– O senhor tem certeza? – Ela mordeu aqueles lábios deleitáveis. Ele ficou com inveja dos dentes dela.
– Tenho – disse e sorriu para ela. – Se ninguém mais se juntar a nós, poderemos movê-la. Caso cheguem… – Ele deu de ombros. – Não demorará muito para chegarmos a Londres. Então não vai incomodar demais.
– Se o senhor tem certeza…—
– Tenho – reassegurou. – Por favor, sente-se. – Ele apontou para os assentos.
Ela fez o que ele disse e tomou o assento de frente para ele. Gostava de tê-la ali. Rafe poderia olhar diretamente para ela sem precisar se desculpar por encarar. Ela era muito bonita mesmo.
– Perdoe-me, milady – disse ele. – Meus modos estão deficientes. Minha mãe me mataria se pudesse me ouvir.
– Mas tem os modos impecáveis, senhor…—
– Rafe – disse. – Não nos agarremos às formalidades. Não é muito divertido.
Os lábios dela se contorceram em um sorriso travesso.
– Eu deveria lhe dizer que não sou uma lady. Embora meu pai fosse amar se eu me casasse com alguém da nobreza.
– Você está vestida como uma dama – disse ele. – Isso é próximo o bastante para respeitar o decoro.
– Então teríamos que voltar às formalidades, o que seria uma pena… – Ela lambeu os lábios, sedutora. Rafa conseguiu afogar o gemido antes que ele passasse por sua garganta. – Queria que fôssemos… amigos. Acho que é essa palavra que estou buscando. Se vamos ser amigos, então você pode me chamar pelo meu nome e então poderei chamá-lo pelo seu.
– Isso me parece justo – disse ele. Rafe queria mais do que ser só amigo dela. – Mas primeiro a senhorita precisa me dizer o seu nome para que possamos prosseguir dessa forma.
– O senhor está certo, é claro – disse ela, e então suspirou. – Meu nome é Aletha.
– É um prazer conhecê-la, senhorita Aletha.
– Eu acho que seremos os melhores amigos, Sr. Rafe.
Os lábios dele se contorceram. Talvez a corrigisse mais tarde. Por agora, iria aproveitar aquele faz de conta…
Aletha não esperava um encontro com um homem enigmático durante a viagem para Londres, mas, ainda assim, seria eternamente grata pelo acontecido. Ele era maravilhoso com aqueles cachos escuros meio compridos demais. O cabelo roçava um pouco além do colarinho e tinha uma textura interessante. Queria erguer a mão e tocar o cabelo dele para ver se era tão sedoso quanto parecia, mas firmou as mãos recatadamente no colo. A última coisa que queria era assustá-lo. Não se lembrava de alguma já ter ficado tão encantada por um homem. Esse tinha olhos impressionantes que pareciam mais prateados do que acinzentados. Rafe … ela até mesmo gostava do nome. O sotaque dele fazia os dedos dos seus pés se curvarem. Resumindo, ele era uma tentação.
– O que lhe trouxe à Inglaterra? – perguntou ele. Os olhos pareciam brilhar na luz da manhã. Aletha disfarçou um suspiro. Não precisava ficar sonhando acordada com ele. Aquilo poderia afastá-lo completamente.
– Obrigações familiares – respondeu ela. Aletha não queria falar sobre o casamento com ele. Aquela hora era dela, e pretendia aproveitá-la. Além do mais, só conhecia William Collins de passagem. A irmã dele foi quem meio que entrou para a família por meio do casamento. Mas o fato não impediu seus pais de aproveitarem a oportunidade de ir ao casamento e mandar que ela fosse também. Eles esperavam que ela conhecesse um lorde alguém e que o enredasse. Haveria muitos no evento.
– Ah – disse Rafe, o tom sugerindo que ele tinha entendido. – Elas podem ser um pouco entediantes. Embora, às vezes, também podem ser divertidas. Há algo do tipo me arrastando para Londres.
Ela ergueu os lábios.
– Espero que a sua esteja puxando mais para o lado divertido.
