“Sim”, respondeu Jessie, mantendo o tom excessivamente confiante. “O Executor de Ozarks pode ter entrado na clandestinidade, mas ele ainda tem uma vítima em suas garras.”
“Os pesadelos pioraram desde a última vez que nos encontramos?”, Dra. Lemmon perguntou.
“Eu não diria que pioraram”, corrigiu Jessie. “Eles permaneceram praticamente ao mesmo nível de terrivelmente horríveis”.
“Mas eles se tornaram drasticamente mais frequentes e intensos quando você recebeu a mensagem, correto?”
“Suponho que estamos falando sobre a mensagem que Bolton Crutchfield me transmitiu revelando que esteve em contato com meu pai, que gostaria muito de me encontrar.”
“Essa é a mensagem que estamos falando.”
“Então sim, corresponde à época que eles pioraram”, Jessie respondeu.
“Deixando de lado os sonhos por um momento”, disse Dra. Lemmon, “queria reiterar o que lhe contei anteriormente.”
“Sim, Doutora, eu não esqueci. Na sua condição de assessora do Departamento de Hospitais Estaduais, Divisão de Não-Reabilitação, você consultou a equipe de segurança do hospital para garantir que Bolton Crutchfield não tenha acesso a nenhum pessoal externo não autorizado. Não há como ele se comunicar com meu pai para que ele conheça minha nova identidade.”
“Quantas vezes eu já disse isso?”, Dra. Lemmon perguntou. “Deve ter sido algumas para você memorizar assim.”
“Vamos apenas dizer que foi mais de uma vez. Além disso, me tornei amiga da chefe de segurança da instalação da DNR, Kat Gentry, e ela me disse basicamente a mesma coisa: eles atualizaram seus procedimentos para garantir que Crutchfield não tenha comunicação com o mundo exterior.”
“E ainda assim você não parece convencida”, observou Dra. Lemmon.
“Você estaria?”, Jessie perguntou. “Se seu pai fosse um assassino em série conhecido no mundo como o Executor de Ozarks e você pessoalmente o visse eviscerar suas vítimas e ele nunca fosse pego, sua mente ficaria tranquila por conta de algumas superficialidades?”
“Eu admito que provavelmente seria um pouco cética. Mas não tenho certeza de como seja produtivo insistir em algo que você não pode controlar.”
“Eu estava querendo abordar isso com você, Dra. Lemmon”, Jessie disse, deixando de lado o sarcasmo agora que ela tinha um pedido genuíno. “Temos certeza de que não tenho controle sobre a situação? Parece que Bolton Crutchfield sabe muito sobre o que meu pai tem feito nos últimos anos. E Bolton ... gosta da minha companhia. Eu estava pensando que outra visita para conversar com ele podia ser de mais valia. Quem sabe o que ele pode revelar dessa vez?”
A Dra. Lemmon respirou fundo ao considerar a proposta.
“Eu não tenho certeza se jogar jogos mentais com um notório assassino em série é o melhor próximo passo para o seu bem-estar emocional, Jessie.”
“Você sabe o que seria ótimo para o meu bem-estar emocional, Doutora?” Jessie disse, sentindo sua frustração aumentar apesar de seus melhores esforços. “Não temer que o meu pai psicótico possa pular de um canto qualquer e me esfaquear toda.”
“Jessie, se apenas conversando comigo sobre isso você fica tão irritada, o que vai acontecer quando Crutchfield começar a pisar nos seus calos?”
“Não é o mesmo. Eu não tenho que me censurar quando estou aqui com você. Com ele eu sou uma pessoa diferente. Sou profissional”, disse Jessie, certificando-se de que seu tom fosse mais medido agora. “Estou cansada de ser uma vítima e isso é algo tangível que posso fazer para mudar a dinâmica das coisas. Você vai pelo menos levar isso em consideração? Eu sei que sua recomendação é praticamente um ingresso de ouro nesta cidade.”
Dra. Lemmon olhou para ela por alguns segundos através de seus óculos grossos, seus olhos perfurando dentro dela.
“Eu vou ver o que posso fazer”, ela finalmente disse. “Falando em ingressos de ouro, você já aceitou formalmente o convite da Academia Nacional do FBI?”
