos cheios de compaixão.
"Essas feridas parecem profundas", observou ele, olhando para as costas dela.
"Eu vou ficar bem", ela murmurou.
Era uma mentira. Ela não tinha de todo a certeza de que fosse ficar bem ou até de que conseguisse chegar a casa. Sentia-se bastante tonta com a perda de sangue e não ajudava nada o facto do seu estômago roncar e do sol a estar a incomodar, fazendo-a transpirar.
Finalmente, eles chegaram à Praça do Chafariz. Ao passarem pelas tendas, um comerciante foi atrás deles, oferecendo-lhes uma grande cesta de alimentos por metade do preço.
Sartes sorriu de orelha a orelha – o que ela achou um pouco estranho - e, em seguida, ele ergueu uma moeda de cobre com o seu braço saudável.
"Acho que te devo um pouco de comida", disse ele.
Ceres engasgou-se em estado de choque. "Onde é que conseguiste isso?"
"Aquela miúda rica na carruagem dourada atirou para fora duas moedas, não uma, mas as pessoas todas estavam tão focadas na luta entre os homens que nem sequer notaram”, respondeu Sartes, com o seu sorriso ainda muito intacto.
Ceres zangou-se e preparou-se para confiscar a moeda a Sartes e atirá-la. Aquilo era dinheiro de sangue, afinal. Eles não precisavam de nada que viesse de pessoas ricas.
Ao se aproximar para a agarrar, de repente, uma mulher velha apareceu e bloqueou-lhe a passagem.
"Tu!", disse ela, apontando para Ceres, com uma voz tão alta que Ceres sentiu-a como se vibrasse diretamente através dela.
A tez da mulher era ligeira, mas aparentemente transparente, e os seus lábios perfeitamente arqueados tinham uma tonalidade esverdeada. Bolotas e musgos adornavam o seu longo e espesso cabelo preto, e os seus olhos castanhos combinavam com o seu longo vestido castanho. Ela era bonita de se ver, Ceres pensou, tanto que ela ficou hipnotizada por um momento.
Ceres pestanejou, atordoada, certa de que nunca havia conhecido aquela mulher antes.
"Como é que sabes o meu nome?"
O seu olhar prendeu-se no da mulher e quando ela deu alguns passos na sua direção, Ceres reparou que a mulher cheirava fortemente a mirra.
"Veia das estrelas", disse ela, numa voz estranha.
Quando a mulher levantou o braço num gesto gracioso, Ceres viu que uma triquetra estava marcada no lado de dentro do seu pulso. Uma bruxa. Com base no aroma dos deuses, talvez uma vidente.
A mulher pegou no cabelo rosa dourado de Ceres e cheirou-o.
"Tu não és nenhuma estranha para a espada", disse ela. "Tu não és nenhuma estranha para o trono. O teu destino é grandioso, na verdade. Poderosa será a mudança."
De súbito, a mulher virou-se e foi-se embora a correr, desaparecendo por detrás da sua tenda. Ceres ficou ali, entorpecida. Ela sentiu as palavras da mulher a penetrarem a sua alma. Sentiu que tinham sido mais do que uma observação; eram uma profecia. Poderosa. Mudança. Trono. Destino. Eram palavras que ela nunca tinha associado a si própria antes.
Poderiam elas ser verdade? Ou eram apenas as palavras de uma louca?
Ceres olhou e viu Sartes a segurar uma cesta de alimentos, com a sua boca já recheada com pão mais do que suficiente. Ele estendeu-a para ela. Ela viu pastelaria, frutas e legumes, sendo quase o suficiente para quebrar a sua determinação. Numa situação normal ela teria devorado a comida.
No entanto, agora, por alguma razão, ela tinha perdido o apetite.
Havia um futuro à sua frente.
Um destino.
*
A caminhada para casa tinha levado quase uma hora a mais do que o habitual. Permaneceram todos em silêncio durante todo o caminho, cada um perdido nos seus próprios pensamentos. Ceres só conseguia pensar no que as pessoas que ela mais amava no mundo pensavam dela. Ela mal sabia o que pensar de si mesma.
Ela olhou para cima e viu a sua humilde casa, ficando surpreendida por ter conseguido fazer todo o caminho, dada a forma como a cabeça e as costas lhe doíam.
Os outros haviam-se separado dela há algum tempo, para fazer um recado ao seu pai, e Ceres entrou sozinha na soleira que rangia, preparando-se, esperando não encontrar a sua mãe.
Ela entrou num banho de calor. Dirigiu-se para o pequeno frasco de álcool de limpeza que a sua mãe tinha guardado sob a sua cama e tirou-lhe a rolha. Fê-lo com cuidado para não usar demais senão podia ser detetado. Preparando-se para a picada, ela arrancou a sua camisa e derramou-o pelas costas.
Ceres gritou de dor, cerrando o punho e inclinando a cabeça contra a parede, sentindo mil picadas das garras do omnigato. Ela sentia como se aquelas feridas nunca se fossem curar.
A porta abriu-se com força e Ceres encolheu-se. Ela ficou aliviada ao ver que era apenas Sartes.
"O Pai precisa de ter ver, Ceres", disse ele.
Ceres notou que os seus olhos estavam ligeiramente vermelhos.
"Como é que está o teu braço?", perguntou ela, assumindo que ele estava a chorar de dor por causa do seu braço ferido.
"Não está partido. Apenas torcido". Ele aproximou-se e o seu rosto ficou sério. "Obrigado por me teres salvado hoje."
Ela ofereceu-lhe um sorriso. "Como é que eu poderia estar em outro lugar?", disse ela.
Ele sorriu.
"Vai ter com o Pai agora", disse ele. "Eu vou queimar o teu vestido e o pano."
Ela não sabia como ela seria capaz de explicar à sua mãe como é que o seu vestido, de repente, tinha desaparecido, mas a peça de roupa herdada definitivamente tinha de ser queimada. Se a sua mãe a encontrasse no seu atual estado - ensanguentado e cheio de buracos – não haveria quem conseguisse dizer o quão severa a punição seria.
Читать дальше