– Tenho certeza de que sim. – Os lábios de se ergueram nas comissuras. – Isso se o passado for indicativo de alguma coisa.
Aletha pensou em perguntar sobre as outras ocasiões, mas se segurou. O passado não importava. O que importava era o aqui e o agora. Aquela hora. O primeiro encontro entre os dois e para onde aquilo iria. Poderia convidá-lo para o casamento. Ninguém se importaria. Talvez seus pais… eles queriam alguém de posição mais elevada para ela. Ninguém nunca perguntou o que ela queria. Se tivessem perguntado, o avô teria permitido que ela tomasse parte na Carter Candy Company vários anos atrás. Até mesmo agora, ele não tinha concordado. Aquele era um teste e mesmo se ela passasse, ele podia muito bem ignorar a sua potencialidade como futura funcionária só porque ela nasceu mulher.
Aletha não queria contar nada daquilo para Rafe. Gostou dele, mas não o conhecia. Porém, aquilo lhe daria algo sobre o que falar além do casamento. Se ele fosse como a maior parte dos homens que conhecia, ele não teria a mínima vontade de sossegar e arranjar uma esposa. Bastava a palavra casamento ser mencionada para o seu irmão inventar uma desculpa para se esquivar da conversa e praticamente fugir da sala.
– Isso é bom. Só pelo tom da sua voz, dá para perceber que é muito melhor do que inspecionar edifícios em potencial para negócios de especulação. – Apesar de Aletha ter gostado bastante de visitar o último deles. Tinha sido emocionante, e gostou do desafio. Esperava que o avô fosse ser sensato…
– Oh? – Ele ergueu uma sobrancelha. – Que tipo de propriedade a senhorita está procurando? Jamais tive a oportunidade de conversar com uma mulher de negócios. Os americanos são tão progressistas.
Não tão progressistas quanto desejava…
– Uma grande o bastante para expandir nossas operações para a Inglaterra. Irei saber quando a encontrar. Tenho mais algumas para visitar antes de voltar para casa. – De alguma forma, encontraria tempo entre as festividades do casamento.
– Que maravilhoso – disse ele. O tom sugeria que ele tinha sido sincero. Aquilo era um sopro de ar fresco. – Suponho que a senhorita as olhou antes de partirmos. É por isso que estava lá?
Ela sacudiu a cabeça.
– Bem – começou. – Parcialmente. Nosso navio aportou lá em vez de em Londres. Minha mãe odeia o porto de Londres. Fiquei para trás ontem e vi a propriedade e eles foram na frente para… – Aletha quase mencionou o casamento, mas se segurou. – Ela não queria esperar. Londres a chamava e acredito que ela tenha mencionado algo sobre compras. – Não foi uma mentira, não tudo. A mãe tinha tagarelado sobre visitar algumas de suas lojas favoritas. Aletha mal conseguiu segurar uma ou duas reviradas de olho. – Ela tem outras prioridades.
– Entendo…
– Tenho certeza de que sim. – Muitos homens acreditavam que tudo o que as mulheres queriam fazer era gastar o dinheiro deles com frivolidades. A mãe de Aletha se encaixava bem no estereótipo como se ele fosse uma gaveta forrada de seda. – E o que o senhor faz com o seu tempo? – Ela ergueu uma sobrancelha. – É um homem de negócios?
– De certa forma – respondeu ele, enigmático. – Minha família tem vários negócios dos quais eu cuido.
Se ele fosse um lorde inglês, ela presumiria que ele estivesse falando das obrigações com o título, mas o sotaque dele sugeria algo diferente.
– Desculpe a pergunta, mas de onde o senhor é?
– Por que a senhorita acha que eu não passo meus dias na Inglaterra? – Ele sorriu.
Ela abriu a boca para responder, mas se segurou. Como poderia declarar o óbvio sem soar grosseira?
– Perdoe-me – começou. – É só porque não consigo identificar o seu sotaque e tirei conclusões precipitadas. Suponho que o senhor poderia chamar a Inglaterra de lar.
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