“Ainda não. Ainda estou colocando minhas opções na balança.”
“Eu acho que você poderia aprender muito lá, Jessie. E não faria mal tê-lo em seu currículo quando você está tentando trabalhar aqui. Preocupa-me que deixar essa chance passar possa ser uma forma de auto-sabotagem.”
“Não é isso”, garantiu Jessie. “Eu sei que é uma ótima oportunidade. Só não tenho certeza se este é o momento ideal para eu me mudar para o outro lado do país por quase três meses. Estão mil coisas acontecendo na minha vida nesse momento.”
Ela tentou manter a agitação fora de sua voz, mas podia ouvi-la chegando aos poucos. Claramente a Dra. Lemmon também percebeu, porque logo mudou de foco.
“Ok. Agora que obtivemos uma visão geral de como as coisas estão indo, gostaria de aprofundar um pouco mais sobre alguns assuntos. Se bem me lembro, o seu pai adotivo veio aqui recentemente para ajudar você a se afastar um pouco. Eu quero conversar sobre isso em alguns instantes. Mas primeiro, vamos discutir como você está se recuperando fisicamente. Eu sei que você acabou de fazer sua última sessão de fisioterapia. Como foi isso?”
Os quarenta e cinco minutos seguintes fizeram Jessie se sentir como uma árvore tendo sua casca descascada. Quando acabou, ela estava feliz em sair, mesmo sabendo que a próxima parada seria a consulta para reconfirmar se ela poderia ou não ter filhos no futuro. Depois de quase uma hora com a Dra. Lemmon cutucando sua psique, ela achava que ter o seu corpo cutucado seria uma verdadeira brisa. Ela estava errada.
*
Não foram tanto as cutucadas que a desestabilizaram. Foi o resultado. A consulta em si foi bastante tranquila. A médica de Jessie confirmou que ela não tinha sofrido nenhum dano permanente e assegurou que ela deveria ser capaz de conceber no futuro. Ela também deu autorização para retomar a atividade sexual, algo que genuinamente não passava pela cabeça de Jessie desde que Kyle a tinha atacado. O médico disse que, salvo algo inesperado, ela deveria retornar a uma consulta para um acompanhamento daqui a seis meses.
Foi só quando ela estava no elevador no caminho para a garagem que ela se descontrolou. Ela não tinha certeza do porquê, mas sentiu como se estivesse caindo em um buraco escuro no chão. Ela correu para o carro e se sentou no banco do motorista arfando, deixando o choro nervoso tomar seu corpo.
E então, no meio das lágrimas, ela entendeu. Algo sobre a finalidade daquela consulta a atingiu duramente. Ela não teria que voltar nos próximos seis meses. Seria uma visita normal. Analisando o futuro próximo, o estágio em sua vida envolvendo uma gravidez havia efetivamente terminado.
Ela quase podia sentir uma porta emocional se fechar e era chocante. Somada ao seu casamento ter terminado da maneira mais chocante possível e à descoberta de que o pai assassino que ela pensava ter colocado no passado estava de volta ao presente, a percepção de que ela tinha tido um ser vivo dentro dela e agora ela não tinha mais, era demais para suportar.
Ela saiu da garagem, sua visão embaçada por olhos inundados de lágrimas. Ela não se importava. Ela se viu pressionando com força o acelerador na Robertson, indo na direção do sul. Era o começo da tarde e não havia muito tráfego. Ainda assim, ela entrava e saía loucamente das ruas.
À sua frente, em um semáforo, ela viu um grande caminhão em movimento. Ela pisou com força no acelerador e sentiu o pescoço ficar para trás quando acelerou. O limite de velocidade era de sessenta, mas ela estava passando acima de setenta, noventa, cem. Ela tinha certeza de que, se batesse no caminhão com força suficiente, toda a sua dor desapareceria em um instante.
Ela olhou para a esquerda e, enquanto passava, viu uma mãe caminhando pela calçada com seu filho criança. O pensamento daquele pequeno garoto vendo uma massa disforme de metal amassado, fogo crepitante e restos humanos carbonizados a fez voltar para a realidade.
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